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planetamarcia

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Junho 26, 2011

A Manhã do Mundo - Pedro Guilherme-Moreira - Opinião

 

Todos os livros têm uma razão para serem lidos. “A Manhã do Mundo” teve uma forma muito peculiar de chegar às minhas mãos. A verdade é que fui à sessão de apresentação deste livro sem saber nada de nada, nem nunca tinha ouvido falar do autor (vergonha!); fui por convite de uma amiga, o tema intrigou-me, os comentários de alguns leitores também… deste livro não esperava nada, estava em branco, curiosa mas a zero… certo é que me conquistou desde a primeira página e me arrebatou em vários momentos. Provavelmente posso considerá-lo uma surpresa, para já a maior (e melhor) surpresa deste ano.

Adoro quando me acontece gostar assim de um livro, apetece-me falar dele a toda a gente, discutir o tema e trocar ideias; escrever, escrever e escrever sobre ele…

Pedro Guilherme-Moreira escreve muito bem, é uma delícia percorrer todas as palavras escolhidas de forma sublime para conjugar frases que nos deixam a pensar mesmo depois de fechar o livro; senti que cada vez que fazia uma pausa as personagens ficavam comigo, apetecia-me saber mais e aprofundar as suas vidas, imaginava o que poderia ter acontecido se… pois…o “e se?” é a origem, a base de sustentação de todo este livro, o ponto de partida para uma viagem, ou melhor, para duas viagens inesquecíveis.

“E se alguém que assistiu a tudo acordasse a tempo de evitar a tragédia?”

Nunca tinha lido um livro escrito a partir dos acontecimentos dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nem sei se há mais algum. Achei algumas passagens aterradoras, não só por descreverem de forma muito real o que poderia ter passado pela mente das vítimas no momento de encarar a morte, mas também pelo paralelismo com outras situações históricas limite.

“Millard consegue finalmente ar e, simultaneamente, cai em si e apercebe-se do que acaba de fazer. Sem hesitar, salta. (…) Millard está a voar. Foi-se. (…) Vejo agora à minha frente as filas de judeus nus às seis da manhã de um dia de Inverno, na Polónia, há cerca de sessenta anos. (…) Não é uma fila para o extermínio, pelo menos não imediatamente, e a maioria destas pessoas vai fazer a marcha da morte, a fuga dos invasores por causa da chegada dos Aliados. (…) Estas filas passam-me à frente dos olhos enquanto me agarro não sei bem a quê nem a quem. Há pessoas que me puxam para baixo, de vez em quando, para me ganharem o lugar. Estico as pernas para deixar entrar cabeças junto aos meus pés, no canto inferior da janela. Tenho de me ajoelhar sobre elas, estou a ser fortemente pressionada pelas costas e em breve posso ceder. Decido não ficar na fila de corpos nus sujeitos a todas as tormentas. Decido não morrer asfixiada, queimada. Olho lá para baixo e já não me assusta como no princípio. (…) São oito ou nove segundos em que o pânico só está no primeiro. Depois desaparece. Ainda lutamos por algo em pleno ar. Depois somos nós. Eu, Thea. Eu, que saltei.” (págs.108, 109, 110).

Dei por mim a imaginar o processo de criação deste livro, o desenvolvimento de um fio condutor a partir de notícias da altura, mas se calhar a partir principalmente de imagens. Olhar para as imagens das pessoas que “escolheram” morrer a saltar, e desenvolver-lhes uma vida, uma rotina, o dia-a-dia que podia ser o de qualquer um de nós quando vai de manhã para o trabalho.

É este realismo que perturba e consome, não basta o facto dos acontecimentos serem verídicos, mas estamos perante um grupo de personagens cujas vidas se cruzam de forma tão real, que podia mesmo haver alguém como eles para quem o dia 11 de Setembro foi o último.

Criatividade. Está na base desta narrativa. Não só o surgimento das personagens com o seu círculo de relações e rotinas, mas também a introdução da dúvida, da hipótese de voltar ao início e evitar a desgraça. A exploração do mistério da existência de um universo ou dimensão paralela, que poderia permitir alguém (com esse “poder”) situar-se num momento anterior sabendo o que se iria passar. Conseguiria de facto contornar os factos históricos e alertar o mundo? Alguém acreditaria? Ou o terror de saber a morte dos que são mais próximos permitiria apenas evitar a morte de uma ou duas pessoas? Tratar-se-á de uma troca de lugares? Um mero desvio, uma alteração de nome na lista das vítimas. O mundo não ganha nem perde… o medo continua cá… e a vida nunca mais foi a mesma desde esse dia.

Recomendo este livro sem qualquer reserva. Parabéns à Dom Quixote por continuar a apostar em autores portugueses, são eles os embaixadores da nossa língua, infelizmente tão maltratada no dia-a-dia.

Sinopse

“No dia 12 de Setembro de 2001, Ayda encontrou-se com Teresa num café de Allentown e, com o jornal aberto sobre a mesa, foi implacável com os que tinham saltado das Torres Gémeas, chamando-lhes cobardes; mas não disse à amiga que, na verdade, o que sentia era outra coisa, uma grande frustração por o marido e o filho a terem abandonado e rumado a Nova Iorque num momento em que ela se recusava a tomar a medicação e lhes tornava a vida um Inferno - e de não ter coragem de fazer o que esses tinham feito.
Entre os que saltaram, estavam Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon - todos personagens fascinantes, com histórias de vida simultaneamente banais e extraordinárias -, que o acaso reuniu no 106.º piso da Torre Norte do World Trade Center naquela fatídica manhã. Se Ayda, por hipótese, conhecesse essas histórias e o drama que eles enfrentaram, decerto não os teria insultado tão levianamente. Mas poderá o destino dar-lhe uma oportunidade de rever a História?
Este é um romance admirável sobre o medo e a coragem, o desespero e a lucidez, a culpa e a expiação; mas é também um livro sobre Einstein e os universos paralelos, sobre o que foi e o que podia não ter sido. No décimo aniversário do 11 de Setembro, a memória não basta, é preciso combater o esquecimento indo para junto dos heróis que viveram o horror e compreender cada um dos seus actos - se necessário, saltar com eles, conhecer aquela que foi a manhã do Mundo.”

Dom Quixote, 2011