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planetamarcia

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Julho 14, 2014

Dizem que Sebastião - João Rebocho Pais - Opinião

 

“Dizem que Sebastião” é o segundo livro de João Rebocho Pais. Para mim o primeiro. O primeiro que leio do autor.

Devido meu interesse e curiosidade pelos livros, e em grande medida por ter amigos que fogem do que é massificado, tenho tido a sorte de livros como este não me passarem ao lado. Se houve um belo dia que me fartei de ler o mesmo que a maioria, tomei o gosto de, mesmo no que toca a novidades, andar de certa forma contra a corrente. O que é uma pena pois todos deviam apanhar uma corrente (ou mesmo um oceano) de livros como este.

Despretensioso e simples, o autor ganha pontos neste registo. Do género “não quero impressionar ninguém e escrevo o que me apetece” e lá me apanhou desde a primeira página. Tenho uma certa fraqueza para este estilo “não me ralo, lê-me se quiseres”, e li o livro em menos de nada, no fim tenho a sensação que o João se ralou e se preocupou em construir uma narrativa que, apesar de bastante fluída, dá que pensar naquelas coisas da vida mesmo importantes que nos dão cabo do juízo.

O tema é pouco original e por isso uma grande maioria se identificará com ele. Aquela maioria que acorda de manhã e adorava estar a fazer algo completamente diferente com a sua vida, que detesta o seu emprego e se sente completamente frustrada a nível profissional. Alguém assim por aí? Pois o Sebastião não. Ou melhor, pensava que não. Isto é, ele na verdade nem pensava muito nisso porque estava muito ocupado a trabalhar, a enriquecer e assim. Um belo dia percebeu que nem conseguia ter uma conversa fora da sua área profissional, para impressionar as senhoras por exemplo. Ou seja, um viciado em trabalho sem outros objectivos na vida, sozinho, e fechado num escritório.

Acho que o Sebastião até teve sorte pois andava tão anestesiado com o trabalho que nem pensava em tudo o que perdia. Então, e porque há coisas que têm de acontecer para certas pessoas abrirem os olhos, teve um enfarte e, por ordens médicas, foi obrigado a abrandar o ritmo. E eis que essa terrível arma chamada pensamento, que habitualmente acompanha os tempos de ócio, o ataca e teve o dom de o acordar. Sebastião desperta para a vida e este despertar leva-o ao melhor lugar do mundo: a livraria.

E então começa a viagem. A observação. O deixar de ouvir e começar a escutar. A percepção de que há mais pessoas na rua, no metro, que há cheiros e sons completamente novos. E que há livros para ler. Que tais livros são as vozes de quem os escreveu, vozes que persistem depois da morte, vozes que falam com Sebastião durante as leituras e também fora delas, nas ruas de Lisboa em diálogos com estátuas, num percurso que começa com Fernando Pessoa entre dois cafés na Brasileira, e que vai até onde Sebastião quiser, eu espero que muito depois da última página do livro.

Aparentes sinais de demência que não são mais do que os efeitos colaterais da tomada de consciência. Um livro que merece ser lido por tudo o que já referi, e que ainda dá o bónus de nos fazer olhar de forma diferente para todos aqueles escritores que, de forma pouco inteligente, nos obrigaram a ler na escola. Falo por mim.

Leiam se fazem favor!  

“…reconhecia, agora que o mundo complicado dos adultos dava aos dias apenas repetições em tons de cinzento e uma velocidade que esquecia as horas, esmagava os minutos e dilacerava os segundos. Paradoxalmente, estes tempos modernos colhiam seguidores em barda, e a verdade era que, por uma razão ou outra, ele próprio se deixava ir permitindo uma morte lenta de ideias e certezas de outrora, num transparente mas eficaz processo de carneirização que lhe regera os dias de uma carreira profissional bem-sucedida.” (Pág. 29);

“À medida que avançava, percebia ali escancarada a dimensão errónea em que gastara a sua velha vida.” (Pág. 95);

Sinopse

“Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing - e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem. 
Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um novo romance - divertido, terno e cheio de ironia - sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.”

Teorema, 2014

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