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planetamarcia

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Junho 03, 2015

A Noiva do Tradutor - João Reis - Opinião

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Quando um escritor me oferece o seu livro para ler fico sempre feliz e aterrorizada. A felicidade é por motivos óbvios. O terror é porque não sei mentir, não tenho jeito, pronto, e portanto tudo o que diga ou escreva sobre os livros é verdade. Pelo menos para quem queira saber a verdade.

Acho que o João quer. E eu estou cheia de sorte porque gostei muito deste livro pequeno de aspecto elegante, com uma capa simples e fora do comum. Eu gostei mas irritei-me. Sim, irritei-me muito com o personagem tonto e hipocondríaco, cheio de dramas, dúvidas, um tipo um bocado alucinado com a realidade. Mas vendo bem, a realidade é um bocado alucinante. Por isso, apesar da estranheza que o tradutor de início me provocou, fui sendo, aos poucos e inevitavelmente, convencida que até temos algumas coisas em comum. Eu, o tradutor e, possivelmente, espero, mais uma data de gente.

Nunca me esqueci do chapéu no eléctrico mas já tive senhorias poupadinhas, sovinas vá. Penso que o importante não são os pontos comuns que o leitor possa ter com as situações criadas com os que cruzam os dias deste personagem, o tradutor, o que conta é como a avalanche de pensamentos que lhe ocorre é habilmente conseguida, traçando o perfil dos outros, dando a conhecer o que ele acha dos outros, criando cenários empáticos, criando algo que já tenhamos vivido pelo menos uma vez.

E é esta construção dos outros a partir do personagem, do que o personagem vê e sente que tornou esta leitura tão especial para mim. Mais do que a história, ou histórias de percalços, confusões e medos, interessa-me o modo como está feito. A forma como, a partir de um tipo trapalhão, que vive numa época que penso nunca chegar a ser totalmente definida, que fica sozinho, a noiva foi-se embora, e vive rodeado de uma atmosfera que possivelmente não será tão tóxica como ele a define, mas na qual acredito e me deixei enredar.

O tradutor é dramático e triste, tanto, que chega a ser cómico. Pela forma como vive e encara tudo em seu redor, por estar sempre agoniado e recear adoecer, por olhar tudo o que acontece de uma forma negativa, com um exagero bem conseguido e coerente. É um homem irritante, solitário, parvo e por vezes até ridículo, que me convenceu em pleno.

“Aperto-lhe a mão viscosa, é seca e húmida ao mesmo tempo, uma mão de réptil mumificado, ele não faz força na mão, os dedos são uma gosma, moles, sempre me impressionei negativamente com mãos que não cumprimentam, são pessoas desleais, escondem as forças, são picuinhas, moscas mortas, impotentes tarados, o seu ambiente o éter sulfuroso dos pântanos, sinto novamente o cheiro a enxofre, isto é demasiado para um homem honesto, é a antecâmara do inferno, quero limpar a mão às calças, um papel, qualquer coisa, tento controlar-me, esperar até sair deste covil, o fuinha quer recolher-se na toca, abro a porta, a chama da vela treme, faço um último movimento de cabeça na sua direcção, ele responde-me do mesmo modo, fecho a porta, passo pela secretária sentada, continua a mexer nas repas do cabelo, minha senhora, não use esse penteado, nem todas o podem fazer, digo-lhe boa tarde, pego no guarda-chuva, ela levanta-se da cadeira mas sou mais rápido e encontro-me na rua antes que ela me alcance.” (Pág. 36)

Desafio-vos a estarem presentes nas próximas apresentações deste livro:

Lisboa – 6 de Junho, às 18h30, na Fnac Chiado;

Porto - 12 de Junho, às 18h30, no Teatro Rivoli

Guimarães - 13 de Junho, às 18h30, na Livraria Snob;

Companhia das Ilhas, 2015

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