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planetamarcia

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Setembro 23, 2012

As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia - Miguel Real - Opinião

Um livro que adorei ler. Tão bem escrito que me dá medo escrever seja o que for pois acho que nunca conseguirei fazer justiça ao seu brilhantismo.

Único livro que li de Miguel Real, situação que terei de inverter rapidamente, pois fiquei tão encantada com a forma de escrever do autor, que terei de conhecer mais da sua obra. Para já muito tentada por “Memórias de Branca Dias”, “A Guerra dos Mascates” e “O Último Negreiro”.

A Rainha D. Amélia é uma figura histórica que me interessa. Poder “entrar” na sua vida e nos seus pensamentos foi magnífico. Conhecer uma mulher que já considerava extraordinária, à frente do seu tempo, com ideias inovadoras e uma vontade enorme de fazer crescer e desenvolver o nosso país. Ao mesmo tempo uma mulher triste, perseguida pelas fatalidades, que o passar dos anos inevitavelmente magoou e amargurou. Mesmo assim, já no fim da vida, completamente despojada de tudo e todos que mais amava, continuava a observar a vida com uma lucidez impressionante.

Não me vou alongar em pormenores históricos facilmente confirmados em qualquer pesquisa, não interessa perder-me em referências a datas ou acontecimentos. Interessa a mulher visionária e determinada que D. Amélia foi.

Das descrições mais interessantes deste livro destaco as feitas em relação ao povo português. Extremamente observadora e crítica, D. Amélia tece considerações sobre o aspeto, modo de vida, hábitos e mentalidade dos portugueses. Muitas vezes dei por mim a concordar com as suas opiniões, infelizmente em questões mais depreciativas, na medida em que, no geral, muitas coisas erradas se mantêm iguais.

Fica a sua determinação em tirar o povo da pobreza e minimizar as doenças, implementar condições de higiene de modo a evitar as epidemias.

Um exemplo de tolerância, humanidade e classe; mesmo depois do sofrimento causado pela morte dos que mais amava, continua a ter uma pequena palavra em defesa do povo português, por quem considera que quis fazer muito. No meio de descrições depreciativas nota-se que não considera que seja o povo o verdadeiro causador do seu infortúnio e dor.

“… mais de 80% de Portugal permanece analfabeto e pobre, vive como os animais, com os quais comunga a comida e o sono, encharcado em álcool e em religião (…) o povo continua lerdo como um lagarto gordo, carnudo de sebo como um sapo, imóvel como uma galinha (…) eu desculpava este povo que também era meu, assim o ensinaram a sobreviver, nunca o dinheiro vindo dos banqueiros europeus lhe tocou, dispersou-se entre as cliques dos partidos, a elite dos patrões cominados com os políticos porosos como melancias, melancias podres (…) todos em casa a tremer a rabeira, abandonam o rei à sua sorte, os que tinham pouco querem mais, são os que nos expulsam, às duas rainhas de Portugal, não os que nada têm, esses são o rebotalho, a enxúndia, a ralé, a gentalha, a populaça, a turba, a horda, a plebe, a chusma, a caterva, a arraia-miúda, o populacho, enfim, o povo que enche os comícios, marcha nas manifestações e morre na rua pelos poderosos de cada momento.” (pág.203)

De referir ainda a forma como as memórias estão organizadas, por meses do ano, começando na Primavera  e fazendo uma caminhada até ao Inverno, como a celebrar uma vida promissora e cheia de esperança que vai perdendo folhas até ao gélido Inverno da vida.

Achei o início do livro simplesmente brilhante. A forma como estas memórias chegaram até ao autor e, consequentemente, até nós leitores. Prefiro não acrescentar mais nada. É um livro de descoberta e análise. Meditação sobre o passado e acerca de onde queremos estar no futuro. Um resumo lúcido de um país e de um povo que poderia ser mais, muito mais e muito melhor.

Sinopse

"Furtado do espólio de Salazar aquando da invasão dos seus antigos aposentos no dia 25 de Abril de 1974, o manuscrito "As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia", escrito nos últimos anos de vida e doado pela própria à Casa de Bragança, em Lisboa, através da mão do chefe do Estado Novo, foi recuperado em Sófia, na Bulgária, na Comemoração do Centenário da República, por Miguel Real, que foi incumbido de o depositar na Torre do Tombo, já o tendo feito. Neste manuscrito, a Rainha D. Amélia retrata a sua vida em doze pequenos capítulos, equivalente a um por cada mês do ano, organizados em quatro grandes partes, seguindo o ritmo das estações, da Primavera, na infância, ao Inverno triste da sua velhice. Um documento pungente, doloroso e comovente, fortemente crítico de Portugal e dos Portugueses, permanentemente iludidos pelas artimanhas de elites ineptas e ignorantes."

D. Quixote, 2011

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