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planetamarcia

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Julho 04, 2012

O Vendedor de Passados - José Eduardo Agualusa - Opinião

 

Li este livro no Domingo. Sim, um dia foi suficiente. Não é muito grande e estive sempre a ler até terminar. Gostei muito. Gostei da forma como, mais uma vez, José Eduardo Agualusa me levou pela sua bela conjugação de palavras, por frases tão lindas que me dão vontade de voltar atrás e reler.

“O Vendedor de Passados” é um livro inesperado. Pelo menos eu achei muitas vezes surpreendente. Escondem-se sempre tantas coisas por detrás do fio da história, há sempre mais qualquer coisa em cada observação, em cada descrição.

Depois de ler a sinopse esperava algo diferente e objetivo, mas não, deparei-me com um livro em que o narrador é uma osga que noutra vida assumiu a forma humana. Este pequeno animal é um observador nato e um sonhador; coleciona recordações e conquistou-me com o seu amor aos livros.

É através da osga, ou melhor, de Eulálio que conhecemos Félix Barata e a sua atividade de vender passados. Na verdade Félix é alfarrabista, ou melhor, filho de um alfarrabista, e com a sua vasta coleção de livros e informação, constrói vidas, persegue pistas e rastos.

Eulálio está sempre num local estratégico para visualizar os visitantes/clientes e fazer a sua análise dos mesmos. Há quem queira um passado ilustre, reconstruir uma árvore genealógica mais de acordo com uma nova condição política ou social. Acontecem divertidas curiosidades, desde um filho que decide procurar a sua “nova mãe” desaparecida, de tal forma se envolve na família que Félix lhe atribui.

Eulálio dá-nos também conta dos amores de Félix, dos seus gostos e paixões. Tudo sabemos através deste pequeno observador que, pelo meio, nos vai dando também um pouco de si.

O melhor é mesmo a escrita belíssima e envolvente que mais uma vez me maravilhou. Achei que há uma espécie de cor e musicalidade muito próprias na escrita de Agualusa, transmite uma sensação positiva que me faz sentir muito bem.

Fez-me sonhar com livros. Fez-me pensar em cartas e em como agora se perdeu o hábito de as escrever e enviar, como já não há o cuidado em escrever que em tempos se tinha. Pequenas coisas aqui e ali que guardo como uma espécie de coleção de pedacinhos de felicidade. E foi isso mesmo que este livro me transmitiu, felicidade. Porque a felicidade está nas pequenas coisas, naquelas que nos obrigam a sorrir assim que pensamos nelas. Assim foi.

Sinopse

“"Félix Ventura. Assegure aos seus filhos um passado melhor". É a partir deste cartão-de-visita que se desenrolam os capítulos de "O Vendedor de Passados", novo romance de José Eduardo Agualusa. A mentira e a verdade, o(s) homem(s) e o(s) seu(s) duplo(s), a memória e a memória da memória, a ficção e a realidade. Angola ("é importante ironizar com a sociedade angolana, que é uma sociedade que se construiu e se continua a construir assente em muitas ficções" - o autor ao Público, 19/06/04). Tudo poderia acontecer. Tudo poderia ter acontecido. (Susana Moreira Marques, Público, Mil Folhas: "A determinada altura a osga recorda a mãe num momento da sua vida passada: 'Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros' (p. 122). José Eduardo Agualusa provavelmente escolhe a vida.") Isto é: os livros?”

D.Quixote, 2008

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