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planetamarcia

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Setembro 21, 2012

O Mundo Invisível - Shamin Sarif - Opinião

“O Mundo Invisível” estava na minha lista desde que foi editado (2009), e na minha estante desde Maio deste ano. Quando saiu para o mercado encontrou algum sucesso devido a comentários e críticas positivas, mas a verdade é que é mais um livro a padecer do drama do esquecimento, fruto da grande oferta de livros que, semanalmente os leitores têm à disposição.

Seja como for, e porque além de ler muitas novidades, gosto de cumprir e manter todos os livros que me vão interessando num certo caderninho de desejos literários, “O Mundo Invisível” teve, obviamente, o seu lugar nas minhas leituras.

E que leitura fantástica foi. Um dos melhores livros que tenho lido. A ação decorre na África do Sul no início dos anos 50, numa época que considero socialmente doente. O Apartheid foi muito para além do racismo, colocou completamente à parte todos os que não eram brancos, praticamente ilegalizou a existência de outras etnias, impedindo-as de conviver, ou sequer partilhar o mesmo espaço com brancos.

A autora não se perde demasiado em descrições sociais ou em manifestar opiniões políticas. É uma narradora, e uma excelente narradora, uma contadora de histórias que fala sobre o amor que pode nascer num clima de ódio e perseguição constante. Curiosamente esta história decorre no seio da população Indiana que vive na zona de Pretória, os seus hábitos, costumes e histórias de família. Percursos de emigração e busca de melhores condições de vida de um país castrador e limitador como é a Índia (principalmente para as mulheres),para um outro pejado de leis e regras sociais atrozes.

Na Índia os direitos da mulher eram (são?) inexistentes, e esta tradição mantém-se nestas famílias Indianas que vamos conhecendo. É como se as mulheres vivessem sempre dentro do casulo das regras familiares impostas pelos homens e pelas mulheres mais velhas, e depois tivessem ainda uma espécie de casca difícil de quebrar das regras do Apartheid.

Não poder estar junto de quem amamos é duro, mas não o poder fazer por ser ilegal e chegar a implicar perseguição policial é violento.

“O Mundo Invisível” conta várias histórias de amor, mas a mais tocante (e principal) é a que une Amina e Miriam, duas mulheres indianas a viver na África do Sul. Um amor bonito que surge naturalmente. Miriam é casada dentro das “regras” do casamento indiano. Não conheceu o amor, o marido quis casar com ela depois de a ter visto algumas vezes numa janela. Amina é uma força da natureza. Mais jovem, destemida, trabalha por conta própria, algo impensável para uma mulher Indiana, cujo objetivo de vida deverá ser fazer um bom casamento, aqui entenda-se como bom casamento aquele que agrada à família, subjugar-se para o resto da vida às vontades do marido e da família deste.

Infeliz, Miriam admira a independência de Amina. A sua forma que quebrar convenções que Miriam nunca colocou sequer em causa. Miriam vai acordando de um sono mau, de uma dormência triste para sensações de felicidade e prazer.

Uma história de amor que não pode ser, numa sociedade que nunca deveria ter existido, “O Mundo Invisível” não se vê mas sente-se, e acorda para a vida uma mulher adormecida pela tristeza.

Recomendo e classifico de imperdível. Um livro que faz pensar sobre a sociedade, a humanidade (ou falta dela), sobre a forma como as regras moldam e transformam as pessoas em monstros, como tudo seria diferente se as mesmas pessoas habitassem diferentes locais. Introspetivo e muito pessoal, na medida em que é um livro a ser interpretado à medida das ideias (ou falta delas) de cada um. Muto bom.

Sinopse

“África do Sul. 1950. As primeiras leis raciais do apartheid começam a ser implementadas. Amina é uma jovem de espírito livre que desafiou as convenções da comunidade indiana em que cresceu e decidiu trabalhar por conta própria. É dona de um café, um sítio cheio de boa disposição, música, comida caseira… e mistura de raças. O seu sócio é negro, a sua empregada é mestiça, a clientela é de todas as cores e feitios - e Amina tem muitas vezes de subornar a polícia para conseguir manter o café aberto.
Miriam é uma jovem indiana mãe de família, tradicional e subserviente. O seu casamento foi combinado pela família e ela faz todos os possíveis para manter um bom ambiente em sua casa - apesar dos acessos de raiva do marido.
Quando estas duas mulheres se conhecem, o encontro entre os seus dois mundos vai transformar as suas vidas…”

Contraponto, 2009