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planetamarcia

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Julho 26, 2011

Aquele Verão em Paris - Abha Dawesar - Opinião

 

Este livro é um daqueles casos típicos de amor/ódio, do género “primeiro estranha-se depois entranha-se”. A princípio não me interessou particularmente, não captou a minha atenção. No entanto prossegui a leitura, coisa que habitualmente não faço quando um livro não me interessa – facilmente deixo um livro de lado sem remorsos nem culpas, que a vida é curta e não faltam livros para ler!

Acontece que me senti como que enfeitiçada. Mesmo lendo sem reter e sem estar muito atenta à história, deixei-me embalar pela escrita. Acho que foi isso, parecia que ouvia uma música deliciosa mesmo sem saber a letra.

A dada altura houve um click e fui arrebatada também pela história, pelas personagens, pelo seu passado e presente, pelas suas dúvidas e desejos. A última metade do livro foi lida praticamente de seguida, quando acabei vi que era noite.

Para mim este livro é uma história de amor à escrita. Prem tem 75 anos, é um escritor conceituado, ganhou o Prémio Nobel. Maya tem 25 anos, adora todos os livros de Prem e deseja escrever. Uma série de casualidades (ou talvez não) levam a que os dois se conheçam e viajem para Paris. A história de “amor” entre eles não assumiu para mim muita importância, até porque até ao fim do livro assistimos às muitas aproximações e recuos entre os dois. O que apreciei mesmo foi conhecer os episódios do passado de Prem, as situações que o levaram a escrever. O modo como são expostas levam-nos a compreender todo um processo de escrita, a forma como situações do quotidiano são trabalhadas e surgem num livro, ou seja, a arte de “roubar” a realidade e usar a criatividade (e o talento já agora) para escrever.

Desde a infância de Prem, passando pelos amores e obsessões, tudo foi por ele esmiuçado e trabalhado, os seus livros são a sua vida, o espelho do que sentiu em dada altura. Escrever é uma história de amor, de persistência e de busca constante. Prem soube fazer da sua vida a sua inspiração, de influências criou personagens, de casualidades fez eventos. Só não soube, ao que parece, escrever sobre sexo. Se calhar é o que lhe falta neste ponto da sua vida e da sua carreira, aperfeiçoar a arte de escrever sobre sexo, algo em que é experiente mas que lhe dá dificuldades em passar para o papel. Será que Maya lhe vai permitir corrigir essa única “falha” como brilhante escritor? E se o conseguir? Se ultrapassar esse obstáculo o que terá ainda para fazer? O que resta quando tudo estiver feito?

Não conhecia Abha Dawsear, nunca tinha ouvido falar do seu trabalho. Lamento que um livro tão bom como este (e como este haverá outros) não seja alvo de uma forte campanha de divulgação. A capa pode não ser das mais bonitas ou apelativas, mas são as letras que nos emocionam. Abha Dawesar sabe explorar os sentidos, deixou-me com as emoções à flor da pele.

Gostei muito das seguintes passagens:

“O nosso trabalho enquanto escritores é sempre maior do que nós. É um buraco enorme no qual achamos que cabemos, mas onde afinal descobrimos que nos perdemos.”

“Compreendia instintivamente o que significava ser escritor, a loucura, la souffrance, a liberdade desenfreada contida nas páginas da sua própria obra, e a guerra interior que uma pessoa tinha de travar constantemente.” (pág.95)

Sinopse

“Parece improvável que um solitário de 75 anos, cansado de viver e isolado do mundo, conheça uma jovem de 25 anos na Internet. Mais improvável ainda que ele seja um escritor laureado com o Prémio Nobel da Literatura e ela uma vibrante aspirante a romancista. No entanto, quando ela revela o seu fascínio por Paris, para onde decide partir na esperança de terminar o seu livro, ele segue-a. E, ao longo de um indolente e sensual Verão, numa sedução animada por uma paixão comum pela arte, Paris e a gastronomia francesa, os dois escritores exploram os limites do prazer e da criatividade.
Com um estilo e ritmo únicos, Aquele Verão em Paris é uma reflexão sobre a forma como a arte e o amor estão intrínseca e visceralmente ligados.”

Asa, 2009