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planetamarcia

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Agosto 17, 2015

os meus sentimentos - Dulce Maria Cardoso - Opinião

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Iniciei este livro várias vezes sem nunca passar da primeira página. A dor das primeiras frases bloqueou-me, retraiu-me, assustou-me pelo que poderia vir a seguir. Mas, ao mesmo tempo, senti a necessidade de prosseguir a leitura, como se o livro me chamasse.

Porque mesmo as descrições mais dolorosas sobre temas particularmente assustadores, têm de ser lidas. Assim o obriga a excelência da escrita, imediatamente notória no início, e que, confirmo, é perfeita até à última página.

“inesperadamente

não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,

inesperadamente páro

a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

são tão maçadoras as lengalengas”

Inevitavelmente, chegou o dia que comecei a ler este livro. Passei à segunda página a que se seguiram todas as outras. Foi das experiências de leitura mais magníficas que tive. Dolorosa. Como se me rasgasse por dentro de tão intenso. Pela história, pelas circunstâncias, pela construção de uma narrativa que parece confusa mas que se entende. Entendemos e lemos os pensamentos da personagem, Violeta.

E Violeta pensa como todos nós. Lembra-se do passado mais antigo, salta para o mais recente por causa de alguma memória que se atravessa, cruza acontecimentos, pessoas, recordações, e o leitor percebe. Entende e vive a dor de Violeta, percebe a amálgama de coisas que lhe surgem à velocidade do pensamento, identifica-se, porque todos pensamos assim, a um ritmo que só o próprio, por conhecer a sua história, acompanha.

No momento em que pensamos que vamos morrer revemos tudo o que fomos e fizemos, dizem. É o que acontece a Violeta, de cabeça para baixo no carro acidentado. Este livro é a viagem à vida de Violeta e lê-se com o ímpeto de um pensamento.

Escrever um livro assim é de uma capacidade surpreendente. Virei página depois de página sempre com a certeza de que, por muito que um livro exija de quem o escreve, é em livros como este que se distingue quem realmente tem o dom. E Dulce Maria Cardoso tem-no sem dúvida alguma.

“… não consigo estar acompanhada por muito tempo, nunca me habituei à presença dos outros, ainda não deixei de me espantar com os que não conseguem comer ou dormir sozinhos, com os que se queixam de solidão, talvez sejam felizes os que conseguem suportar os outros, mais felizes ainda os que precisam dos outros,…” (Pág. 25)

“… quando os dias são todos iguais há forçosamente um desentendimento com a vida,…” (Pág. 66)

“… não há nada que sobreviva ao silêncio, nada,…” (Pág. 148)

“… sonho muitas vezes que estou a voar, é um sonho muito vulgar mas conheço quem nunca tenha sonhado que voava, aliás há pessoas que não sonham, dormem apenas, limitam-se a dormir, deve ser muito triste,…” (Pág. 342)

Sinopse

“É uma noite de temporal. A noite do acidente. Há uma gota de água suspensa num estilhaço de vidro que teima em não cair. Há um instante que se eterniza. 
Reflectida na gota, Violeta mergulha nessa eternidade e recorda aquele que pode ter sido o último dia da sua vida. Na verdade, as memórias desse dia contam toda a história de Violeta: os pais, a filha, a criada, o bastardo, e em todos a urgência da vida, que prossegue indiferente, como a estrada de onde ainda agora se despistou. Nessa posição instável, de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança, parece que tudo se desamarra. O presente perde a opacidade com que o quotidiano o resguarda, e Violeta afunda-se nos passados de que é feita, uma espiral alucinada de transparências e ecos.”

Tinta-da-china, 2014

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