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planetamarcia

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Outubro 28, 2012

Táxi - José Couto Nogueira - Opinião

Um livro que chegou até mim de forma muito especial e que li de uma assentada. Infelizmente já não se encontra disponível para venda na sua forma tradicional (para os adeptos das novas tecnologias facilmente encontram o e-book), talvez nalgum alfarrabista, biblioteca ou por empréstimo.. De qualquer modo, pela forma como me cativou e envolveu, não posso deixar de o recomendar sem qualquer reserva.

“É uma sensação mega e micro ao mesmo tempo, o mundo inteiro concentrado numa ilha. Qualquer coisa pode acontecer aqui mesmo – não à distância de uma viagem transatlântica mas na proximidade da rua seguinte. Em Nova Iorque pode-se ganhar tudo ou perder tudo – a cabeça, a vida – mas nunca se pára de aprender. O que houver de melhor e de pior, do que quer que seja, há aqui.

Coisas pensamos, perdidos no trânsito. À procura de passageiros, pessoas que querem ir de um lado para o outro. Cada um, uma história. Que talvez nunca cheguemos a saber qual é. Ou que talvez apenas fiquemos a conhecer um bocadinho. O que a pessoa quiser mostrar, o que não conseguir esconder. Pode não ser nada de fundamental, mas é sempre fascinante. As possibilidades são infinitas.” (pág. 127)

Quem nos oferece esta história, ou melhor, esta sucessão de histórias, é alguém de quem nunca chegamos a saber o nome. Penso que o facto de não se identificar o narrador é propositado na medida em que Nova Iorque é, não só o palco, mas também e principalmente a grande personagem deste livro.

A cidade brilha e destaca-se nas palavras deste homem que a descobre e que avalia, sedento, as vidas das pessoas que o rodeiam. Não satisfeito com o que o dia-a-dia lhe oferece decide ser motorista de táxi, tornando-se o cientista de um laboratório vivo com todo o género de espécies humanas.

Cru e direto, talvez pouco indicado a leitores mais sensíveis, mas definitivamente para aqueles que gostam de lidar com a verdade. Um retrato fiel da nossa sociedade, sem medo de tratar a decadência por tu nem deixando nenhum tema de parte, das drogas ao sexo, da frustração profissional ao desejo de felicidade.

O leitor tem a oportunidade de conhecer lugares e pessoas desta cidade através de fantásticas descrições de um observador nato, um verdadeiro “scanner” que varre ambientes e suga a alma dos que se cruzam no seu caminho.

Num estilo diferente lembrou-me algumas vezes o género de Paul Auster. Não gosto de comparações mas lembrou. E deu-me vontade de agarrar um livro de Paul Auster e ler como se não houvesse amanhã. E claro, mais um de José Couto Nogueira, pena serem poucos e estarem em vias de extinção (os mais antigos), mas não adianta discutir aqui as políticas editoriais portuguesas. Um autor que, editado noutro país, teria decerto um reconhecimento diferente.

Procurem, sejam persistentes e leiam. Vale muito a pena descobrir.

Sinopse

“O herói deste romance é a cidade de Nova Iorque.

Metrópole eclética e abrangente, personagem em cujas veias correm 10 milhões de pessoas, a cidade oferece as histórias mais variadas, os habitantes mais surpreendentes.

O narrador, um motorista de táxi que sabe observar e prefere não se envolver, percorre vertiginosamente as noites da cidade, ao sabor dos acontecimentos, enquanto toma nota das teorias e das elucubrações que justificam ou desculpam as muitas peripécias que vai vivendo.

Escrito numa linguagem cinematográfica, firme, segura como um documentário simultaneamente realista e poético, Táxi é a viagem em tempo real pelos sonhos e realidades de uma sociedade que se procura.”

Publicações Dom Quixote, 2001

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