Março 04, 2012
A Vida Secreta das Princesas Árabes - Deserto Real - Jean Sasson - Opinião
Com “Deserto Real” dou por terminada a leitura da última parte do livro “A Vida Secreta das Princesas Árabes”. O balanço é muito positivo, trata-se de um livro excelente mas muitas vezes cruel e revoltante. Para uma mulher ocidental é difícil compreender e aceitar a total falta de direitos e poder de decisão das mulheres na Arábia Saudita, bem como a situação de total de submissão e dependência da vontade dos homens.
Tratadas como objectos e muitas vezes como mercadoria, as mulheres limitam-se a obedecer e a viver as suas vidas mediante os desígnios masculinos: primeiro dos pais e depois dos maridos. Escravas sexuais, vítimas dos mais cruéis actos de violência, constantemente vigiadas pelo que se pode considerar um “brigada de bons costumes”, estamos perante uma sociedade de mulheres amedrontadas, sem qualquer poder de decisão nas actividades mais banais do seu dia-a-dia.
No meio deste panorama surge Sultana, uma princesa que arrisca contar a história das mulheres do seu país ao mundo, colocando em causa a sua alta posição social, já que pertence à família real. Sultana anseia que o país em que vive acorde e acompanhe o resto do mundo. Numa situação financeira privilegiada, eu diria mesmo uma total afronta de ostentação e luxo aos que vivem na miséria, Sultana viaja pelo mundo e sabe que as mulheres têm direitos, têm independência e podem, imagine-se, até conduzir carros!
Sultana é teimosa desde criança, e é a prova que, com determinação se conseguem algumas recompensas, vive a sua vida e o seu casamento de forma diferente. Teve também a sorte de “contornar” um pouco a situação do casamento arranjado e casar por amor, construir uma família pautada pelos seus ideais, e opor-se totalmente ao marido quando este decidiu arranjar uma segunda esposa. É um exemplo de luta e determinação, mas é um pequeno ponto num mundo em que as mulheres vivem como escravas atemorizadas. Sultana acredita no futuro, na mudança e na justiça. A sua determinação é inspiradora e foi o que me fez percorrer mais de 600 páginas de constantes descrições de ofensas, crueldade e horror da vida das mulheres da Arábia Saudita.
Bastante recomendado!
A minha opinião da primeira parte aqui.
A minha opinião da segunda parte aqui.
Sinopse
“Sultana é o pseudónimo de uma corajosa princesa da Arábia Saudita. Ela é uma das dez filhas da família real mas a sua vida, rodeada de luxo e riquezas inimagináveis, está longe de ser um conto de fadas. No seu país, as mulheres - qualquer que seja o seu estrato social - estão sujeitas à tirania ditada por um fanatismo religioso que promove a poligamia, dá ao homem o poder de castigar cruelmente qualquer mulher e incentiva os casamentos forçados, as mutilações e a violência sexual, as execuções por apedrejamento ou afogamento.
Quando aceitou contar a sua história à jornalista e escritora Jean Sasson, Sultana sabia que estava a pôr em risco a própria vida. Foi conscientemente que abdicou da sua segurança pessoal para denunciar o brutal quotidiano das mulheres sauditas. A sua voz dá-nos a conhecer um mundo no qual a sumptuosidade e a extravagância coexistem com a violência e a barbárie. A princesa partilha connosco a sua intimidade e a das mulheres que a rodeiam: as suas filhas, primas, amigas... mas, na sua franqueza e coragem, ela fala por todas as mulheres.”
Asa, 2012


