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planetamarcia

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Dezembro 28, 2015

Esse Cabelo - Djaimilia Pereira de Almeida - Opinião

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Este final de ano tem-me reservado surpresas fantásticas. Esse Cabelo agarrou-me pelo espanto. Desde a primeira linha que me espantei, e maravilhei, com a escrita incrível de Djaimilia Pereira de Almeida. Pegando no seu próprio cabelo como tema, desenvolve a história da sua vida e da sua família com uma mestria surpreendente. Complexo e desafiante, Esse Cabelo vale pela excelência da forma. A história é boa mas, apesar de ainda não ter lido Americanah da Chimamanda Ngozie Adichie, desconfio que não seja original. Mas tenho a certeza, apesar de gostar muito da Chimamanda, que esta tem um caminho a percorrer até chegar ao nível literário de Djaimilia.

Mais do que uma história dos dissabores vividos nos salões de cabeleireiro, ou mesmo, nas espécies de cabeleireiros em vão de escada, fica a vida dentro da cabeça da dona do cabelo. Desde a criança observadora cujas memórias ainda fervilham e são surpreendentemente contadas pela adulta, até ao difícil que pode ser crescer.

O cabelo é transversal a todo livro, como um fio condutor de memórias. Os seus fios passam por mudanças, sofrem, crescem e são cortados. O que se passa do lado de fora da cabeça pode ser um reflexo do que se passa lá dentro?

Um livro curto que se lê num fôlego, mas complexo ao ponto de obrigar à releitura das passagens mais bicudas, que apetece desembaraçar com paciência, como um nó no cabelo, um emaranhado de ideias que tem de ser deslindado e que é urgente compreender.

Emotivo e doloroso, com a grande capacidade de, mesmo assim, arrancar sorrisos, Esse Cabelo é diferente, surpreendente, e, claro, obrigatório.

Sinopse

“O que se passa por dentro das cabeças é mais importante do que o que se passa por fora? Falar de cabelos é sempre uma futilidade? Não necessariamente, até porque, segundo a narradora deste texto belo e contundente, «escrever parece-se com pentear uma cabeleira em descanso num busto de esferovite» e visitar salões é uma boa forma de conhecer países, de aprender a distinguir modos e feições e até de detectar preconceitos.
Esta é a história de uma menina que aterrou despenteada aos três anos em Lisboa, vinda de Luanda, e das suas memórias privadas ao longo do tempo, porque não somos sempre iguais aos nossos retratos de infância; mas é também a história das origens do seu cabelo crespo, cruzamento das vidas de um comerciante português no Congo, de um pescador albino de M’banza Kongo, de católicas anciãs de Seia, de cristãos-novos maçons de Castelo Branco - uma família que descreveu o caminho entre Portugal e Angola ao longo de quatro gerações com um à-vontade de passageiro frequente. E, assim, ao acompanharmos as aventuras deste cabelo crespo - curto, comprido, amado, odiado, tantas vezes esquecido ou confundido com o abismo mental -, é também à história indirecta da relação entre vários continentes - a uma geopolítica - que inequivocamente assistimos.”

Teorema, 2015

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