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planetamarcia

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Novembro 18, 2012

O Vendedor de Histórias - Jostein Gaarder - Opinião

Há livros que nos tocam de uma forma especial. Apesar de “O Mundo de Sofia” ser o livro mais bem sucedido de Jostein Gaarder eu nunca o li. “O Vendedor de Histórias” é a minha primeira leitura da obra do autor.

Esta experiência foi extremamente positiva. Absorvente e intenso, adorei entrar no mundo de Petter, a Aranha, e conhecer esta personagem fascinante, por vezes doentia, outras vezes de uma lucidez admirável. Um livro que é como um jogo, uma vida surpreendente em que os factos se sucedem, se vão sobrepondo e encaixando. De forma inteligente.

A narrativa começa num ponto em que Petter está em fuga da sua própria história. Não sabe exatamente os perigos que corre mas receia o que de mal lhe possa suceder. É nesta altura que revê e analisa toda a sua vida, desde a infância, onde já demonstrava um nível cultural muito acima da média, uma capacidade criativa surpreendente, e uma bagagem de conhecimentos muito superior à dos próprios professores, cujos ensinamentos frequentemente colocava em causa. Filho de pais divorciados, teve uma relação muito próxima da mãe que lhe proporcionava atividades eruditas pouco comuns para uma criança, como a Ópera. Após estes eventos mãe e filho tinham o hábito de dissertar e desenvolver ideias sobre o que tais experiências os faziam sentir.

Petter vive num processo criativo constante, a sua mente inventa enredos a tempo inteiro, por vezes uma meia dúzia de histórias ao mesmo tempo. Intriga, mistério, policial, romance, uma capacidade que vai aproveitar de uma forma muito particular. Um solitário que vai guardando histórias que serão a base para a sua futura “atividade profissional”.

Estranhamente, este privilegiado do talento e da inspiração não quer escrever o seu próprio livro, mas consegue enriquecer a vender a sua arte a aspirantes a escritores com défice de capacidades. Seleciona-os como o fazia nos tempos de escola, em que já fazia os trabalhos para os seus colegas menos capazes; avalia um conto ou uma história à medida da capacidade do “cliente”. Inteligente e calculista, Petter cria o seu império de ficção, mas a pouco e pouco, vamos percebendo a origem da sua negação em escrever para e por si, e a razão de conviver ao longo dos anos com um “amigo” imaginário que mais ninguém vê.

Cria uma verdadeira empresa para toda a espécie de aspirantes a terem uma carreira na área da escrita. Mesmo para os que acabam por concluir que esse não é o seu futuro, ou tinham de ser persuadidos a isso. Petter é quase um psicólogo, ao mesmo tempo que orienta e ensina é persuasivo e manipulador.

A “empresa” está em marcha, internacionaliza-se e Petter torna-se francamente rico. Além da venda das suas ideias, começa a exigir uma percentagem nos futuros direitos de autor. Ser conhecido é vantajoso para o negócio mas pode deitar tudo a perder se não se souber salvaguardar - o sigilo é fundamental.

A vida de Petter são as histórias que inventa, algumas delas partilhadas ao longo da narrativa. Menos fictícias do que aquilo que se podia pensar, com o tempo percebi que este homem solitário conta as histórias do que viveu, vende contos da sua vida, entrega de forma criativa episódios reais, muito pessoais, e é na sua própria teia que se vai enredar. Desde o amor maternal, à paixão da juventude, é no final que percebe que a aranha se perdeu e não se libertará mais.

Profundamente inspirador e assustadoramente inteligente este é um romance que vou guardar como um dos melhores de sempre.

Sinopse

“O Vendedor de Histórias é uma viagem apaixonante ao mundo dos que aspiram uma carreira literária sem terem capacidade para serem bem sucedidos. A falta de criatividade leva-os a Petter, conhecido como "A Aranha", que dotado de uma imaginação ilimitada escreve por eles a história que tanto anseiam. Ideias geniais "emprestadas" a outros que lhe permitiam viver de um negócio lucrativo durante muitos anos. O que Petter desconhece é que a sua escrita se tornou num ícone e que a sua verdadeira identidade irá ser descoberta na Feira Internacional de Literatura Infantil e Juvenil de Bolonha. A sua vida ficará em perigo, ameaçada por escritores sem inspiração que vivem falsas carreiras literárias.”

Presença, 2003

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