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planetamarcia

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Março 28, 2015

O Anibaleitor - Rui Zink - Opinião

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Um livro pequeno que me encheu as medidas. Enfim, não exactamente, pois eu já estava à espera de gostar muito, mas mesmo assim uma delícia a cada virar de página.

Mais do que um monstro assustador que devora livros, o Anibaleitor acorda, desperta e abana as estruturas de quem está cego pela trituradora quotidiana. Esta da trituradora não é minha, dou os devidos créditos à Renata Carvalho, mas é uma expressão tão boa que tive de a (ab)usar.

Um livro para todas as idades, principalmente se considerarmos a idade que temos na cabeça, e aquilo que os anos nos ofereceram como perspicácia. Os anos, a experiência, e claro, a escolha. O escolher viver observando, ou o passar pela vida vendo o que nos querem mostrar.

O Anibaleitor está recheado de coisas brilhantes que de certeza escapam a muita gente. Como de certeza muitas me escaparam a mim. Mas algumas apanhei e já não é nada mau. E mesmo para quem não apanhar nada nas entrelinhas, não deixa de gostar, pois está aqui um livro de aventuras de se lhe tirar o chapéu, com a vantagem de entusiasmar os mais jovens para a leitura.

Zink construiu um livro inteligente, que se deve ter em casa para ler muitas vezes, pois, de certeza, que a cada nova leitura, se vão descobrir novos tesouros.

Li este livro através da Roda dos Livros, obrigada Patrícia, fica a dica a todos aqueles que usam a desculpa absurda de que não me oferecem livros porque eu já tenho muitos (ridículo), ou porque não sabem que livro oferecer (há vales sabiam?), o Anibaleitor é um livro que eu adorava ter na minha estante.

“Devo dizer que a arte de roubar não é tão má como a pintam. Ao fim e ao cabo, é uma actividade de intercâmbio comercial como qualquer outra e, quase sempre, está longe de merecer a fama que desgraçadamente tem. O povo diz que atrás de uma grande fortuna está um grande roubo – só que não é apenas atrás das grandes fortunas materiais – as pequenas e até mesmo as espirituais também não se livram desta censurável génese. Toda a gente rouba alguma coisa a alguém: dinheiro, ideias, trabalho, tempo, paciência, até a própria vida. Apenas a alma não se rouba porque esta só pode ser comprada (ou melhor, vendida) pelo próprio dono, o que de resto muitos de nós fazemos com bastante agrado e, eu diria até, por um bem módico preço.” (Pág. 9)

“Como castigo obrigaram-me a ser escritor, uma sina que não desejo nem ao meu pior inimigo. É pior que prisão perpétua! Passamos o dia sentados a uma mesa, frente ao papel em branco ou ao computador em cinzento; o rabo amolece de tanto estarmos sentados, e ficamos a escrevinhar, a escrevinhar, sujeitos a artroses, a escrevinhar, a escrevinhar – histórias que, ainda por cima, quase ninguém lê, a menos que sejam adaptadas para cinema ou televisão. É muito frustrante, só vos digo.” (Pág. 106)

Sinopse

“O Anibaleitor conta a história de um jovem que, fugido à “guarda do reino”, embarca numa viagem em busca de um mítico e fabuloso animal, o Anibaleitor. Livro de aventuras, é acima de tudo um livro de aventura da leitura. Nesta magnífica novela, Rui Zink consegue ser, ao mesmo tempo, divertido, didáctico, comovente e, como sempre, estimulante.”

Teorema, 2010

Junho 19, 2013

O Destino Turístico - Rui Zink - Opinião

 

Temo que o que possa escrever sobre “O Destino Turístico” seja demasiado revelador. Um livro que não é o que parece ser à partida. Não é que haja uma grande reviravolta, a verdade é que só a partir de determinado momento comecei a absorver a história no seu real contexto. Isto aconteceu quando o Rui Zink entendeu que assim seria, e me revelou a verdade. Ou o que eu acreditei como sendo a verdade.

Uma viagem de férias para um destino diferente, que nunca cheguei ao certo a saber qual seria. Mas isso não é o mais importante porque pude imaginar, criar palcos de ação, decidir onde poderia colocar Greg, o viajante.

Na verdade esta leitura exigiu bastante de mim, como se estivesse sempre a pedir “completa-me” ou “dá-me uma lógica”. Senti que o meu modo de interpretar eram o fio condutor desta narrativa, como se fosse necessário juntar peças de modo criativo para a história fazer sentido. Fazer (algum) sentido na minha cabeça pelo menos. Um livro que poderá ser uma imensidão de livros, quantos leitores tenha para, mais uma vez, o construir.

Cedo percebemos que Greg não tem medo da morte, se calhar quer mesmo morrer. A viagem para um local de perigo iminente foi escolhida por si; como se desejasse partir e quisesse dar uma ajudinha ao destino colocando-se propositadamente em risco.

Neste estranho e perigoso destino turístico a morte está em todo lado. Há diversas pistas que ajudam a desconstruir o enigma mas eu confesso que não apanhei nenhuma: Na verdade só percebi que havia um enigma quando a explicação foi clara e óbvia. Foi bom ser surpreendida mas ao mesmo tempo senti-me um pouco perdida num cenário em que nem tudo batia certo durante demasiado tempo.

Mas foi bom. Uma experiência única. Como umas férias inesquecíveis. Recomendo!

E aquele estilo muito próprio do Rui Zink, com sátira e ironia social q.b., nos momentos mais inesperados que, subitamente, se tornam os mais acertados.

“Ora muito bom dia – o rececionista era a boa disposição em pessoa. Nada de admirar, pagavam-lhe para isso. Pela experiência de Greg, qualquer pessoa podia mostrar entusiasmo e boa disposição, desde que fosse paga para isso. Má disposição era mais difícil. Requeria uma dose mínima de sinceridade.” (Pág. 33)

“- Falai em mortes estúpidas! – Riu o companheiro da mulher.

Greg ia a dizer das suas, quando, por algum motivo (um familiar a quem aquilo ocorrera, talvez?), o motorista também afinou:

- E de que morte inteligente gostava o senhor de morrer, pode saber-se?” (Pág.46)

“Comer peixe até ser envenenado pelo mercúrio? Carne de vaca na esperança de ganhar uma encefalopatia espongiforme? Jogar à roleta russa com a gripe aviária ou a peste suína? Mastigar vegetais sem os lavar na esperança de sucumbir ao peso dos pesticidas? Métodos respeitáveis, todos, mas pouco mais do que isso. Na volta, mais valeria beber água do cano e rezar para que o chumbo acumulado fosse o equivalente ao de uma rajada de balas. Mas também aí os índices estatísticos não eram convincentes. Greg suspeitava, de resto, que a desconfiança geral em relação à água da torneira era meramente uma campanha bem orquestrada para quem fazia fortunas a vender essa mesma água em garrafas de plástico” (Pág. 86)

Sinopse

“Há um sítio onde se faz turismo de Guerra. Quem lá vai quer assistir e participar ao vivo em bombardeamentos, explosões e atentados.

Há anos que a Zona é tristemente célebre pelo estado contínuo de guerra civil... é um verdadeiro "paraíso infernal". Greg parece ser apenas mais um turista, mas o seu guia - após o desaparecimento de uma delegação de observadores filipinos - começa a questionar as suas verdadeiras intenções. Porque será que Greg decidiu visitar aquele inferno de horror quotidiano?!”

Teorema, 2008

Abril 25, 2013

A Instalação do Medo - Rui Zink - Opinião

 

Imaginar um empresa de Instalação de medo pode ser bizarro. Técnicos que nos batem à porta e instalam o medo em nossas casas como se fosse a instalação de um telefone ou serviço de internet.

Irónico e, acima de tudo hilariante, ter-me-ia feito rir muito mais se não me deparasse a cada instante com a realidade em que vivemos. Será ficção? Mas não é pura coincidência.

Repleto de expressões que nos são impostas todos os dias, na rua, no trabalho e até em nossas casas através da comunicação social, o medo aí está, a criar uma crise paralela à que já existe, que a adensa e entranha em todos nós.

Muitas vezes não damos por isso, pela forma como ficamos com medo da incerteza do que nos espera, de tal forma já vivemos assustados com todas as inúmeras possibilidades (todas terríveis) do futuro.

Uma brincadeira demasiado real que li num dia e me trouxe uma ressaca de sonhos temíveis no dia seguinte. Um livro que só lido. E deve ser lido.

É que o medo… já está mais que instalado.

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento.

Sinopse

Dois homens batem à porta. «Bom dia, minha senhora, viemos para instalar o medo. E, vai ver, é uma categoria».

Teodolito, 2012