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planetamarcia

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Dezembro 21, 2014

Fernando Pessoa, O Romance - Sónia Louro - Opinião

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“Fernando Pessoa, O Romance” tem uma intensidade para a qual eu não estava preparada. Por isso a leitura foi demorada e algo sinuosa.

Impossível, a meu ver, não admirar Fernando Pessoa, pelo génio e pelas tão humanas falhas. Quando alguém que se admira volta dos mortos para nos falar através de um livro, o medo remete esse livro para outra ocasião. Dá-se-lhe um tempo, deixa-se respirar, eu própria também respirei, confesso, e preparei-me. Preparei-me, já consciente do que me esperava, para uma leitura única, poderosa, absorvente e, obviamente, perturbadora.

Admiro Sónia Louro por esta conquista, pela forma como se ofereceu para receber Pessoa, e como me convenceu tão bem de ser ele próprio a escrever este livro. Os louros a Louro pela coragem de misturar citações de Pessoa com o seu próprio texto, por ter transformado tudo com habilidade, obtendo um resultado estranhamente fantástico. Estranhamente porque, parando para pensar no que acabei de escrever, o resultado seria no mínimo estranho, hediondo ou tenebroso indo mais longe, mas na verdade o resultado é brilhante.

Fernando Pessoa foi, entre tantas coisas, astrólogo e médium. Dei por mim a pensar se, no meio das suas pesquisas, Sónia Louro, não terá descoberto um portal, uma dimensão, um qualquer canal de comunicação através do qual Pessoa lhe foi segredando e ditando este livro.

É que está aqui um trabalho de mestre. A escrita elaborada e por vezes complexa, que aprecio apesar de não ser a minha preferida, adequa-se ao formato e resulta muito bem.

Mas imagino o caminho tortuoso da escrita. A pesquisa exaustiva, as decisões de como e onde colocar as centenas de expressões e citações retiradas da imensa bibliografia. Imagino também a autora a padecer de sintomas “Pessoanos”, noites de insónia, medo de enlouquecer, receio de não chegar ao fim da obra. Mas chegou. E bem. Imagino que com um monte de gente na cabeça, mas com o prazer da conclusão, de assistir ao resultado do esforço, de saber que vai ser lida. Ou melhor dizendo, que Pessoa vai ser lido e admirado por mais leitores, que terão neste livro um acesso privilegiado à vida de um Homem que todos devem conhecer, com pormenores curiosos e cómicos, com relatos sérios e sofridos de um homem que queria deixar a sua Obra a todos nós.

A sua mente perturbada, os traumas da infância, as inseguranças, os excessos toldaram-lhe a visão de si próprio. Amava a arte e a escrita mas nunca sentiu que tivesse capacidade de concluir o tanto que iniciou. Deixou que os seus heterónimos fossem melhores, tivessem mais talento, deixando-se ficar na sombra de um mar de gente que o acompanhava sempre, ofuscando-se a si próprio, receando sempre o contacto social, querendo estar só e nunca conseguindo.

Fernando Pessoa, na primeira pessoa, conta-nos tudo neste livro.

 

“E eu, o que era eu? Havia anos que vaticinara o aparecimento de um supra-Camões, referindo-me a mim sem o mencionar. Vieram outros para me ajudar nesta empresa. Veio o mestre Caeiro, o doutor Ricardo Reis, o Engenheiro Álvaro de Campos – que o Almada Negreiros até já achava melhor do que eu. Até o guarda-livros Bernardo Soares. Vieram mesmo entidades do Além. E o facto não provado, mas que tudo isto parecia provar, era que todos eles eram melhores do que eu.

- “Nada fui, nada ousei e nada fiz” – atirou Bernardo Soares.

As palavras do guarda-livros definiam-me melhor do que as minhas, embora as palavras dele e as minhas fossem as mesmas, uma vez que ele, ao contrário dos outros, era uma simples mutilação da minha personalidade.

Eu ouvia vozes dentro e fora da minha cabeça e por vezes via os corpos a quem elas pertenciam. (…). Todos eles eram eus.” (Págs. 164 e 165).

“Na Brasileira, no Martinho, era eu quem mais ouvia e menos falava, talvez porque o meu desejo mais profundo fosse falar largamente para o mundo todo através do que escrevia.” (Pág. 267)

“Conseguia principiar muito do que tinha na cabeça, mas não havia nada que conseguisse acabar. (…) Não havia homem com vontade mais férrea do que a minha para não fazer nada. Tinha a arca cheia de papéis, mas a cabeça ainda mais cheia de projectos e isso fazia-me sentir deslumbrado sobre a capacidade do cérebro humano, como podia guardar num espaço tão exíguo o dobro ou o triplo dos projectos literários que em papel a minha arca continha? (…) Uma vida não foi tempo suficiente para acabar nada! (…) Escrevia isto e escrevia aquilo, porque por pouco que fosse capaz de agir, era ainda menos capaz de não escrever. Precisava fazê-lo porque era preciso a alma para poder suportar a realidade de ter de viver e de agir, por pouco que fosse, e de ter de me conformar que havia no mundo outra gente. A minha sensibilidade repudiava a acção, contudo, simplesmente respirar, obrigava-me a agir.” (Págs. 376 e 377).

Sinopse

“Este é o romance biográfico de Fernando Pessoa, o poeta que foi muitos poetas. Órfão de pai aos cinco anos de idade, cedo perde a atenção da mãe quando esta volta a casar. Forçado a partir para a distante África do Sul, onde o nascimento de irmãos o isolam ainda mais, refugia-se em si mesmo e aí cria novos mundos. 
No fim da adolescência regressa a Lisboa, na vã tentativa de resgatar os poucos momentos da vida em que fora feliz. Aí conhece personalidades do mundo das artes e da literatura, como Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro ou Adolfo Casais Monteiro. É um dos fundadores da Orpheu, uma revista artística que foi recebida com escândalo pela crítica.
Correspondente comercial, inventor, tradutor, editor, publicitário e astrólogo, Fernando Pessoa procurou várias formas de ganhar a vida. E até o amor lhe bateu à porta quando conheceu Ophélia Queiroz. 
Fernando Pessoa, O Romance é uma obra magnífica, fruto de uma pesquisa meticulosa, e uma verdadeira homenagem ao maior poeta da língua portuguesa. Um poeta que Sónia Louro consegue dissecar, desvendando os seus segredos, medos, sonhos e, mais importante, a sua humanidade.”

Saída de Emergência, 2014

Outubro 27, 2012

Amália, O Romance da sua Vida - Sónia Louro - Opinião

Foi com grande curiosidade que iniciei esta leitura. O meu conhecimento sobre a vida de Amália Rodrigues era bastante reduzido, conheço uma parte do seu trabalho, colossal marco da nossa cultura, mas pouco ou nada sabia da pessoa Amália Rodrigues.

A ideia generalizada que eu tinha não era muito abonatória, confesso. Uma constante associação a uma atitude de arrogância e distância em relação ao público. Mas nada como ler e saber mais para mudar de ideias, ou confirmá-las.

Se por um lado me deparei com várias descrições de uma Amália humilde e tímida, em diversas ocasiões são apontados comportamentos que vão de encontro à ideia que exprimi acima. Continuo sem estar muito esclarecida em relação a este ponto, apesar do livro ser exaustivo no que toca a todos os passos da carreira da fadista, para mim esta dúvida persiste. Amália foi uma diva, com comportamentos de diva por esse mundo fora; tinha uma voz única, presença forte em palco, sinceramente não penso que a timidez lhe fosse abonatória na função de uma das grandes embaixadoras do nosso país.

Saber os detalhes das paixões e amores de Amália suscita curiosidade mas não tem o meu particular interesse. Senti que o tempo passa devagar neste livro, que percorremos mesmo todos os passos da vida da fadista. Achei interessante mas talvez demasiado exaustivo.

Este é o segundo livro que leio da Sónia Louro, gosto da escrita da autora e admiro muito o trabalho de pesquisa que prepara para os seus livros. Contudo, tenho de admitir que “O Cônsul Desobediente” me empolgou muito mais. A verdade é que o percurso de Aristides de Sousa Mendes me interessa e comove muito mais do que a vida de Amália Rodrigues. Não se pode sequer comparar.

Confirmo mais uma vez o talento de Sónia Louro, de quem espero ler mais livros, mas a verdade é que o meu interesse pela vida de Amália Rodrigues não foi suficiente para manter o nível elevado de interesse que gosto de ter quando leio. De nenhuma forma retiro mérito à autora, que me fez inclusive estar constantemente a trautear os fados da Amália, mas a verdade é que há figuras da nossa história e da nossa sociedade que me atraem muito mais.

Pelo mito, pelo percurso, por ser possivelmente a nossa grande diva de sempre, recomendo e aconselho esta leitura.

Sinopse

“Este é o romance sobre a vida de Amália, a fadista mais amada e, simultaneamente, mais desconhecida em Portugal. Operária numa fábrica de rebuçados, estreia-se a cantar em 1939. Movida apenas pela vontade de cantar e sem qualquer ambição, nem sonha que um dia será a maior artista portuguesa de sempre.
Ganhando rapidamente projecção internacional, deixa multidões rendidas à sua voz. E também os corações se rendem ao seu magnetismo: do simples povo a estrelas como Charles Aznavour ou Anthony Quinn. Mas enquanto destroça corações, o seu vive apenas desilusões. Várias vezes contempla o suicídio. Recebendo propostas milionárias para ficar a trabalhar no estrangeiro, o amor a Portugal fá-la sempre regressar. Ano após ano arrebata galardões, conquista os críticos e cruza-se com as grandes personalidades do seu tempo: Édith Piaf, Hemingway, Frank Sinatra.
No final da vida, o que pode querer alguém com o mundo a seus pés? A felicidade que nunca sentiu? A autoconfiança que nunca teve? Amália deixou-nos no dia 6 de Outubro de 1999 com uma só ambição: que a chorássemos quando morresse. Uma vida tão bela quanto inspiradora.”

Saída de Emergência, 2012

Novembro 01, 2009

O Cônsul Desobediente - Sónia Louro

 

Já há muito tempo que me interesso pela história de Aristides Sousa Mendes, apesar deste ser o primeiro livro que leio sobre a vida do Cônsul Português em Bordéus conhecido por salvar a vida de milhares de refugiados de guerra.

Movida pela grande curiosidade e enorme interesse por saber mais sobre a vida deste português, iniciei esta leitura.
Desconhecia a obra de Sónia Louro. Penso que o trabalho desenvolvido de recolha de informação e compilação de fontes para a organização da estrutura deste livro está muito bem conseguido. Tenho conhecimento de outros livros sobre a vida de Aristides Sousa Mendes, mas penso que nenhum concilia tão bem a utilização das fontes históricas com uma narrativa do género de um Romance. Peço desde já desculpa caso esteja a cometer alguma injustiça com algum autor que já tenha utilizado este método, a verdade é que o conhecimento de outros livros me foi transmitido por outro leitor e não por leitura própria, como já referi.
De facto, Sónia Louro dá-nos a conhecer a vida de Aristides de Sousa Mendes criando uma história envolvente, sempre baseada em factos – que nos são apresentados ao longo de toda a narrativa, o que faz com que este livro vá muito além de uma Biografia; é acima de tudo uma forma de expor e dar a conhecer a vida deste homem, passo a passo, desde o nascimento.
Apreciei muito a forma como é feita a separação dos capítulos. Apesar de a narrativa se iniciar em 1939, na altura em que são colocados ao Cônsul os entraves à livre emissão dos vistos, vamos alternando no tempo de forma a conhecer a fundo a vida de Aristides. Assim, e partindo do ponto-chave que é o ano de 1939, temos vários capítulos relativos a anos anteriores que nos ajudam a perceber a base da sua educação, o crescimento profissional e, claro, a vida amorosa e familiar. A dada altura deixam de se verificar os “saltos temporais” pois é como se os capítulos se encontrassem no tempo, ou seja, estamos num ponto da acção em que já estamos familiarizados com o passado, e a narrativa segue sem mais interrupções até ao final.  
Se tiver de escolher uma palavra para definir a sensação com que fiquei finalizada a leitura, teria de optar por “revolta”. Aristides de Sousa Mendes foi um altruísta, um homem que colocou completamente de parte o seu bem-estar e o futuro próspero da sua família, para permitir que tantos seres humanos pudessem sobreviver à Guerra. Apesar das suas raízes Aristocráticas, dos seus contactos com algumas das pessoas mais importantes e poderosas a nível político e social, e de se mover numa esfera francamente acima do cidadão comum, não permitiu que o poder político e as ordens superiores fossem mais fortes do que a sua imensa humanidade e espírito de ajuda a quem precisou dele para sobreviver. Tudo isto sem nunca fazer juízos de valor, sem nunca considerar que um ser humano é mais importante do que outro por ter determinada nacionalidade ou crença religiosa.
“Aristides de Sousa Mendes não terá salvado a humanidade, apenas trinta mil pessoas, mas por outro lado, também segundo o Talmude: “Quem salva uma vida salva todo o Universo”” (pág.370).
Aristides perdeu tudo. A sua carreira ficou arruinada, o Governo português nunca lhe deu outra oportunidade, apesar das imensas cartas e exposições enviadas por ele e pela família. Pela sua desobediência pagaram também os filhos, que nunca conseguiram em Portugal um emprego de acordo com os seus estudos e capacidades, e também a esposa que apoiou o marido em tudo mas que acabou por ser levada pela imensa tristeza em que se tornou a vida de ambos.
Apesar de ter morrido na miséria, doente e só, apesar de nunca ter em vida sido recompensado pelos seus actos de coragem e heroísmo, incutiu nos filhos ideais que certamente trarão frutos às gerações vindouras: uma das situações que mais me marcou nesta história foi a forma como a família de Aristides o apoiou nas suas decisões, e como tanto a esposa e os filhos foram incansáveis em todo o género de apoio prestado aos refugiados. Tudo por um mundo melhor, sem nunca querer nada em troca.
Uma a leitura obrigatória sobre a vida de um idealista, um Homem de fortes convicções, um Herói.
Recordo que a apresentação de “O Cônsul Desobediente” terá lugar a próxima quinta-feira, 5 de Novembro, pelas 18h30, no Piso 7 do El Corte Inglés em Lisboa. Contará com as presenças de Álvaro de Sousa Mendes e António de Sousa Mendes.
Sinopse
“Há pessoas que passam no mundo como cometas brilhantes, e as suas existências nunca serão esquecidas. Aristides de Sousa Mendes foi uma dessas pessoas. Cônsul brilhante, marido feliz, pai orgulhoso, teve a sua vida destruída quando, para salvar 30.000 vidas, ousou desafiar as ordens de Salazar.
Cônsul em Bordéus durante a Segunda Guerra, é procurado por milhares de refugiados para quem um visto para Portugal é a única salvação. Sem ele, morrerão às mãos dos alemães. Infelizmente, Salazar, adivinhando as enchentes nos consulados portugueses, proibira a concessão de vistos a estrangeiros de nacionalidade indefinida e judeus.
Sob os bombardeamentos alemães, espremido entre as ameaças de Salazar, as súplicas dos refugiados e sua consciência, Aristides sente-se enlouquecer. E então toma a grande decisão da sua vida: passar vistos a todos quantos os pedirem. Salvará 30.000 inocentes mas destruirá irremediavelmente a sua vida.”
 
Saída de Emergência, 2009