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planetamarcia

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Outubro 17, 2012

Verão sem Homens - Siri Hustvedt - Opinião

Eu acho que nunca tinha lido um livro sem capítulos. Pelo menos não me lembro de nenhum. Ou melhor, de mais nenhum além deste “Verão sem homens”.

Apesar de não ter a habitual separação de capítulos, tem frequentes pausas entre os excertos de texto. Não é assustador e muito menos maçador. É talvez uma forma diferente de estruturar um texto. Achei curioso e interessante.

Um livro acima de tudo reflexivo e introspetivo. Mia, uma espécie de heroína dos tempos atuais, expõe a sua vida e os seus dramas pessoais de forma bastante direta. Sem rodeios conta o sofrimento de ser abandonada pelo marido, a forma como esse afastamento a fez entrar em crise, e chegar a ser internada. Mia luta contra esta desilusão com a ajuda da sua psiquiatra, e procura um certo aconchego junto da mãe. Muda de cidade, faz uma espécie de regresso às origens, e curiosamente o seu dia-a-dia passa a ser rodeado de mulheres: a mãe e as suas amigas, algumas adolescentes a quem começa a dar aulas de poesia, uma vizinha maltratada pelo marido.

Desta forma Mia estreita relações com mulheres, envolve-se nas suas vidas e medita sobre elas. Por vezes é quase um ensaio da realidade feminina. Talvez esta seja uma forma de superar a sua crise pessoal, na medida em que, ao mesmo tempo que desabafa, explora as suas mágoas e tenta ultrapassar a sua própria tristeza.

Escrito na primeira pessoa, é um desafio ao leitor, a quem a autora chega a dirigir-se de forma muito direta. Em determinado ponto, sensivelmente a meio do livro, chega a agradecer ao leitor por permanecer ali.

“Mas antes de lá chegar, quero dizer-lhe, Gentil Pessoa, que se ainda está comigo agora, na página, quero dizer, que se chegou até este parágrafo, se não desistiu e não me atirou a mim, a Mia, para o outro lado da sala, ou mesmo se o fez e então se pôs a pensar que talvez alguma coisa acontecesse em breve e me foi buscar outra vez e continua a ler, então quero estender os braços para si e segurar-lhe a cara com ambas as mãos e cobri-la de beijos, beijos nas suas faces e queixo e em toda a testa e na cana do seu nariz (seja qual for o formato), porque sou toda sua, toda sua. Só queria que soubesse.” (pág. 106)

Como se fosse difícil “ouvir” Mia na exorcização dos seus demónios. Garanto que não é. É um prazer conhecê-la pois é um prazer ler um livro bem escrito, bem estruturado e até com uma certa musicalidade. Não só pelo percurso de Mia e pela sua forma de, dia-a-dia enfrentar as mudanças da sua vida, mas principalmente pelo modo envolvente e brilhante como está escrito. Um livro que me lembrou, a cada página, que o prazer de ler está diretamente relacionado com o prazer que se teve ao escrevê-lo. E isso nota-se. Nota-se que Siri tem talento e gosto, que a mensagem passa para o lado de cá de uma forma natural e bela, sem esforço.

Descobri Siri Hustvedt, uma escritora talentosa, que apesar de ser casada com Paul Auster, com toda a responsabilidade que isso possa acarretar, tem o seu próprio espaço e estilo. Gostei particularmente de um pequeno apontamento subtil em que se refere claramente ao marido:

“Correlação não é causa. É apenas a “música do acaso”, como escreveu um proeminente romancista americano.” (pág. 161)

Convido a ler outros excertos. Apenas uma pequena parte de trechos maravilhosos que escolhi e publiquei aqui e aqui.

Mas o melhor é mesmo ler o livro. Todo.

Sinopse

“Há tragédias e há comédias, não é verdade? E são frequentemente semelhantes, um pouco como os homens e as mulheres. Uma comédia depende de parar a história exactamente no momento certo.
Esta é a voz de Mia Fredrickson, a viperina e trágico-cómica narradora de Verão Sem Homens.
Mia é obrigada a examinar a sua vida no dia em que, sem pré-aviso e depois de trinta anos de casamento, o seu marido lhe pede "um tempo". Após um período de internamento num hospital psiquiátrico, ela decide passar o Verão na sua cidade natal, onde a mãe vive num lar de idosos. Sozinha em casa, Mia entrega-se à fúria e à autocomiseração. Mas, lenta e ardilosamente, a pequena comunidade rural insinua-se na sua esfera pessoal. Os "Cinco Cisnes" - um surpreendente grupo constituído pela sua mãe e as amigas -, a jovem vizinha, as adolescentes que frequentam o seu workshop de poesia… uma multiplicidade de vozes, vulnerabilidades, pequenas tiranias e desafios que resultarão na mais improvável das relações.”

D. Quixote, 2012