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planetamarcia

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Novembro 03, 2013

Diário de Inverno - Paul Auster - Opinião

 

Pegar num livro de Paul Auster é ter a certeza, ou pelo menos saber que há uma grande probabilidade de que nos espera algo extraordinário. “Diário de Inverno” é um livro fabuloso, uma espécie de dádiva do autor aos seus leitores, aos que leram os seus livros e acompanham a sua carreira, aos que gostam dele. Um compêndio de recordações e memórias, que escreve para si mas que oferece a todos que queiram ler. E devem ler, digo eu.

Paul Auster dirige-se a ele próprio como se falasse consigo, num tom confessional como quem fala com um velho amigo. Aos sessenta e quatro anos sentiu-se a entrar no Inverno da Vida e escreveu um livro sobre todas as estações do ano que o precederam. Uma escrita sublime e particularmente bonita, extremamente lúcida, de um homem que racionaliza, confronta e pensa por natureza.

Como se faz um escritor? A pergunta óbvia de qualquer aspirante aos universos tortuosos da escrita. Como se fez Paul Auster o escritor? Com dificuldades e dores como qualquer trabalho nascido de um dom e que necessita de aceitação para vingar. Foram duros os anos que demorou a chegar ao seu público, a ser o que é hoje, muitas as dificuldades, mas senti que lhe ficou o orgulho de ter lutado pelos seus cadernos de escritos. Mudanças, viagens, uma vida tão preenchida que podia ser dezenas de vidas ou mais. Auster sofreu mas gostou disso, eu acho. Tudo lhe serviu de inspiração e mote para escrever.

Todo o livro é recheado de descrições fabulosas, alguns apontamentos de recordações que vão surgindo, em cada tema consegue sempre viajar para situações caricatas ou determinantes no seu percurso. Ler este livro é quase como ter uma conversa, daquelas muito abrangentes em que um assunto leva a um acontecimento que leva a uma lembrança, a uma piada, a um casamento, a um divórcio ou a uma morte. Tudo pode acontecer. Como na vida.

Consigo dividir este livro em três grandes partes. Ou blocos. Todas as casas em que Auster viveu até ao momento presente. Grande parte do livro é dedicado a este bloco. Desde criança. E Paul Auster viveu em vinte e uma casas. Entre os Estados Unidos e uma fase que morou em França foram vinte e uma casas. Cada casa com dezenas, centenas, e algumas milhares de histórias da sua vida. Absolutamente brilhante a forma como conta episódios marcantes e os “arruma” na época em que viveu na casa X. E sempre os comentários opinativos sobe situações do dia-a-dia, que interpreta de forma muito própria e, por vezes, pessoal. Como é o caso deste excerto de que gostei particularmente, passado em França, acerca das casas dos Judeus que ficaram vazias durante a guerra:

“Talvez a palavra israelita te tenha deixado um pouco confuso, mas falavas o francês suficiente para saber que não era um sinónimo pouco frequente da palavra juif (judeu), pelo menos para as pessoas da geração da guerra, se bem que a experiência te dissesse que sempre tinha sido usada num certo sentido pejorativo, não tanto como uma declaração frontal de anti-semitismo mas como uma forma de distanciar os judeus dos Franceses, de fazer dos judeus uma coisa estrangeira e exótica, aquele povo do deserto, estranho e antigo, com os seus costumes engraçados e o seu Deus primitivo e vingativo. Se isso já era mau, o resto da frase tresandava de tal maneira a ignorância, a negação deliberada, que não sabias se estavas a falar com o maior simplório do mundo ou com um antigo colaboracionista de Vichy. Eles foram-se embora. Com certeza num cruzeiro de luxo à volta do mundo, numas férias ininterruptas de cinco anos passadas a gozar o sol do Mediterrâneo, a jogar ténis nas Florida Keys e a dançar nas praias da Austrália” (Pág. 58/59).

Segundo e terceiros blocos para as mulheres mais importantes na sua vida, a mãe e a mulher, a companheira de mais de trinta anos. Em relação a Siri, foram escritas palavras que me encantaram verdadeiramente, principalmente por entender que o autor sente ter encontrado um porto de abrigo (super cliché, eu sei, desculpem lá), depois de uma vida amorosa atribulada e até de certa forma azarada.

“Bela, sim, sem dúvida sublimemente bela, uma loira esbelta, de um metro e oitenta de altura, pernas compridas magníficas, e pulsos finos de uma menina de quatro anos, a maior pessoa pequena que alguma vez tinhas visto, ou talvez a mais pequena pessoa grande, e no entanto não estavas a olhar para um objecto distante de esplendor feminino, estavas embrenhado numa conversa com um sujeito humano que vivia e respirava. Sujeito, não objecto, e por isso não eram permitidas as ilusões. Não havia engano possível. A inteligência é a única qualidade que não se pode fingir, e, quando os teus olhos se adaptaram ao esplendor da sua beleza, percebeste que estavas na presença de uma mulher talentosa, uma das mentes mais brilhantes que tinhas conhecido em toda a tua vida.” (Pág. 155)

Um trecho arrebatador que me deixa sem palavras a cada vez que o leio, e que é a forma perfeita de terminar este texto. Leiam!

Sinopse

“Paul Auster, incansável criador de ficções e de personagens inesquecíveis, vira agora o olhar para si próprio e para o sentido da sua vida. As descobertas da infância e as experiências da adolescência, o compromisso com a escrita - que marcou a sua entrada para a idade adulta -, as viagens, o casamento, a paternidade, a morte dos pais... Uma vida que transborda das páginas deste Diário de Inverno, um definitivo autoretrato construído com a paixão e a transbordante criatividade literária que são as marcas distintivas da identidade deste escritor amado pelos leitores e admirado pela crítica.”

Asa, 2012

Janeiro 22, 2012

Homem na Escuridão - Paul Auster - Opinião

 

Há uns anos que não lia nada de Paul Auster. Este ano o Natal trouxe-me dois livros do autor, decidi-me por este “Homem na Escuridão” num impulso…abri a primeira página… e foi até ao fim.

Fico sempre surpreendida com a capacidade do autor em transmitir tantas coisas em livros tão pequenos, dá aquela sensação de leitura perfeita (se é que isso existe), todas as palavrinhas estão no sítio certo, a fazer todo o sentido, apesar do seu estilo muito próprio e até surreal.

Não é fácil comentar um livro destes. Facilmente me ocorrem expressões como “gostei muito”, “interessante”, “curioso”, “intrigante”, “brilhante”, mas custa-me unir ideias e concretizar uma reflexão. Senti tantas coisas diferentes ao ler este livro, esta história triste de um homem de 70 anos, viúvo, doente que, nas noites de insónia (todas) imagina e inventa histórias, ficção para terminar a própria vida.

Não é um livro deprimente. O início é bastante surreal e o desenvolvimento é de uma humanidade estonteante. É o percurso de vida de August Brill e os universos paralelos da sua imensa criatividade. August recupera de um acidente numa cama, em casa da filha divorciada, com a companhia da neta cujo namorado morreu. Três vidas de tristezas à procura de cura mas sem saberem o percurso para lá chegar, ou se querem lá chegar.

August cria uma América paralela, em guerra, em que um mercenário tem a missão de o matar e levar de vez deste mundo. Mas o livro adensa-se pela vida passada de August, pelo seu eterno amor a Sonia, extremo carinho pela filha e solidariedade pela situação de sofrimento da neta.

A dada altura torna-se uma partilha de experiências sem lapso geracional, avô e neta aproximam-se pela depressão mas descobrem o passado, a vida cheia e plena de August, os seus amores, a quantidade de relatos e coincidências estranhas (por vezes caricatas) que lhe sucederam ou de que tomou conhecimento. Um homem com uma vida mundana, por vezes boémio, que perdeu e recuperou o amor da sua vida, que teve sorte, que foi feliz e já nem se lembrava.

E de que servem as recordações quando não são mais do que isso? Quando já perdemos quem mais amamos e queremos ir embora também? Não servem de nada, só para contar como foi, o que se viveu e fazer acreditar quem sofre (neste caso a filha e a neta) de que vale a pena lutar para fora da tristeza e viver!

August achava que não tinha mais nada a fazer aqui mas eu acho que estava errado. A sabedoria e experiência dos mais velhos são (infelizmente) subvalorizadas, mas têm o poder do ensinamento e até da cura, basta ouvir, ou querer ouvir. A história de vida de August Brill é única e transbordante, por vezes comovente, outras vezes revoltante, muito caricata, mas é, acima de tudo completa. Fiquei sem saber se chegou ou não a hora de August partir, mas acho que ele prefere ficar mais uns tempos, “enquanto o bizarro mundo continua a girar” (pág.160).

Sinopse

“E se a América não estivesse em guerra com o Iraque mas consigo própria? Nesta América, as Torres Gémeas não caíram e as eleições presidenciais de 2000 conduziram à secessão, com estado após estado a abandonar a união e uma sangrenta guerra civil a instalar-se. Este mundo paralelo é criado pela mente e coração perturbados de August Brill, um crítico literário vítima de insónias. Com 72 anos, Brill está a recuperar de um acidente de viação em casa da filha, no Vermont e, para afastar recordações que preferia esquecer – a morte da mulher e o violento assassinato do namorado da neta –, conta histórias a si próprio. Gradualmente, o que Brill tenta desesperadamente impedir insiste em ser contado. Com a neta a juntar-se-lhe de madrugada, ele arranja finalmente coragem para revisitar os seus piores dramas.

Chocante e apaixonante, Homem na Escuridão é o exemplar romance do nosso tempo, um livro que nos obriga a confrontar a escuridão da noite, celebrando a existência das pequenas alegrias do dia-a-dia num mundo capaz da mais grotesca violência”.

Asa, 2008

Fevereiro 24, 2008

As Loucuras de Brooklyn

Um livro sobre pessoas e ambientes, um retrato de emoções e de relações humanas.

Um livro que me deliciou, que estranhamente li devagar, que quis aproveitar ao máximo.

 

Nunca estive em Brooklyn mas entrei no espaço e no tempo da vida das personagens, no entrelaçar de caminhos e cruzamento de percursos.

 

Personagens ricas, com histórias de vida com que nos identificamos e das quais queremos sempre saber mais.

 

" Um retrato carinhoso de uma cidade como refugio último do espírito humano. Soberbo!"

"Tendo como pano de fundo as polémicas eleições americanas de 2000, este romance conta-nos a história de Nathan e do seu sobrinho Tom. Ainda que de formas diferentes, são ambos solitários, atormentados...e vizinhos. Tendo acabado a viver no mesmo subúrbio de Brooklyn, juntos vão inesperadamente descobrir uma comunidade que pulsa de vida e lhes oferece uma imprevisível possibilidade de redenção.

Sob a égede de Walt Whitman, desfila neste livro toda a dimensão e multiplicidade de Brooklyn: os personagens típicos de bairro, drag queens, intelectuais frustrados, empregadas de cafés decadentes, a burguesia urbana, tudo isto sob olhar ternurento que Auster lança da mítica ponte de Brooklyn.

Um hino inesquecível às glórias e mistérios da vida comum."

 

Asa, 2006