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planetamarcia

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Maio 06, 2016

O Tempo do Senhor Blum e outros contos - Marlene Ferraz - Opinião

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Compenso os dias demasiado longos com histórias curtas. A injustiça das horas faz com que haja sempre um livro de Contos na minha vida. O salva-vidas do meu contra-relógio. O ponto final na leitura desses dias, já noite, aconchega-me na satisfação de conhecer o fim do que comecei a ler de manhã ou meia hora antes.

Depois de ler O Tempo do Senhor Blum e outros contos, sei que é preciso escolher palavras que galgam margens para escrever tanto nas páginas de um Conto. É preciso, talvez, ter o dom da invenção.

Senti, a cada página destes Contos cheios de flores e frutos, que era a primeira vez que lia, que estava apenas a aprender a juntar letras em palavras e palavras em frases. Por ser tudo novo e perfumado. Por ler muitas vezes a mesma frase, na surpresa do impossível ser verdade. Atentei na beleza e repeti-me na leitura, no espanto constante de não me cansar. Tentei perceber como se escreve assim e respondi-me que deve ser preciso nascer com uma linguagem própria, ou inventá-la pelo caminho.

Surpreendente e original, só me desilude não ter mais livros da Marlene Ferraz para ler (a autora publicou o romance A Vida Inútil de José Homem, que já li). Uma falha das nossas editoras, talvez mesmo um acto criminoso.

Procurem-no com persistência. É como encontrar um tesouro.

Prémio Afonso Duarte 2011/2012

Fevereiro 27, 2016

A Vida Inútil de José Homem - Marlene Ferraz - Opinião

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Não é fácil encontrar um livro que encante tanto pela história, como pela qualidade da escrita. Não consigo decidir o que pesou mais para me apaixonar por este romance.

A história comovente de um homem sozinho que prepara diariamente, num exercício de mentalização, a sua própria morte, mas que permite que um menino ocupe, aos poucos, o vazio dos seus dias.

José Homem e Antonino são os amigos improváveis que enchem de beleza as páginas que voam como se não houvesse tempo ou espaço. Se houvesse uma dimensão da leitura este seria daqueles livros que me levaria directamente para lá, para uma espécie de bolha isolada feita de silêncio e solidão.

Não há lugar a lamechices nem desenvolvimentos desnecessários. A escrita é incisiva, limpa e muito poética, de uma elegância e simplicidade muito belas. Marlene Ferraz faz magia com as palavras. Fez-me permanecer em algumas páginas pelo tempo suficiente de desmanchar todas as letras. Tentativa vã (mas deliciosa) de entender como se escreve assim.

Podia contar-vos mais, mas o que seria da vossa descoberta?

Além disso tenho de ir guardar mais umas passagens, que o livro é emprestado (obrigada a quem, literalmente, me obrigou a lê-lo), e terei de me separar dele.

Sinopse

“As idas à grande cidade para se libertar da herança dum pai coronel verticalmente duro e duma mãe extravagante e desligada fazem com que José Homem se sinta no bom caminho para uma morte sem memórias nem saudade.
Descrente no governo de deus e, sim, também das circunstâncias, é por mão do padre, aliado e confidente, que se vê obrigado a relacionar-se com um dos rapazes estrangeiros recebidos no orfanato. A companhia de Antonino vem despertar em José Homem um sopro inesperado
de amor e vontade.”

Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2012

Gradiva, 2013