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planetamarcia

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Abril 11, 2016

Os Dez Livros de Santiago Boccanegra - Pedro Marta Santos - Opinião

Os Dez Livros de Santiago Boccanegra.jpg

Na minha cabeça já comecei este texto várias vezes. Ou pelo menos iniciei a ideia de o começar. Mas a verdade é que não sei como o fazer, como escrever uma linha sobre um livro que é todo surpresa e espanto.

Não escrevo sobre os livros que não gosto, primeiro porque não os chego a terminar, segundo porque acho que não vale a pena perder tempo a dizer mal. Mas sobre os que gosto, sim. Para esses eu quero escolher as palavras mais bonitas, aquelas que me ocorreram durante a leitura, outras em que pensei depois, e ainda as que surgem enquanto escrevinho o que há de ser uma espécie de opinião.

Bom, mas esta conversa não vai fazer ninguém pegar no livro, e neste ponto vou ser muito objectiva: eu quero que leiam este livro. É bastante provável que eu chegue ao fim deste texto sem ter reunido razões suficientes para que o leiam, e isso será por mera incapacidade minha, mas já sabem o que têm de fazer. Ler este livro.

Posto isto, que é na verdade o mais importante, posso dizer-vos que este livro são dez. Sim, são os dez livros do Boccanegra, o próprio. São livros cheios de gente, personagens incríveis a quem não chega o seu próprio livro, porque passeiam constantemente pelos livros dos outros. Estes livros completam-se, são dedicados à estória de alguém, mas não de forma estanque, as personagens não ficam fechadas nos seus livros, seguem para o livro seguinte, todas. Num acumular de passados e informações que não devem ser tratadas como coincidências, mas guardadas na memória do leitor para o inevitável espanto umas páginas à frente.

É como uma viagem com muitas paragens, mas apenas para entrar. Ninguém sai do carrossel em movimento, que corre para a frente e para trás como se não houvesse amanhã ou ontem. Os saltos temporais podem ser maratonas de séculos, que passam num virar de página. A leitura é compulsiva, mas tenham calma, não se arrisquem a perder pormenores importantes.

Pode provocar dor e encantamento, os efeitos colaterais podem incluir desenvolvimento da imaginação e da fantasia (tudo coisas boas). Tem muita arte (alerta fãs de Rothko) e boa música. A banda sonora ouve-se depois de fechar o livro. É mágico o livro, já vos tinha dito?

Descrições brilhantes e escrita habilidosa. Lê-se como se vê um filme, daqueles cheios de coisas impossíveis em que acreditamos com fé inabalável.

Está bem pensado e muito bem construído. Impressionou-me. Acreditei em tudo. Leiam!

Não interessa muito para a leitura, mas para que conste, a capa é fabulosa.

Sinopse

“Santiago Boccanegra, neto de marinheiros, sobreviveu à poliomielite lendo Moby Dick e vingou-se dos duros que o perseguiam na escola fazendo-se boxeur. Trabalha agora como segurança de um hotel de Lisboa, onde Laura Rutledge, única sobrevivente de um desastre aéreo, se perde como prostituta de luxo. Depois da tragédia que lhe é infligida nas Montanhas Malditas, o misterioso albanês Aamon Daro cultiva papoilas na Birmânia e, com o lucro do ópio, colecciona obras de arte, que gosta de encenar ao vivo. Jin, uma tímida adolescente norte-coreana, apaixona-se graças a uma canção dos Beatles e é obrigada a fugir para o Ocidente. Num caderno enterrado com a musa do poeta Dante Gabriel Rossetti aparece um soneto posterior ao óbito - e talvez seja de Pessoa. Um rapazinho com um tumor cerebral compõe música nos lençóis do hospital sem nunca a ter aprendido. Saint-Exupéry, desaparecido no deserto líbio após a queda do seu avião, encontra, além da raposa que o ignora, uma criança de uma tribo que se julgava extinta. Estas e muitas outras personagens reais e ficcionais vão formar uma enigmática teia em que os fios soltos acabam por unir-se num final surpreendente, a que não faltarão aves, música, morte e redenção.”

Teorema, 2016

Finalista Prémio Leya 2014

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