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planetamarcia

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Julho 06, 2013

Madrugada Suja - Miguel Sousa Tavares - Opinião

 

A expectativa era muita mas não demasiado elevada. Diversas opiniões que apontam “Madrugada Suja” como um livro abaixo do alcançado com “Equador” ou “Rio das Flores” fizeram com que, inevitavelmente, o considerasse à partida aquém destes exemplos. Talvez por isso me tenha agradado tanto. Não é possível tecer comparações dada a natureza diferente dos livros, “Madrugada Suja” não tem a dimensão nem o alcance de um romance de época do Portugal colonial, mas é, um justíssimo digno de mérito, um exemplo excepcional da escrita de Miguel Sousa Tavares.

De escrita direta e simples, sem artifícios desnecessários, “Madrugada Suja” lê-se de um fôlego. Com entusiasmo e sem paragens, a leitura é muito satisfatória ao longo de todo o livro. Mais uma história de Portugal, de portugueses, do ponto a que chegámos e do caminho percorrido. Do que conseguimos atingir e do que o precipitou. Do actual estado de um país e do percurso de alguns homens que contribuíram para este lastimável presente que vivemos.

Acutilante e duro como o próprio autor, brilhante como alguns dos seus comentários, este é um livro que constantemente nos recorda quem o escreveu. Uma espécie de trama policial que acaba por envolver pessoas da esfera política, com ramificações aos mais diversos interesses pessoais. Como usar o poder em benefício próprio? Como fazer a política do “venha a nós”, passar por cima dos interesses do povo a quem o governo deve servir, sempre em prol de interesses particulares? Interesse sempre comum: dinheiro; interesse sempre pessoal e nunca social.

A história do nosso país nos tempos mais recentes, um conjunto de trafulhices dignas de um filme de terceira categoria que, infelizmente, têm sido o “pão-nosso-de-cada-dia” dos gatunos que nos têm governado.

Um retrato bastante fiel do final século XX em Portugal, uma época de grande desenvolvimento encapuzado, cujos resultados estão à vista.

Penso que semelhanças com a realidade não são pura coincidência.

Obrigatório ler.

“Nesses oito anos como autarca, Luís Morais vira muito e aprendera muito. Fora a época dourada dos grandes dinheiros europeus, em que bastava apresentar um projecto e Bruxelas financiava. Faltava uma piscina municipal no concelho? Bruxelas financiava. Um centro de dia para a terceira idade? Bruxelas financiava. Um centro de saúde, com médico e enfermeira disponíveis 24 horas por dia e para atender não mais do que uma dúzia de doentes ou supostos doentes ao longo de um mês de prontidão? Bruxelas financiava. Aquecimento em todas as salas de aula de todas as escolas, pavilhão gimnodesportivo, criação de novas disciplinas escolares como a “área de projecto”, onde os alunos gastam um ano a fazer trabalhos sobre “as novas culinárias étnicas”? Bruxelas financiava. Uma auto-estrada ao pé de casa para “aproximar o interior do litoral”? Bruxelas financiava. E Bruxelas financiava também submarinos alemães de última geração, destinados a combater as fragatas soviéticas no Atlântico Norte e tornados inúteis pela queda do Muro de Berlim, gatafunhos supostamente paleolíticos descobertos numas rochas de uma aldeia do Douro, aviões F-16 para inexistentes combates aéreos, plantações de frutos tropicais, cursos de formação profissional de cinema, bordados de linho e criação de mirtilos em estufa, abate de barcos de pesca ou inquéritos de opinião sobre as vantagens da democracia. Bruxelas financiava tudo. Os governos projectavam, construíam, mostravam, ganhavam eleições. A banca intermediava, comissionava, cobrava, prosperava. O PIB crescia, os imigrantes afluíam e não havia credores à vista: só os parvos desconfiavam de tanto “desenvolvimento”. Foi a época dourada do poder local: sem grande esforço, Luís Morais fez-se eleger e reeleger presidente da câmara de Riogrande, prometendo e fazendo, voltando a prometer e voltando a fazer.” (Pág. 201)

“Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. Todos viviam em casa própria, mas que, de facto, pertencia ao banco que lhes emprestara dinheiro a 30 anos e também emprestara para as férias do Brasil, Cuba, República Dominicana, mais o carro e os brinquedos electrónicos dos filhos.” (Pág.203)

Sinopse

No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política, que vai da base até ao topo. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo o dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que o final do dia e o raio verde venham pôr em ordem o caos aparente.

Clube do Autor

Maio 2013

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