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planetamarcia

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Dezembro 07, 2013

Enciclopédia da Estória Universal, Recolha de Alexandria - Afonso Cruz

 

Refletir através de pequenas estórias apresentadas como verdades enciclopédicas. Um projecto que requer todo um trabalho de construção, uma estrutura sólida que assenta na criatividade e na imaginação. Um trabalho genial. Possivelmente o livro do Afonso Cruz que mais gostei de ler até agora.

Mais do que saber escrever, mais do que ter talento para criar palcos, personagens e argumentos, impressiona-me o criar de mundos. E Afonso Cruz como que criou o seu próprio mundo, com todas as explicações de coisas em que nunca pensámos, ou que já pensámos mas nunca desta forma. Quem se iria lembrar de medir a sorte ou os pecados considerando-as medições cientificamente comprovadas? É como chegar à verdade através de um processo de alucinação, com entrar num túnel onde se olha para tudo de outra forma e se descobrem coisas fantásticas.

Deixei-me levar por uma leitura excecional, que me surpreendeu a cada página e me levou a reflectir sobre temas sérios através de exemplos quase infantis. Uma brincadeira que quero repetir, um livro que já é para mim um marco e que prevejo reler infinitas vezes.

Um conjunto de pensamentos e fragmentos muitas vezes contraditórios e cujo sentido só nos atinge umas páginas mais à frente; um exercício extraordinário para as cabeças que, cansadas de rotinas, procuram algo diferente dos dias (quase) todos iguais. Pois que viver numa era em que se produz e vende tudo tende a deixar o cérebro demasiado tempo em descanso.

Não tenho mais adjectivos para tamanha genialidade. Vou ali procurar alguns na Enciclopédia.

“No futuro

Iremos parar durante

Um minuto todos os dias,

Interromper o que estivermos a fazer, de repente, a meio

De uma palavra, de uma passada,

De uma garfada. E, perfeitamente imóveis, veremos que o mundo

É uma cruz para quem o carrega

E um berlinde para quem o empurra.

Depois é só escolher.” (Pág. 24).

“Podem não existir livros a mais, mas existe tempo a menos.” (Pág. 68).

“O ócio não é o contrário de trabalho. A felicidade é que é o contrário de trabalho” (Pág.75).

“Existe uma doença oftálmica chamada poliopsia. Consistem em ver várias imagens do mesmo objecto. Quando a poliopsia ataca o cérebro, chamamos-lhe sabedoria: consiste em ver o mesmo objecto, mas de perspectivas diferentes, como se fosse visto por várias pessoas.” (Pág. 79).

“Os monges bibliofitas, por sua vez, consideravam todos os livros como seres viventes, tal como a própria biblioteca. Os livros têm uma das características fundamentais dos seres vivos: reproduzem-se (como qualquer bibliófilo sabe), quando não estamos a olhar para eles. Precisam de ser alimentados pela leitura ou acabarão por morrer inanes.” (Pág. 93).

Sinopse

“Este volume da Enciclopédia da Estória Universal, entre várias citações, curiosidades, mitos e anedotas orientais, inclui ainda entradas sobre monges que vivem pendurados em enormes prateleiras de livros e que nunca tocam no chão; diz-nos que Alice no País das Maravilhas nasceu de uma enxaqueca; conta história do sultão Osman III, que abominava música e mulheres; e narra episódios da vida de Umt Arslan, o governador otomano que tinha fama de comer leões. Num tom, por vezes solene, outras irónico, mas sempre lúdico, esta enciclopédia revela-nos toda a História que a História esqueceu e ignorou.”

Alfaguara, 2012