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planetamarcia

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Julho 24, 2017

O Homem Domesticado - Nuno Gomes Garcia - Opinião

O Homem Domesticado.jpg

Foi com grande expectativa que comecei a ler O Homem Domesticado. Não só por ter gostado bastante do livro anterior do autor, O Dia em que o Sol se Apagou, mas porque a temática me interessa bastante.

Com linguagem mais simples, O Homem Domesticado, lê-se rapidamente. Confesso que a linguagem algo complexa do livro anterior me agradou muito. Mas percebo que um livro com uma temática distópica tenha de chegar ao leitor de forma diferente, mais realista e de acordo com a época em que se passa a acção.

Gosto de livros arriscados, e este tem uma componente de risco significativa. Vejamos, representa uma mudança de direcção em relação ao livro anterior, é arrojado, pois apesar de as histórias distópicas terem uma boa aceitação por parte dos leitores (pelo menos dos leitores que eu conheço), não há muitos autores portugueses que se aventurem por tais cenários.

Nuno Gomes Garcia sai de uma zona mais cómoda e arrisca (muito bem) numa história em que os homens são domesticados pelas mulheres. Eles fracos e frágeis, elas dominadoras, uma espécie de donas destes homens todos iguais, como que fabricados em série. Não há sexo, não há carinho, amor ou amizade. Há regras para tudo, que têm de ser criteriosamente respeitadas. Há, obviamente, o controlo característico de narrativas deste género.

Não sei até que ponto este livro pode sair prejudicado pela série The Handmaid’s Tale, baseado no livro de Margaret Atwood, dado que as semelhanças são óbvias, apesar de aqui os “servos” serem os homens. Se assim for, tenho pena, pois mais do que A História de uma Serva versão masculina, O Homem Domesticado tem uma amplitude diferente. A liberdade que é vedada aos homens, atinge aqui as mulheres de modo subtil, arrastando-as para uma escravatura diferente da dos homens, mas escravatura na mesma. Espero que os leitores lhe deem o benefício da dúvida antes de o rotularem como cópia invertida. Que não é.

A história tem um desenvolvimento interessante e inverso ao que se poderia supor, pois se nem sempre uma voz solitária consegue ser ouvida, poderá ser suficiente para faze ruir toda esta construção de sociedade? O pensamento e a liberdade, aqui de mãos dadas, poderão atacar as fragilidades desta estrutura? Como se reaprende a pensar? Ou perdeu-se tudo aquilo que entendemos como humanidade?

Um livro que pergunta mais do que responde, que levanta questões às quais não damos atenção suficiente. Não estaremos nós, nas nossas correrias, afazeres e compromissos, desviados cada vez mais do essencial? Se optarmos por continuar a adiar a reflexão e o pensamento, não estaremos a caminhar, de livre vontade, para a nossa própria distopia?

Leiam-no e pensem.

Sinopse

“Desde o tempo em que Marine alcançou o poder, dando início a uma nova era, a sociedade foi-se progressivamente desumanizando: os conceitos de amor e de amizade deixaram de fazer sentido, os prazeres são malvistos e o sexo está proibido pelo novo regime totalitário, até porque a reprodução passou a ser padronizada e desenvolvida artificialmente em laboratórios. 
As mulheres tornaram-se senhoras do mundo e submeteram os homens à condição de escravos - machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés.
A cidadã Francine Bonne é aconselhada pelas autoridades a escolher um segundo marido, depois de Pierre ter sido considerado um peso morto; mas desconhece que, ao trazer para casa um macho que foge ao cânone e cuja origem está envolta em mistério, a sua vida e a de Pierre sofrerão uma absoluta transformação. A ponto de o regime se sentir abalado com a possibilidade de um suposto retrocesso civilizacional…
Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva - tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflete de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade atual.”

Casa das Letras, 2017

Maio 14, 2017

Casa das Letras - O Homem Domesticado, de Nuno Gomes Garcia

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Desde o tempo em que Marine alcançou o poder, dando início a uma nova era, a sociedade foi-se progressivamente desumanizando: os conceitos de amor e de amizade deixaram de fazer sentido, os prazeres são malvistos e o sexo está proibido pelo novo regime totalitário, até porque a reprodução passou a ser padronizada e desenvolvida artificialmente em laboratórios.

As mulheres tornaram-se senhoras do mundo e submeteram os homens à condição de escravos – machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés.

Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva – tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflecte de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade atual.

Nas livrarias a 16 de Maio

Julho 08, 2015

O Dia em Que o Sol Se Apagou - Nuno Gomes Garcia - Opinião

O Dia em Que o Sol se Apagou.jpg

“O Dia em Que o Sol Se Apagou” recordou-me que os livros se devem apreciar devagar. Que a leitura lenta é um prazer. Que a releitura de algumas passagens é uma nova descoberta.

De tudo isto me tinha esquecido há anos, deixando-me pressionar pelo interesse nos livros por ler, deixando-me levar pelo desejo de saber o final, querendo simplesmente ler rápida e sofregamente, para ler sempre mais e mais livros. Possivelmente é chegada a hora de deixar de coleccionar leituras. É talvez a hora de aprender realmente a ler. Como quando se aprende a apreciar vinho, e se percebe, com o tempo, o que se ganha em esperar.

Como um bom vinho, este Sol que Se Apaga, tem o seu tempo de degustação. Degustei o primeiro capítulo várias vezes. E a habilidade da escrita permitiu-me lê-lo de várias formas diferentes, conforme avançava na leitura. Desde a primeira vez, achando que não fazia sentido, a segunda tendo claramente encontrado um erro cronológico grave, e tantas vezes lá voltei para confirmar, certificar, apurar, e concluir que tudo bate certo, não há erros, há sim um romance desafiador, construído de forma brilhante, e que, para minha sorte, tem algumas das coisas que eu mais gosto num livro: História, viagens, muito mistério e alguma fantasia. Esta última, na verdade, não sabia que gostava. Possivelmente, neste caso, gostei por ser dada em doses controladas e cuidadas, quase parecendo realidade. O poder de um livro pode medir-se pela forma como o impossível, ou pouco provável, é um dado adquirido de realidade para quem lê. Como um menino a quem roubaram os olhos existir, depois de ter cegado gente com o brilho do olhar.

Este é um romance que se apoia em factos históricos de forma rigorosa, revelando um cuidado na linguagem, adequada à época. Viajei com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva descobrindo locais exóticos onde o prazer nunca é excessivo, mas ao mesmo tempo fiquei num Portugal tacanho e sombrio, país de alma doente e fechada. Uma narrativa que, ao mesmo tempo que segue a linha esperada, se desvia do que é espectável, em saltos de espaço e tempo, obrigando a uma atenção, a uma participação activa para seguir os acontecimentos. Parece algo complexo e difícil. Mas não. É fácil. Torna-se um projecto, uma vontade, um tem de ser porque se lê com tanto gosto. Um prazer desafiante, muito mais profundo do que parece à partida, e com uma actualidade surpreendente.

Um livro que, estou certa, ninguém lerá da mesma forma. Por permitir criar tantos cenários de possibilidade, por oferecer várias interpretações, por não se esgotar.

Excelente. Recomendo sem reservas.

“- O mundo apequena-se a cada expiração que damos ou a cada passo que percorremos – expliquei-lhe. – E novas terras são descobertas todos os dias.” (Pág. 225).

Sinopse

“No dia 26 de março de 1487 o sol apaga-se subitamente no reino de Portugal. Sem explicação para tão súbitas trevas - que uns atribuem à maldade castelhana e outros à heresia dos judeus -, D. João II envia dois espiões em demanda da solução que restitua a luz ao País e evite o seu definhamento. Com Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva irá também, guardado num estojo, um par de olhos de diamante que outrora pertenceram a um menino chamado Mil-Sóis, cujo olhar cegava quem o encarasse, e que são a peça fundamental desta missão.
Enquanto Pêro da Covilhã narra o seu périplo de Lisboa à Etiópia, das Índias ao reino do Monomotapa, de Meca a Sofala, quase sempre disfarçado de mouro e constantemente perdido em bordéis, Salvador - um embalsamador albino com um estranho passado - ficará de guarda à mulher do espião, por quem nutre há muito um amor secreto, e não cessará de procurar os olhos que possam devolver a luz ao seu irmão Mil-Sóis.
É uma obra fascinante que inventa um cataclismo improvável para reescrever o período áureo da História de Portugal. Um romance de luz e sombra, de avanços e recuos, que cruza fantasia com rigor histórico. E que, no final, responderá a duas questões essenciais: irá o Sol regressar a Portugal? É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?”

Casa das Letras, 2015