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planetamarcia

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Outubro 06, 2013

Union Atlantic - Adam Haslett - Opinião

 

Curioso é, nesta altura da minha vida, ler um livro com uma forte componente financeira, a minha área de formação. Recordei e reconheci termos. Compreendi algumas coisas e outras não. Não me importo, verdadeiramente nunca me importei destas coisas que sempre escaparam ao meu entendimento.

Union Atlantic cresce nessa atmosfera, desenvolve-se nesse cenário, mas é na verdade um livro sobre pessoas, sobre a natureza humana, as suas fraquezas e inúmeros defeitos. Doug constrói uma carreira de sucesso no Union Atlantic, baseada em especulação e atos ilícitos. Tem o poder que só o dinheiro oferece e, vindo de uma infância e juventude modestas, sente-se feliz e realizado por ser rico. Doug é o exemplo de podridão na camada jovem da sociedade. Ambicioso e sem escrúpulos, sente-se no topo do mundo ao volante do seu automóvel ou a habitar na sua casa enorme, sofisticada e vazia.

Charlotte, uma professora de História vizinha de Doug, vem levantar uma situação que parece marcar o início do colapso da estabilidade de Doug. Assume que o terreno onde foi edificada a mansão de Doug é pertença da cidade, e fará tudo para destruir a casa e recuperar os terrenos. Charlotte sempre foi uma mulher de convicções fortes com comportamentos que abalaram as estruturas da família; representa, a meu ver, a honestidade e a determinação. Pretende vencer através da razão demonstrando o que está certo. É o oposto de Doug, que enriqueceu com base em esquemas e pretende vencer Charlotte pela via menos lícita.

Nate é um aluno que tem sessões de explicação com Charlotte. Admira a professora, apesar de lhe reconhecer alguns laivos de loucura, de perceber que a idade e o sofrimento a marcaram, e que a lucidez a assiste em ondas. Na maior parte dos momentos a professora dialoga com os seus dois cães. Nate será a ponte entre Charlotte e Doug. Este último aproveita-se da inocência de Nate, da paixão que o rapaz sente por ele, para o manipular e obter informações sobre o processo que Charlotte lidera.

Doug é mais forte, exerce pressão sobre Nate, que aumenta à medida que se apercebe da fraqueza do jovem. Um jogo de forças que se transforma num esquema sexual doentio e violento, sem palavras, sintomático das questões que Doug tem em se assumir perante si próprio, preferindo continuar a ser visto como um homem rodeado de muitas mulheres.

Um livro que não me prendeu pela temática mas sim pela escrita, que considero exemplar. A verdade é que é mais um livro sobre pessoas com demasiadas questões por resolver e por assumir. Retrato fiel da sociedade americana, cheia de regras, conservadorismos teóricos e um constante pânico dos ataques terroristas.

Um bom livro. Contudo não me encheu as medidas.

“Doug olhou por cima do ombro de Mikey e viu um tipo sentado numa mesa à janela, com vinte e poucos anos, vestido com uns jeans desbotados caríssimos e uma camisola com remendos, de origem, nos cotovelos. Estava a folhear uma revista, os fios brancos dos auscultadores pendiam até ao bolso e tinha um portátil aberto a seu lado. Agora via estas pessoas em todo lado, estas crianças envelhecidas que não tinham feito nada, que não tinham assumido qualquer responsabilidade, pessoas cujo inútil refinamento liberal o julgaria a ele e a tudo o que tinha feito, considerando-o inimigo do bom e do justo, pessoas cujas opiniões arrogantes constituíam apenas um motivo decorativo num padrão de consumo diferente: o passado publicitado como futuro, para confortar os pedidos. E quem financiava tudo isto? Quem lhes emprestava dinheiro para poderem viver estas vidas acima das suas possibilidades, com cartões de crédito e empréstimos para estudantes? Quem, senão os bancos? E o que é que ele estava a ler? A GQ ou a Men’s Health? Um artigo qualquer que o ensinava a rapar os tomates ou a arranjar as sobrancelhas ou a esculpir o estômago? O cabelo estava cuidadosamente despenteado, brilhante do gel de pentear usado, com uma madeixa deliberadamente fora do sítio, caída sobre a testa.” (Pág. 156)

Sinopse

“Union Atlantic é, nas palavras de Jonathan Franzen, "um romance verdadeiro, que se nutre da urgência do momento, de excepcional maturidade, abrangência e compaixão." Em vésperas da grande crise financeira mundial, o destino do jovem ambicioso banqueiro Doug Fanning e o de Charlotte Graves, professora de História reformada, entram em rota de colisão. O resultado é um romance brilhante, que traça de modo magistral o retrato social e moral de uma nova época: aquela em que nós vivemos.”

Cavalo de Ferro, 2011