Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

planetamarcia

planetamarcia

Julho 22, 2012

A Arca - Victoria Hislop - Opinião

Victoria Hislop é uma exímia contadora de histórias, já o sabia desde que li “A Ilha”, romance belíssimo que me marcou e encantou.

“A Arca” segue a linha da construção de um romance interessante e muito cativante, com uma forte componente histórica, na qual se enquadram os percursos das personagens. Por vezes, mais do que a história das personagens, “A Arca” é a história de uma cidade: Tessalonica é, no decorrer de 90 anos, o palco de encontros e desencontros, catástrofes naturais, guerras, viagens e da busca constante do que realmente importa.

Maravilhou-me, confesso. No decorrer desta leitura senti que fazia parte de toda esta ação. Acho mesmo que supera “A Ilha”, que tinha colocado a fasquia muito alta antes de ler este livro. Interessam-me muito os relatos acerca da II Guerra Mundial, as descrições das perseguições ao povo Judeu e o horror vivido consequência do extermínio. Nunca tinha lido nada sobre a ocupação da Grécia pelos nazis, portanto ficar a conhecer esta vertente histórica foi para mim muito compensador. Mas no decorrer de 90 anos muita coisa acontece, e apesar da fase da ocupação Alemã ter sido a mais marcante, A Grécia já tinha vivido situações de guerras e dificuldades antes disso. Não se poderá falar numa perseguição tão feroz como a que foi feita aos Judeus, mas “a troca” de habitantes que se verificou entre Cristãos e Muçulmanos, obrigando a uma ocupação diferente da Grécia e da Ásia Menor, já tinha provocado, anos antes, o primeiro colapso entre povos que habitavam em harmonia a mesma cidade, apesar das suas distintas opções religiosas.

Em tempos, Tessalonica foi habitada por Cristãos, Muçulmanos e Judeus. Interessante a forma como a autora descreve o dia-a-dia de famílias de origens tão diferentes que vivem e criam laços de amizade sem nunca se deixarem perturbar pelas suas diferenças. A verdade é que a separação é orientada sempre por motivos sociopolíticos, que obrigam ao afastamento definitivo de pessoas que viviam quase como família, que em algumas situações dependiam uns dos outros por motivos profissionais; no fundo demonstra que o preconceito e o racismo estiveram sempre na base de decisões que arrasaram por diversas vezes a cidade. Pois, apesar das catástrofes descritas, como o incêndio logo no início, foi possivelmente a desertificação provocada pelos sucessivos abandonos (forçados) da grande massa dos seus habitantes, que vieram a provocar o caos social e económico, os anos de extremas dificuldades, a fome.

Sabemos desde o início que Katerina e Dimitri são o par romântico desta narrativa, na medida em que tudo começa em 2007, quando ambos começam a contar o seu percurso ao neto. Pelo que, acompanhei todo o livro expectante por saber como acabariam por ficar juntos, dado todos os acontecimentos e infortúnios, não só políticos como também familiares. De origens muito diferentes, Dimitri nasceu e cresceu com uma situação económica muito confortável, ao contrário de Katerina que chegou a Tessalonica perdida da família, num dos barcos do que pode ser chamado de “êxodo social forçado” que já referi.

Adorei acompanhar o crescimento, não só de Katerina e Dimitri, mas também das outras crianças suas amigas. Num cenário multicultural sustentado pela verdadeira amizade, pude constatar como o ser humano pode enriquecer se não se deixar levar por teorias preconceituosas ocas, e como tem a ganhar de desejar aprender, se quiser construir pontes em vez de muros. Dei por mim tantas vezes a pensar como os mais sérios problemas do mundo têm na sua base a mesquinhez e tacanhez humana.

O símbolo da superioridade que o ser humano pode alcançar é, neste caso, a arca. Um objeto que guarda ao longo dos anos o que restou dos tempos verdadeiramente felizes destas pessoas, e cujos guardiães, movidos pela nobreza da amizade, desejam um dia entregar aos seus justos donos.

Impossível citar todos os pormenores fantásticos que, conjugados, fazem de “A Arca” uma leitura tão completa. Gostei da sensação que Katerina transmite quando está trabalhar. É algo que sinto que deixámos de procurar, retirar prazer de aprender um ofício e desempenhá-lo cada vez melhor. Com um talento inato para a costura e bordados, Katerina é verdadeiramente feliz no seu trabalho, rapidamente se torna a melhor “modistra” da cidade. O reconhecimento aliado à vontade que ela tem de ser sempre melhor é algo reconfortante e que pode levar-nos a meditações sobre a melhor forma de ocupar o nosso tempo, e de investirmos em nós próprios. O gosto aliado à perfeição do trabalho; o esforço aliado ao sucesso.

Por outro lado Dimitri passa a quase todos os anos ausente, fugido. Desde cedo com ideais radicalmente opostos ao do seu pai, com uma mãe submissa no casamento, Dimitri vai em busca daquilo em que acredita, sempre com um conceito muito definido de justiça e pátria. O que faz é pelo seu país, mas acaba por se ver encurralado pelas suas próprias ações nobres dada a instabilidade política e constantes mudanças de regime.

Hislop oferece uma leitura constante e consistente, continuamente interessante. Não há uma única página maçadora, são 400 páginas de uma conjugação equilibrada e brilhante de Romance e História. “A Arca” fica com o leitor muito depois de se fechar a última página. Eu tenho a certeza que vai ser assim comigo.

Recomendado sem qualquer reserva.

Sinopse

“Tessalonica, 1917. No dia em que Dimitri Komninos nasce, um incêndio devastador varre a próspera cidade grega, onde cristãos, judeus e muçulmanos vivem lado a lado. Cinco anos mais tarde, a casa de Katerina Sarafoglou na Ásia Menor é destruída pelo exército turco. No meio do caos, Katerina perde a mãe e embarca para um destino desconhecido na Grécia. Não tarda muito para que a sua vida se entrelace com a de Dimitri e com a história da própria cidade, enquanto guerras, medos e perseguições começam a dividir o seu povo. Tessalonica, 2007. Um jovem anglo-grego ouve a história de vida dos seus avós e, pela primeira vez, apercebe-se de que tem uma decisão a tomar. Durante muitas décadas, os seus avós foram os guardiões das memórias e dos tesouros das pessoas que foram forçadas a abandonar a cidade. Será que está na altura de ele assumir esse papel e fazer daquela cidade a sua casa?”

Civilização Editora, 2012