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planetamarcia

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Setembro 14, 2013

A Boneca de Kokoschka - Afonso Cruz - Opinião

 

Não tenho muito a dizer sobre este livro. A verdade é que me encantou de uma forma que me esvaziou…de palavras. Não tenho como o qualificar, nem quero. Uma escrita brilhante que evolui para o inesperado, um passeio pela mente do autor, ou pelo menos por onde Afonso Cruz nos permite passear.

Um livro que tem outro livro lá dentro, mas que a cada frase se poderia iniciar um livro novo. Enciclopédico, cheio de sentidos e possíveis interpretações, um livro pouco óbvio que exige atenção mas que dá muito mais do que pede. Recomendo uma entrega total, a escrita cumprirá a sua função: maravilhar.

Inesperado e surpreendente. Único.

“E aquelas vinte e duas letras era tudo o que era preciso, garantia Isaac, debaixo do soalho. Deus faria o resto. Lá em cima, o que ele faz é jogar scrabble. As pessoas dão-lhe umas letras, julgam que sabem o que querem, mas não sabem, e Deus com aquelas peças reorganiza tudo e faz novas palavras. Tudo se resume a um jogo de salão.

E Deus nem é um grande jogador, como se pode ver pelas bombas que caem lá fora.” (Pág.25)

“Ainda escrevi outra novela que contava a história de um homem que nunca nasceu. A mãe engravidou até morrer. O filho foi vivendo sempre dentro do útero. Aquilo era uma parábola das nossas limitações, do medo do desconhecido, de arriscar, essas coisas. Sabe, Sr. Dresner, nós vivemos todos muito abaixo do limiar possível. Vivemos na garagem de um palácio, ou numa cave, é isso que fazemos, como um feto que nunca sai do útero. Esta personagem era apenas mais um de nós que não queria sair do seu mundo para ver a luz.” (Pág.85)

“A destruição é evidente em tudo o que nos rodeia, é um processo fácil. A construção é que é muito difícil. À nossa volta, o que há é ódio, morte: o universo é um predador. Uma das únicas coisas que combate esta entropia é a vida. Junta células, junta organismos, cria cidades. comunidades, aglomerados. O resto desfaz-se.” (Pág. 173)

Sinopse

“O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía quais as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a à ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.”

Quetzal, 2010

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