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planetamarcia

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Julho 21, 2014

O Intrínseco de Manolo - João Rebocho Pais - Opinião

 

O que me surpreende? Ler dois livros seguidos do mesmo autor e ficar feliz por serem diferentes. Que em livros que considero de poucas páginas (menos de 200) se consiga dizer tanto.

A verdade é que li primeiro o Sebastião porque achei que este Manolo seria um bocado… parolo (coitado). Ouvi umas coisas aqui e outras ali e assumi que seria um livro cómico, talvez com um pé (ou dois) na brejeirice. Pois isto dos livros é um bocado como as pessoas, ou não fossem estas a escrevê-los. Enfim, sinto-me enganada. Enganada como quando conheço uma daquelas pessoas completamente desinteressantes que o tempo revela especiais. Um engano bom.

O que dizer de um livro com tantas personagens mas que a principal é uma árvore?

Com tantas descrições de situações inverosímeis, pitorescas, recambolescas e que não sei que mais lhes possa chamar, mas com uma utilização primorosa da linguagem, que transforma cenários decadentes, deprimentes e até nojentos, com um texto versátil e completo, nascido de uma conjugação de palavras que me deixou várias vezes de queixo caído. Isto é saber escrever.

É um orgulho ver a beleza e a dimensão da língua portuguesa, que até quando se escreve sobre porcaria (para não dizer merda), permite um encaixe perfeito. Fica a ressalva de que só resulta quando se tem talento.

E assim somos apresentados aos habitantes de Cousa Vã. Pessoas de muitas habilidades em diversos campos, algumas com um domínio tão intenso das artes do amor, que me parece terem proporcionado a João Rebocho Pais a criação de um novo estilo. Pelo menos eu ainda não conhecia, não sei que lhe possa chamar ou se alguém já o definiu, mas talvez algo do tipo “erótico alentejano”.

E então, quando estamos perante tantos cenários dignos de pasmo pela originalidade da escrita, que nos dão para rir pelos motivos já apresentados, o cómico vai assumindo uma seriedade emotiva, de alguma forma até ternurenta, por todas as coisas realmente importantes que só chegam ultrapassada a aparência.

Manolo, o parolo, que conversa com uma azinheira, olha para dentro, para o que realmente importa. Leva consigo a dor do caminho da descoberta das coisas que contam.

A ler.

“Não era passado um semestre de matrimónio e a secura a que Tonho a votava, fosse em coisas de cama, de mesa ou de sofá, trazia-lhe a certeza de ser outro o caminho a tomar e muitos outros os parceiros, assim quisesse dar vazão ao que lhe pedia uma alma selvagem, um corpo de bom alimento e uma vagina carnívora – e aqui testemunha o narrador que esse é o termo e assim mesmo terá de ser chamada, uma vagina de fazer corar o mais ávido aventureiro, o mais intrépido conquistador. Tina – Albertina Cruz por casório – não se lembrava de um dia sequer em que a sua feminilidade não se tivesse revelado num estuporado tesão e vontade de luxúria. Anos e anos de repressão paterna, materna, fraterna e o mais que fosse, numa adolescência em que, por imperativo das aparências negara alimento à desembestada que lhe habitava entre pernas, acabaram no triste desastre que era aquele transtorno de homem e marido, aquele empecilho, aquele verdadeiro hino ao vazio de prazer que constituía o seu lar.” (Pág. 66);

“Desde o regresso de Lisboa e suas fulminantes sensações, trazidas em esquinas e esquinas de histórias e pessoas, de retumbantes memórias em forma de estátuas e monumentos de fachadas imponentes, desde esse momento que a vontade de semear algo de seu, algo que visitasse as almas dos seus antepassados com a boa-nova de que tudo valera a pena, crescia no íntimo de Manolo, o mesmo Manolo que à sombra da azinheira teimava em conhecer a sabedoria da árvore, o sentido da vida, dali partindo em busca do que lhe era intrínseco.” (Pág. 122);

“Manolo seguia a sua vida, indiferente a cochichos e ao alimento da curiosidade alheia, ia e vinha com o mesmo vagar e indiferença que aprendera a oferecer ao formigueiro de tristes inúteis que pela terra lhe faziam companhia, que o brindavam com perguntas parvas pela frente e com etiquetas pelas costas.” (Pág. 148);

Sinopse

“Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.”

Teorema, 2014

Julho 14, 2014

Dizem que Sebastião - João Rebocho Pais - Opinião

 

“Dizem que Sebastião” é o segundo livro de João Rebocho Pais. Para mim o primeiro. O primeiro que leio do autor.

Devido meu interesse e curiosidade pelos livros, e em grande medida por ter amigos que fogem do que é massificado, tenho tido a sorte de livros como este não me passarem ao lado. Se houve um belo dia que me fartei de ler o mesmo que a maioria, tomei o gosto de, mesmo no que toca a novidades, andar de certa forma contra a corrente. O que é uma pena pois todos deviam apanhar uma corrente (ou mesmo um oceano) de livros como este.

Despretensioso e simples, o autor ganha pontos neste registo. Do género “não quero impressionar ninguém e escrevo o que me apetece” e lá me apanhou desde a primeira página. Tenho uma certa fraqueza para este estilo “não me ralo, lê-me se quiseres”, e li o livro em menos de nada, no fim tenho a sensação que o João se ralou e se preocupou em construir uma narrativa que, apesar de bastante fluída, dá que pensar naquelas coisas da vida mesmo importantes que nos dão cabo do juízo.

O tema é pouco original e por isso uma grande maioria se identificará com ele. Aquela maioria que acorda de manhã e adorava estar a fazer algo completamente diferente com a sua vida, que detesta o seu emprego e se sente completamente frustrada a nível profissional. Alguém assim por aí? Pois o Sebastião não. Ou melhor, pensava que não. Isto é, ele na verdade nem pensava muito nisso porque estava muito ocupado a trabalhar, a enriquecer e assim. Um belo dia percebeu que nem conseguia ter uma conversa fora da sua área profissional, para impressionar as senhoras por exemplo. Ou seja, um viciado em trabalho sem outros objectivos na vida, sozinho, e fechado num escritório.

Acho que o Sebastião até teve sorte pois andava tão anestesiado com o trabalho que nem pensava em tudo o que perdia. Então, e porque há coisas que têm de acontecer para certas pessoas abrirem os olhos, teve um enfarte e, por ordens médicas, foi obrigado a abrandar o ritmo. E eis que essa terrível arma chamada pensamento, que habitualmente acompanha os tempos de ócio, o ataca e teve o dom de o acordar. Sebastião desperta para a vida e este despertar leva-o ao melhor lugar do mundo: a livraria.

E então começa a viagem. A observação. O deixar de ouvir e começar a escutar. A percepção de que há mais pessoas na rua, no metro, que há cheiros e sons completamente novos. E que há livros para ler. Que tais livros são as vozes de quem os escreveu, vozes que persistem depois da morte, vozes que falam com Sebastião durante as leituras e também fora delas, nas ruas de Lisboa em diálogos com estátuas, num percurso que começa com Fernando Pessoa entre dois cafés na Brasileira, e que vai até onde Sebastião quiser, eu espero que muito depois da última página do livro.

Aparentes sinais de demência que não são mais do que os efeitos colaterais da tomada de consciência. Um livro que merece ser lido por tudo o que já referi, e que ainda dá o bónus de nos fazer olhar de forma diferente para todos aqueles escritores que, de forma pouco inteligente, nos obrigaram a ler na escola. Falo por mim.

Leiam se fazem favor!  

“…reconhecia, agora que o mundo complicado dos adultos dava aos dias apenas repetições em tons de cinzento e uma velocidade que esquecia as horas, esmagava os minutos e dilacerava os segundos. Paradoxalmente, estes tempos modernos colhiam seguidores em barda, e a verdade era que, por uma razão ou outra, ele próprio se deixava ir permitindo uma morte lenta de ideias e certezas de outrora, num transparente mas eficaz processo de carneirização que lhe regera os dias de uma carreira profissional bem-sucedida.” (Pág. 29);

“À medida que avançava, percebia ali escancarada a dimensão errónea em que gastara a sua velha vida.” (Pág. 95);

Sinopse

“Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing - e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem. 
Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um novo romance - divertido, terno e cheio de ironia - sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.”

Teorema, 2014