Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

planetamarcia

planetamarcia

Novembro 12, 2015

Gente Feliz com Lágrimas - João de Melo - Opinião

gentefelizcomlagrimas.jpg

Há livros que nos esmagam, com os quais a leitura é uma luta em que nos sentimos perdedores.

O percurso foi longo. Pensei em desistir. Para não encarar a dor.

Mas a grandeza de um livro como este revela-se nas páginas percorridas, na forma marcante como foi ficando em mim.

Fica o prazer da escrita perfeita, que obriga a crescer. O avistar da última página é inesquecível, pela sensação de chegar à meta. E por saber que, como leitora, não serei a mesma.

Sinopse

“Uma saga que irresistivelmente arrasta o leitor ao longo de cinco mundos, vividos e pensados através da obsessiva busca da felicidade que move os seus protagonistas. Concebida polifonicamente como a descrição dos vários modos de viver a amargura que medeia entre o abandono da terra e o retorno ao domínio do que é familiar, esta peregrinação possível em tempos de escassez de aventura é a definitiva lição de que o regresso se não limita a perfazer o círculo e constitui uma visão fascinante do Portugal que todos, de uma maneira ou de outra, conhecemos.”

D. Quixote, 2000

Outubro 31, 2015

Flores - Afonso Cruz - Opinião

Flores.jpg

Desta vez ainda mais do que das outras. Mais feliz.

Ao fechar a última página, sinto vontade de rodar o livro cento e oitenta graus e viver “Flores” consciente do que me espera.

Do melhor que o Afonso já escreveu. Não será uma opinião unânime. A mim, Flores, disse muito. Contou-me ao ouvido estórias em que acreditei, que vivi, que me apertaram o coração de mau e bom, na medida incerta que os recebemos da vida. E com o perfume das flores.

Não me preocupa não saber o que escrever agora. Ou sentir que não será suficiente. Porque não será. Ficará sempre aquém. Agora, como em tantas outras situações, o melhor fica sempre por dizer. Fica calado. No escuro e no silêncio. Escondido mas, acima de tudo, guardado. O que levo deste livro guardo para sempre. É perfeito!

“- Sabe porque não somos felizes? – perguntou ele.

- Desespero, solidão, medo?

- Não. Por causa da realidade.” (Pág.32)

Sinopse

“Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. 
Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome.”

Companhia das Letras, 2015 

Outubro 25, 2015

Arranha-Céus - J. G. Ballard - Opinião

Capa Arranha-Céus.jpg

Primeiro é o toque. Suave, diferente e agradável. A capa ajusta-se e delicia as mãos. Surge a vontade de pegar no livro só para sentir o fantástico acabamento. Arranha-Céus é o primeiro livro que leio da chancela Elsinore, e falando apenas do aspecto físico do objecto-livro, tenho de me assumir como uma fútil apreciadora do trabalho desenvolvido pela editora. Sim, eu sei que o que interessa é o conteúdo, mas poder aliar o prazer da leitura ao prazer de segurar um livro tão bem acabado que não apetece largar, permite um grande avanço nas páginas lidas. E não é disso que gostamos? De ler livros ávida e rapidamente para, obviamente, poder ler mais livros a seguir?

Tenho de destacar também as páginas de abertura e fecho, elegantes, a negro. No início lê-se “You are Welcome to Elsinore, de Mário Cesariny. No final as notas de apresentação das tradutoras e do ilustrador. Gostei muito deste destaque final pois apesar do trabalho do tradutor ser fundamental é, na maioria das vezes, esquecido, quase fantasmagórico. Numa época em que a grande maioria das capas dos livros são “pescadas” em bancos de imagem, é um luxo que esta edição de “Arranha-Céus” tenha uma capa original.

Mas se dizem que o Diabo mora nos detalhes, e eu concordo, aqui o Diabo fez o favor de fazer acompanhar os detalhes de elegância e bom gosto que descrevi, com um conteúdo absolutamente diabólico. Desculpem o excesso de referências infernais, mas adequam-se perfeitamente, em ambas as circunstâncias, tanto nos diabólicos pormenores requintados, como na descida ao inferno que é ler este livro.

Horrível e incrível. Duas palavras recorrentes durante a leitura. Não pude evitar a sensação constante de me estar a escapar algo, de não estar a perceber os motivos dos acontecimentos dentro desta construção excessiva e cheia de excessos. Comecei por verificar que os habitantes do Arranha-Céus, e são muitos num prédio de quarenta pisos e mil apartamentos, não diferiam muito da vizinhança de qualquer prédio, com manias e hábitos capazes de mexer com a paz dos outros. Há essa semelhança, independentemente de, no caso deste livro, a vizinhança ser composta, unicamente, de pessoas ricas em que, pelo menos, um elemento de cada agregado tem uma actividade profissional considerada de topo. E aqui surge a primeira conclusão óbvia, ricos ou pobres, os vizinhos têm a capacidade de nos dar cabo dos nervos, e mesmo num prédio de luxo como este, o teor das discussões não difere muito do que podemos ter lá no nosso prédio.

Mas a certa altura, bastante cedo na narrativa por sinal, percebi que o desfecho das relações desta vizinhança iria muito além do ocasional bate-boca por causa do estacionamento ou do cocó do cão. Estas personagens são possuídas por uma necessidade de luta e destruição que, eu confesso mais uma vez, tive dificuldade em perceber de onde vinha. É referida muitas vezes a força e influência exercida pelo prédio, como se a própria construção tivesse um poder de mobilizar os seus elementos numa luta sem regras nem limites pelo poder de atingir o topo. O topo tem um sentido físico, é efectivamente o topo do edifício, mas eu não pude deixar de lhe atribuir um significado de força e poder. Mesmo dentro desta população abastada, distinguem-se os mais ricos pela localização superior. Mais poder significa um apartamento mais alto e, consequentemente, menor abastança significa viver mais abaixo.

A população isola-se. Descarta as necessidades básicas, como comer, dormir, tomar banho, abandona a privacidade e luta, trava uma guerra que só existe na estrutura do arranha-céus, é criada e cultivada internamente, e assume contornos de uma guerra mundial, pois para estes guerreiros o mundo existe até aos limites das paredes e dos tectos. E é uma guerra pela liberdade, não como a poderemos imaginar à partida, mas uma liberdade de tudo o que tiveram. É um soltar de amarras do convencional caindo na decadência furiosa de não ter limites. Uma guerra pelo que consideram a normalidade. Primeiro estranha-se e depois não se entranha, não encaixa nem se aceita. Lê-se com constante estranheza e incompreensão mas avança-se nesse caminho escuro de horror e nojo. E gosta-se. Eu gostei. E muito. As descrições são reais e avassaladoras, a narrativa tem ritmo, e nem mesmo nos momentos em que apetece voltar a cara ao lado, cedi ao entusiasmo de ler.

Deixo um excerto. Recomendo, claro.

arranha-ceus.jpg

Sinopse

“«Mais tarde, sentado na varanda a comer o cão, o Dr. Robert Laing refletiu sobre os estranhos acontecimentos que nos últimos três meses tinham ocorrido no interior do prédio enorme.»
Num imponente edifício de quarenta andares, o último grito da arquitetura contemporânea, vive Robert Laing, um bem-sucedido professor de medicina, mais duas mil pessoas. Para desfrutarem desta vida luxuosa, não precisam sequer de sair à rua: ginásio, piscina, supermercado, tudo se encontra à distância de um elevador. Mas alguma coisa estranha borbulha por baixo desta superfície de rotina.
Primeiro atacam-se os automóveis na garagem, depois os moradores. Um incidente conduz a outro e, acossados, os vizinhos agrupam-se por pisos. Quando aparecem as primeiras vítimas, a festa mal começou. É então que o realizador de documentários Richard Wilder resolve avançar, de câmara em punho, numa viagem por esta inexplicável orgia de destruição, testemunhando o colapso do que nos torna humanos.
Entre a alucinação e a anarquia, a visão nunca ultrapassada de J. G. Ballard oferece-nos um retrato demencial de como a vida moderna nos pode empurrar, não para um estádio mais avançado na evolução, mas para as mais primitivas formas de sociedade.”

Elsinore, 2015

Tradução de Marta Mendonça e Rute Mota

Ilustração da capa de Lorde Mantraste

Outubro 22, 2015

Vai e Põe uma Sentinela - Harper Lee - Opinião

01040619_Vai_Poe_Sentinela.jpg

Eu não li “Mataram a Cotovia”, o único livro publicado de Harper Lee. Até agora.

Mesmo assim, sabendo da enorme falha que é não ter lido um dos livros favoritos de grande parte dos leitores de todo o mundo, decidi começar este “Vai e Põe uma Sentinela” sem saber, literalmente, nada sobre a escrita e universo da autora. Apenas que este livro, agora editado, foi o primeiro a ser escrito, com as mesmas personagens de “Mataram a Cotovia”, mas vários anos depois.

Pautei a minha leitura pela ideia de que as personagens que agora conheci, como Jean Louise Finch, conhecida por Scout, foram como que enviadas na máquina do tempo pela autora, quando, depois de escrever “Vai e põe uma Sentinela”, as levou para uma época anterior. Como se a sua realidade tivesse sido criada numa época, e depois levada para trás, quando Scout era criança. Li Scout já mulher mas não pude deixar de pensar como seria o seu temperamento determinado e explosivo tantos anos antes. Toda esta leitura, aliás, me manteve sempre em suspenso, imaginando a infância de uma das personagens mais carismáticas que conheci até hoje. Fiquei ainda com mais vontade de ler “Mataram a Cotovia”. O meu percurso é contrário ao da maioria, mas penso que a minha viagem não será menos interessante por isso.

Scout é uma mulher determinada e de convicções fortes. Vive em Nova Iorque e regressa, de férias, à casa da família, em Maycomb no Alabama. Não se identifica com as aspirações das jovens da sua idade que encontra na pequena Maycomb, quer seja em relação ao casamento, ao trabalho, à família, ou ao papel da mulher. As suas observações, e a tomada de consciência do fosso que existe entre a sua perspectiva e a visão dos outros, são o ponto de partida para as divagações sobre o seu lugar no mundo. Sensível e introspectiva, analisa tudo à sua volta, principalmente as questões sociais (raciais) no sul da América da década de 50.

Coloca tudo em causa, mesmo o discernimento do pai, o seu modelo de vida, quando se apercebe da distância a que a família se encontra das suas convicções. Com uma fé inabalável nos princípios em que acredita, e não sendo de meias medidas, não hesita colocar o amor da família em cheque em prol dos valores que defende.

Foi impossível não gostar de Scout, mesmo quando senti que a sua impulsividade a levava longe demais. A sua força contagiante foi, sem dúvida, o meu impulso para o rápido virar de páginas, mesmo quando, pela habilidade da autora, fiquei do lado da família porque percebi que, para eles, havia motivos para analisar a mesma questão de outra forma.  

Gostei muito e recomendo.

Para mais informações consultem o site da Editorial Presença aqui.

Sinopse

"Jean Louise Finch -  Scout -  a inesquecível heroína de Matar a Cotovia, regressa de Nova Iorque a Maycomb, a sua cidade natal no Alabama, para visitar o pai, Atticus. Decorre o turbulento  período  de meados de 1950, numa nação dividida em torno das dramáticas questões raciais. É com  este pano de fundo que Jean Louise descobre verdades perturbadoras acerca da sua família, da cidade e das pessoas de quem mais gosta, o que a leva a interrogar-se sobre os seus valores e princípios, e a confrontar-se com complexos  problemas de ordem pessoal e política.

Vai e Põe Uma Sentinela, romance inédito de Harper Lee, cujo manuscrito  se havia  perdido mas  descoberto em 2014, foi escrito antes de Matar A Cotovia e apresenta-nos muitos dos personagens dessa mítica obra,  agora vinte anos mais velhos. Um livro magnífico, comovente e de grande fascínio de um dos maiores vultos da ficção contemporânea.”

Presença, 2015

Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral

Outubro 20, 2015

A Confissão da Leoa - Mia couto - Opinião

_mia_couto_a_confissao_da_leoa.jpg

Há leituras que permitem viagens especiais. Como se abrir o livro fosse abrir uma porta com dupla função, a de mostrar um novo caminho, e a de, ao mesmo tempo, se fechar para todo o resto que existe.

Assim me esqueci do que existe, e fui levada pelas palavras mágicas que me abriram o caminho para Kulumani, para um poço sem fundo de estórias guardadas em camadas. A cada revelação outra camada, outra surpresa, por vezes com dor, mas mesmo a crueldade é palavrosa. Palavras dentro de caixas fechadas, enfeitadas com pontos de exclamação. Caixas difíceis de abrir, chaves perdidas, pistas omissas.

Não posso, por incapacidade, descrever ou explicar “A Confissão da Leoa”. Deixo alguns excertos. Curtos mas completos. E perfeitos.

“Desde que te amo, o mundo inteiro te pertence. Por isso, nunca cheguei a dar-te nada. Apenas devolvi.” (Pág. 43);

“O silêncio dela faz coro com a paisagem em redor: o mundo parece ainda por estrear.” (Pág. 76);

“No fundo, o que ele ambicionava era não ter obrigação nenhuma. A felicidade, costumava ele dizer, consiste num fazer nada: ser-se feliz é apenas deixar Deus acontecer.” (Pág.101);

“- Estar perdido é bom. Significa que há caminhos. O grave é quando deixa de haver caminhos.” (Pág.164);

Agora é recuperar o tempo perdido em que não li livros de Mia Couto.

Sinopse

“Um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.”

Caminho, 2015

 

Outubro 11, 2015

Peregrino - Terry Hayes - Opinião

Capa PEREGRINO.jpg

Quando “Peregrino” chegou às minhas mãos tive muitas reservas. Apesar de, já há algum tempo, me apetecer ler um livro deste género, refiro-me a puro entretenimento com muita acção, um misto de policial, espionagem e muito suspense (um page turner comercial, vá), um livro de 655 páginas oferece sempre algumas dúvidas por muita determinação que se tenha em concluir a leitura. Não que os calhamaços me assustem, não é isso, assustam-me os livros maus que nunca mais acabam, se mastigam e nunca se chegam a engolir.

Os meus receios confirmaram-se infundados desde o início da leitura. É sempre complicado escrever sobre um livro de mistério. Qualquer passo em falso, neste caso, palavra em falso, pode roubar um pouco do prazer do próximo leitor. E eu gostaria muito que os leitores do género, e até outros, abrissem a primeira página com o meu nível de ingenuidade. Sei que não vai ser possível. E quantas mais pessoas lerem este livro, e eu acredito que serão muitas, mais se perde o frio na barriga de uma leitura que é como cair, no escuro, a pique. Por isso, e se calhar mais do que tudo, o meu entusiasmo se deve a ter sido das primeiras pessoas a lê-lo por cá, e não ter sido influenciada por outros leitores (bom, enfim talvez só por uma opiniãozita ou outra que espreitei no goodreads, que uma pessoa não é de ferro), e ter aproveitado este livro surpreendente sem grandes influências, apenas acompanhando os comentários dos meus colegas bloggers, parceiros desta aventura. Obrigada à Topseller por me incluir em mais uma viagem.

Conheci o Peregrino em Nova Iorque. Soube logo que seria o herói, apliquei-lhe os estereótipos, e imaginei-o na última página, poderoso, vencedor e com a miúda mais sexy nos braços. Previsão errada e ainda bem. Fiquei a saber muito sobre este homem. Na verdade, acho que só não fiquei a saber o nome, pois a construção desta personagem (e das outras) é muito completa. Não deixa de ser curioso como é que se sabe tanto, desde a infância, acerca de um homem que tantas vezes, por força da carreira, deixa de existir. Gosto do lado humano do Peregrino, da construção desde a infância, das oportunidades únicas surgidas da maldade, e como a maldade subsiste, ou não fosse ele uma máquina de matar. Gosto de imperfeições, não acredito em heróis, e esta personagem agarra-se bem ao que pode ser verdade. À parte os exageros de sobreviver em algumas circunstâncias (demasiado) extremas, é verosímil. Não sabemos se é bonito, as leitoras não vão suspirar por ele, este livro não é para meninas, no sentido piegas da coisa, entenda-se.

E como cada herói, ou o que aqui mais se aproxima desse conceito, tem de combater o mal (e que bom seria que o bem e o mal e estivessem sempre separados de modo a distinguir as suas localizações, sem nunca se misturarem, e as pessoas boas fossem sempre só boas e as más sempre só más), no outro lado do ringue o Sarraceno é um inimigo à altura. Médico, extremamente inteligente, guarda a revolta do pai ter sido executado publicamente quando ele tinha apenas catorze anos. Este acontecimento foi o catalisador da sua sede de vingança. Sarraceno é Muçulmano e cedo a sua vingança recai sobre os Estados Unidos. Sim, eu sei que a coisa descrita assim parece um bocado previsível. E não adianta dizer-vos que os Estados Unidos perdem que ninguém acredita, mas este livro é muito mais do que isso, é uma luta de forças iguais entre adversários igualmente poderosos, que, sim, tem muita morte e violência, mas é um combate que se faz muito mais com o poder da inteligência. E aqui as forças estão equilibradas.

Para mim foi uma surpresa. É empolgante, com reviravoltas imprevisíveis, e envolvente. Oferece cenários que revelam uma imaginação avassaladora, descrições pormenorizadas, acontecimentos simultâneos, pistas cruzadas, exige muito do leitor e a atenção será recompensada. No fim não haverá pontas soltas.

Procurem-no, a partir de 26 de Outubro, nas livrarias.

Sinopse

“UMA CORRIDA VERTIGINOSA CONTRA O TEMPO E UM INIMIGO IMPLACÁVEL. 

Uma jovem mulher brutalmente assassinada num hotel barato de Manhattan. 

Um pai decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita. 

Os olhos de um homem roubados do seu corpo ainda vivo.

Restos humanos ardendo em fogo lento na montanha de uma cordilheira no Afeganistão.

Uma conspiração para levar a cabo um crime terrível contra a Humanidade. 

E um único homem para descobrir o ponto preciso onde estas histórias se cruzam: Peregrino.”

Topseller, 2015

Tradução de Rui Azeredo

Outubro 08, 2015

O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, Anotado por José Luís Peixoto, Ilustrado por Hugo Makarov

principezinhocapa.jpg

Li O Principezinho pela primeira vez aos treze anos. Desde então reli-o algumas vezes. Coisa que raramente faço, porque há sempre outros livros em espera e o tempo é pouco, porque a curiosidade por uma leitura nova tem-se sobreposto sempre ao prazer de visitar um velho amigo.

O facto de, por vezes o tirar da estante, e me dedicar à mesma viagem com o fascínio da primeira leitura, faz com que este seja dos livros que tenho como mais especiais. Assim é com milhões de pessoas, pois parece que este é o livro mais traduzido depois da Bíblia. Agradeço esta informação ao José Luís Peixoto e às suas anotações nesta edição especial linda, linda, linda.

principezinho.jpg

Esta edição está francamente espectacular, capas duras em tecido preto dão-lhe um ar sofisticado, o que poderá chocar alguns leitores por se distanciar tanto do livrinho a que nos habituámos, simples e bonito, ilustrado pelo próprio Saint-Exupéry. As ilustrações de Hugo Makarov são, quanto a mim, soberbas. Encheram-me o imaginário com as mesmas personagens e cenários, mas mais fortes, mais cheias de cor e expressões, de vontades e desejos nos olhos que brilham, sonham, suspiram, questionam e viajam.

É tudo igual mas ao mesmo tempo tão novo. A mancha do texto é rodeada por apontamentos sobre o autor, o livro, as personagens, curiosidades e, por vezes, divagações de José Luís Peixoto sobre qualquer detalhe da história, como paralelismos da narrativa com a vida de Saint-Exupéry, que muitas vezes podem ser meras suposições, ideias soltas ou pequenas divagações.

Veste-se um livro maravilhoso com uma nova arte. Nada muda na essência de O Principezinho, nem tal coisa se pretende, mas conseguiu-se, a meu ver, uma homenagem bonita a um dos mais fantásticos livros para crianças-adultas.

Comprei o meu com o Expresso de 2 de Outubro por mais € 9,90. Recomendo que não deixem escapar o vosso com a Visão de 8 de Outubro. Atenção que é HOJE!

 

Setembro 29, 2015

Os Números que Venceram os Nomes - Samuel Pimenta - Opinião

template-marcador_osnumerosquevenceramosnomes.jpg

Os números já venceram os nomes.

No livro de Samuel Pimenta tudo acontece no futuro. Mas todos sabemos. Todos sentimos. Que somos números.

Pode não ser no sentido literal, pois todos temos (ainda) os nossos nomes, mas a verdade é que os números já lhes levam um grande avanço. E é sobre isto que Samuel escreve, não só acerca da perda de identidade, mas, acima de tudo desse caminho sem volta como pequenas peças numeradas na sociedade.

O trabalho é um bom exemplo, talvez dos melhores. Cada vez mais sentimos que somos apenas máquinas programadas a executar tarefas, de quem se esperam resultados de acordo com os objectivos “propostos”; muitas vezes os nossos e-mails já nem têm os nossos nomes de modo a poderem ser “reutilizados” pelo próximo número, aquele que nos vai substitui se for preciso apagar a nossa passagem. Sabemos que é assim. Que nos devemos defender não criando laços, não fazendo amigos, não envolvendo sentimentos que possam atrapalhar o nosso bom profissionalismo. Participamos do lado dos números, por defesa mas em consciência, no apagamento dos nomes.

Está visto que o que mais gostei neste livro foi o tema. Pela actualidade (futurismos à parte); pela lucidez do autor, um observador que constrói (ou desconstrói) e trabalha uma boa ideia que, quanto a mim, poderia ser mais profundamente abordada. Ou seja, eu queria mais deste “ Os Números que Venceram os Nomes”. Queria que não tivesse terminado tão rápido, a fluidez da escrita leva-nos num instante até à última página. Queria, portanto, mais páginas, maior complexidade com (ainda) mais achas para esta fogueira polémica. Este livro é um ponto de partida para discussões que não se gastam, não terminam e enriquecem aqueles que, apesar de tudo, insistem em viver de olhos abertos.

Agora, Samuel, é continuar.

12066050_180390582293885_7986517213177607255_n.jpg

Sinopse

“Num futuro distante, comprovada matematicamente a existência de Deus, os homens são obrigados a trocar os seus nomes por números. Ergue-se uma ditadura global, em que todos são controlados e descaracterizados, uma sociedade de uma única religião, em que os algarismos definem tudo – pessoas, países, ruas, animais -, em detrimento da essência de cada um.

Os Números Que Venceram os Nomes, Samuel Pimenta consegue, com uma destreza literária que nos prende do início ao fim, contar uma história empolgante, que, embora passando-se num futuro imaginário, questiona muitos dos problemas das sociedades contemporâneas – a substituição estéril de um mundo espiritual por uma realidade puramente material.”

Marcador, 2015

Setembro 07, 2015

Todos Devemos ser Feministas Chimamanda Ngozi Adichie - Opinião

todosdevemosserfeministas.jpg

“Eu tinha catorze anos. Estávamos em casa dele, a discutir, ambos a fervilhar de opiniões imaturas, baseadas nas nossas leituras. Não me lembro exactamente do teor da conversa, mas recordo que estava a meio de uma argumentação quando Okolomo olhou para mim e disse: “Sabes uma coisa? És uma feminista!” Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele. Era como se dissesse: “És uma apoiante do terrorismo!” (Pág. 11/12);

“Naquele dia, quando cheguei a casa e procurei a palavra no dicionário, foi este o significado que encontrei: Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e económica entre os sexos.” (Pág. 47)

“O melhor exemplo de feminista que conheço é o meu irmão Kene, que também é um jovem amável, bonito e muito masculino. A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: “Sim, existe um problema de género ainda hoje e temos de o resolver, temos de melhorar.” Todos nós, mulheres e homens, temos de melhorar. “ (Pág. 48)

Não há muito a dizer acerca deste pequeno livro em género de ensaio. Dada a sua objectividade e clareza de ideias, apenas posso recomendar que o leiam, que lhe dediquem um pouco do vosso tempo para enriquecimento, para apurar um ponto de vista que deverá ser óbvio, mas não é. Ainda não é. Trata-se de uma versão da palestra que a autora deu em Dezembro de 2012, da qual deixo o vídeo.

De forma a ilustrar tudo o que foi dito e escrito, este livro inclui o conto “Casamenteiros”, um pedaço de narrativa espectacular, dentro do estilo que Chimamanda me tem vindo a habituar.

Desafio-vos a descobrir “Todos Devemos ser Feministas”, um livro que está mesmo a pedir que o ofereçam a toda a gente.

Sinopse

“"Peço-vos que sonhem e planeiem um mundo diferente. 
Um mundo mais justo. Um mundo de homens e mulheres mais felizes, mais fiéis a si mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos de criar as nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos de criar os nossos filhos de uma maneira diferente."
O que é que o feminismo significa hoje em dia?
Neste ensaio pessoal - adaptado de uma conferência TED - Chimamanda Ngozi Adichie apresenta uma definição única do feminismo no século XXI. A escritora parte da sua experiência pessoal para defender a inclusão e a consciência nesta admirável exploração sobre o que significa ser mulher nos dias de hoje. Um desafio lançado a mulheres e homens, porque todos devemos ser feministas.”

D. Quixote, 2015

Traduções de Simão Sampaio e Ana Saldanha

Agosto 31, 2015

A Morte do Pai - Karl Ove Knausgård - Opinião

amortedopai.jpg

Numa época em que a curiosidade sobre a vida alheia assume contornos doentios, confesso que receava que “A Morte do Pai” fosse um livro em formato reality show. E se o alarido em redor do livro me fixou nesse palpite, posso apenas resignar-me e aceitar que sou mais uma criatura com interesse em espreitar a vida dos outros.

Se tudo o que Karl Ove escreve é autobiográfico e verdadeiro, tiro-lhe o chapéu à coragem de contar pormenores tão pessoais de forma por vezes tão fria e distante, não exactamente pelos factos, mas pela forma como ele olha e vive os factos. A família, as mulheres e os filhos têm o lugar que ele lhes atribui na sua escala de prioridades. Não discuto nem me interessa se é a certa ou a errada, mas admiro a honestidade, a sinceridade de dizer que gosta e precisa de solidão, e que esta é essencial ao seu objectivo. Escrever. Amará menos os outros por lutar pelo seu espaço? Se calhar sim. E não é bonito. Mas se é verdade adianta negar aos outros? E a si próprio?

Com a leitura desliguei-me da dúvida verdade/mentira/realidade/ficção. Não porque esteja convencida de algum dos pontos, mas simplesmente porque deixou de me interessar. “A Minha Luta” é a história de um homem. Uma boa história, bem contada e bem escrita. Por isso pouco me importa se é a história do homem da capa ou de outro qualquer.

Um livro que é uma construção, que se constrói a si próprio, e que me foi convencendo à medida que avançava na leitura. Como se fosse ganhando sustentação. No fundo, como se fosse crescendo, como se o autor fosse apurando as descrições, os pensamentos, a forma de observar o mundo com o passar dos anos, de criança a jovem adulto. A maturidade da escrita é crescente e acompanha os anos de vida de Karl Ove. Propositado ou não o resultado é, na minha opinião, satisfatório.

O salto qualitativo da narrativa é francamente notório a partir da segunda parte. Um Karl Ove adulto é descrito de forma mais desafiante e menos óbvia. O leitor torna-se íntimo das suas reflexões e viagens às recordações. Independentemente das diferenças culturais que possam justificar uma maior frieza, e esta possibilidade é, obviamente discutível, a forma como olha para si próprio, o distanciamento que consegue criar em relação a tudo é tão marcante e intenso, que as reacções emocionais à morte do pai fazem dele um ser humano complexo e incoerente e, definitivamente, desorientado. Nada de novo. O senhor é humano.

Gostei e quero ler o próximo. E, se não desiludir, prossigo.

“Andei de um lado para o outro durante alguns minutos, tentando atribuir algum significado ao facto de o meu pai estar morto, mas não consegui. Não tinha significado. Eu percebia-o, aceitava-o, e o absurdo não era que uma vida que poderia não ter sido ceifada fora ceifada, mas que se tratasse de um facto entre muitos outros e não ocupasse na minha consciência a posição que deveria ocupar.” (Pág. 200);

“Mas o meu pai tivera aquilo que merecera, era bom que tivesse morrido, tudo aquilo que em mim sugerisse o contrário era mentira. E isso aplicava-se não só ao homem que ele fora quando era pequeno, mas também ao homem que se tornara na meia-idade, quando rompeu com o passado e começou de novo.” (Pág. 207);

“A primeira vez que me apercebi de que o que estava a escrever tinha realmente algum significado, e que não era apenas eu querer ser alguém ou a fingir ser alguém, foi quando escrevi uma passagem sobre o meu pai e comecei a chorar enquanto escrevia. Nunca me aconteceu tal coisa, nem nada de semelhante. Escrevi sobre o meu pai e as lágrimas correram-me pelas faces. Mal conseguia ver o ecrã ou o teclado, limitava-me simplesmente a martelar as teclas. Desconhecia por completo a existência daquela dor que jazia dentro de mim e que nesse instante se libertara; não tinha a mais pequena intuição de que ela existia. O meu pai era um idiota, eu não queria ter nada que ver com ele, e não me custava nada manter-me afastado. Nem se tratava de me manter afastado dele, mas sim de que ele não existia; nada nele me comovia. Era assim que tinha sido, mas depois sentara-me a escrever e as lágrimas jorraram.” (Pág. 371);

Sinopse

“Karl Ove Knausgård escreve sobre a vida com dolorosa honestidade. Escreve sobre a infância e os anos de adolescência, a paixão pelo rock, a relação com a sua afectuosa e algo distante mãe, e o seu pai, sempre imprevisível, cuja morte o desorientou. O álcool e a perda pairam como sombras sobre duas gerações da família.
Quando ele próprio se torna pai, Knausgård tem de encontrar um equilíbrio entre o amor pela família e a determinação em escrever.
Knausgård criou uma história universal de lutas, grandes e pequenas, que todos enfrentamos na vida. Um trabalho profundo e hipnotizante, escrito como se a própria vida do autor estivesse em risco.
A Morte do Pai é o primeiro de seis romances que compõem a obra autobiográfica A Minha Luta.”

Relógio D’água, 2014

Tradução de João Reis