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planetamarcia

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Junho 27, 2010

Está tudo na Cabeça - Alastair Campbell - Opinião

 

Foi com surpresa e curiosidade que dei início à leitura de “Está tudo na Cabeça”. Surpresa por se tratar do primeiro romance de um político Inglês, que trabalhou com Tony Blair e esteve envolvido em algumas questões políticas de nível internacional. A curiosidade vem obviamente de querer saber o que um homem envolvido na vida governativa pensará e terá a dizer acerca do tema da saúde mental, tão abordado nos dias de hoje.

No centro deste enredo temos o Dr. Sturrock, conceituado Psiquiatra, dedicado à profissão e preocupado com a recuperação de todos os seus pacientes. No entanto, a sua própria vida tem sido uma sucessão de desilusões acumuladas e, apesar dos que lhe são mais próximos não o verem, Martin Sturrock está muito deprimido.

No decorrer da narrativa o Dr. Sturrock envolve-se cada vez mais nos problemas dos pacientes, por vezes de forma pouco profissional, na tentativa de se sentir melhor e encontrar o caminho para a sua cura. A verdade é que a realidade de Martin nos oferece a hipótese de reflectir acerca da vida dos tempos de hoje, em que estamos todos demasiado ocupados com os nossos dramas e problemas pessoais para reparar em quem precisa de ajuda e está cada vez mais só numa sociedade massificada em que, em teoria, temos tudo: luxo, qualidade de vida e bens materiais.

Se por um lado Martin se sente só e se apercebe que está distante dos planos que um dia traçou para a sua vida, que o seu casamento ficou aquém das suas expectativas, bem como a relação que mantém com os filhos, por outro lado a família também se sente abandonada e sempre colocada em segundo plano em relação ao seu trabalho. É curioso constatar como um homem cuja profissão é dialogar e encontrar soluções para os dramas das vidas dos outros, não consegue encontrar o caminho para a sua felicidade, e os erros cometidos são os mesmos que consegue corrigir aos seus pacientes. Curiosa é também a forma como de facto consegue ajudar os que o procuram, fazê-los mudar as suas realidades e ultrapassar os traumas, e não se apercebe que é um Psiquiatra de sucesso.

Com uma escrita leve mas muito cuidada, Alastair Campbell descreve de forma clara mas nem sempre óbvia, a dor que assalta hoje em dia a humanidade: a solidão e a sensação de vazio. Obriga a pensar no percurso de cada um, nos objectivos a atingir, e no facto de termos para nós próprios a obrigação de tornar a nossa vida uma passagem única e feliz por este Universo. Afinal “Está tudo na Cabeça”!

Uma leitura que me cativou desde o inicio, prendeu, fez meditar e que recomendo sem reservas.

“Sturrock sentia que uma das suas práticas de sucesso como psiquiatra clínico resultava da aptidão que tinha para neutralizar a ira, e para responder a tudo o que os seus doentes diziam. Mas naquele caso era Martin, o marido e pai falhado, e não Sturrock, o médico brilhante, e não fazia a menor ideia de como reagir.” (Página 181).

“- Se há um grupo de pessoas que devia saber que os seres humanos não são máquinas, esse grupo somos nós. E, no entanto, enquanto seus doentes, e no meu caso sendo também político, não esperamos nós que aqueles que nos tratam, e aqueles que cumprem o que deles exigimos, sejam como máquinas, tenham todas as respostas, todas as soluções, e estejam lá quando precisamos deles, como nós queremos, sem nos interessarmos pelo que são enquanto seres humanos?” (Página 342)

Sinopse

“Emily é a traumatizada vítima de uma queimadura grave, Arta é uma refugiada kosovar que recupera de uma violação, David Temple sofre de depressão há demasiado tempo, e o ministro Ralph Hall vive com pânico de que o seu alcoolismo seja descoberto. Todos estes personagens tão diferentes têm algo em comum: são todos pacientes do professor Martin Sturrock, psiquiatra, com quem cada um deles passa uma hora, todas as semanas. Mal sabem, porém, quão doente está o professor Sturrock. Durante anos e anos o dedicado médico refugiou-se no trabalho para afugentar os seus demónios pessoais. Mas os seus fantasmas perseguem-no, a sua vida desmorona-se e a única ajuda a que pode recorrer é a de um dos seus pacientes.
O notável primeiro romance de Alastair Campbell mergulha fundo nos recantos mais obscuros da mente humana, trazendo-nos um absorvente retrato da interdependência que pode estabelecer-se entre médico e doente. Simultaneamente comédia e tragédia de vidas comuns, esta é uma obra repleta de compaixão por aqueles para quem o dia-a-dia é vivido à beira do abismo.”

Bizâncio, 2010