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planetamarcia

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Abril 15, 2014

Os Demónios de Álvaro Cobra - Carlos Campaniço - Opinião

 

Por muito que me tivessem prevenido, nada me tinha preparado para “Os Demónios de Álvaro Cobra”. Senti-me tão surpreendida durante a leitura deste livro que constantemente me perguntava “como é que pude esperar tanto tempo para o ler?”.

Apesar de a história ser única e os personagens de uma singularidade genial, foi a narrativa de Carlos Campaniço que realmente me encantou. E encantamento não é uma palavra demasiado forte para tudo o que senti, pois que o tal “realismo mágico”, onde parece que se encaixa este livro, está escrito de forma tão verosímil que as fantasias, magias ou o que lhes queiram chamar, foram para mim pura realidade.

Além de escrever bem tem uma imaginação levada dos diabos. Desculpem a expressão mas acho que se aplica. Diabos, Demónios, Grifos, uma aniversariante que comemora 150 anos de idade, a pobre que tem febre desde que nasceu, e claro, o grande Álvaro, que já morreu duas vezes e mantém longos diálogos com o falecido pai. Depois, para alimentar (ainda mais) um argumento único há que referir o cenário alentejano do século XIX, onde a religião explica e resolve tudo. Judeus e Cristãos, com uma pitadinha Árabe, umas nuances Hindus, e o inevitável cigano, oferecem uma quantidade de situações insólitas e hilariantes, mas que não deixam de nos fazer pensar em algumas ironias da vida (e da História).

Outra pergunta recorrente que fiz a mim mesma foi “este escritor é português?”. Sem qualquer desprestígio para a belíssima língua portuguesa, nem para os excelentes escritores que por cá moram, mas senti sempre uma espécie de influência Sul-Americana. Adoro Vargas Llosa e o Campaniço aqui tão perto lembrou-me tanto mas tanto as suas maravilhosas personagens com percursos e aventuras inacreditáveis.

Pois estou pasma. Como fico cada vez menos. Mas quando um livro me pasma fico dias a fio em estado de graça, aproveitando a lembrança de uma ou outra passagem, rindo com os delírios e espantando-me com a capacidade de se escrever um livro assim.

“Desta vez, Benalma trouxe uma piada nova, afiada ao peito do prelado. Inventou, na sua cabeça feita para as invenções, que o padre se chamava Jesuíno porque tina herdado Je do pai e suíno da mãe. Foi uma anedota contada e recontada na aldeia, que passou as fronteiras desta e se eternizou na memória de muitas gerações. “Jesuíno: Je do pai e suíno da mãe!”. Simplesmente, esta frase era o princípio de muitas boas disposições. O pândego do Maruane contou-a, na sua taberna, até ter cabelos brancos. Mas que não tocassem nesse assunto a Sinfrónio, pois que do padrinho ninguém zombava dentro da sua barbearia. O próprio Dom Mascarenhas condenou publicamente o gozo em redor do emissário do Vaticano e os irmãos Maldonado deixaram expresso que, se soubessem que algum dos seus ganhões havia feito graças suínas, seria posto na rua. Não valeu de nada, porque o povo continuou a divertir-se com a piada de Benalma.” (Pág. 47)

Sinopse

“A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com um mês já tinha dois dentes, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes - mas ressuscitou, e desde então um bando de grifos faz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…
Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX - na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.”

Teorema, 2013