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planetamarcia

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Maio 20, 2012

A Mulher-Casa - Tânia Ganho - Opinião

 

Uma semana após a conclusão da leitura deste livro começo a escrever as primeiras linhas sobre ele, na esperança de conseguir fazer justiça ao talento e criatividade da autora.

Este é, quanto a mim, um salto qualitativo enorme desde o romance anterior de Tânia Ganho, “A Lucidez do Amor”, quer a nível de estrutura, construção, descrições, riqueza de vocabulário, e principalmente da forma como me permitiu a visualização de todos os pormenores, os criados pela autora e aqueles que fui criando também através desta escrita sedutora e rica.

Tânia colocou muito de si neste livro e isso nota-se, nota-se quando um livro é escrito com empenho e dedicação, quando um escritor o vive, come, dorme, acorda ao ritmo da história que vai criando. O resultado é este, um livro onde se deteta facilmente a classe de Tânia, o seu conhecimento cultural profundo e pouco comum em pessoas da sua geração no nosso país e, acima de tudo, a influência das viagens na sua vida e a vontade de conhecer e saber sempre mais.

Eu conheço a Tânia, confesso. Esperava este livro já há muito tempo e acho que o facto de agora a conhecer me dificulta a escrita deste simples texto, pois não quero influenciar-me pela pessoa que fui conhecendo. Ao mesmo tempo sei que a pessoa que ela é explica muito deste livro. Então estou dividida; por um lado preocupada em revelar demasiado sobre a autora, por outro temo só falar bem de um livro em que não encontrei defeitos. Mas o que é certo é que não encontrei.

Num mundo literário perfeito, se existisse, acho que este livro mudaria completamente a vida da autora e a forma como os leitores encaram a chamada “Literatura Feminina”. Eu detesto rótulos e nem sei bem o que isso é, mas parece-me que é vista como livros escritos por mulheres para serem lidos por mulheres, enfim, para as tontinhas das mulheres passarem uns bons momentos, chorarem um bocadito com histórias de amor rebuscadas, e deliciarem-se com o final esperado e feliz.

“A Mulher-Casa” não é nada disto. Mata este conceito e ainda bem. No nosso mundo literário podia ter sido escrito por um homem. Triste pensamento, não? Mas foi escrito por uma mulher. Uma mulher que escreve sobre sexo e o descreve com a crueza que ele tem na nossa vida, com detalhes e pormenores, que escreve sobre os sentimentos sem receios, que revela as dúvidas, os medos, os anseios de Mara, a personagem que tanto me encantou como me suscitou ódio. A Tânia o mérito de não me deixar indiferente, e de ter escrito um livro que me marcou e vai ficar em mim ainda por muito tempo. Isso é o mais importante pois, de todos os livros que são lidos, sabemos que uma pequena parte permanece e fica em nós. E ainda bem, caso contrário seria muito duro conviver com tantas vidas e tantas personagens na cabeça.

Mara vai ficar comigo ainda algum tempo, eu acho. Principalmente porque não a quero deixar ir, não já; ainda quero andar uns tempos a irritar-me com a forma tonta como ela encara a vida, uma princesinha a quem não falta nada mas se queixa de tudo. Por outro lado quero fomentar também a solidariedade pela sua vida solitária de mãe que passa o dia inteiro com um filho pequeno, colocando a sua carreira de lado enquanto o marido, Thomas, investe numa carreira política de sucesso. Mas quando Mara se envolve com um cozinheiro? Sendo uma mãe de família? Como posso não a odiar?

Conflito, conflito, conflito. Sempre o conflito a cada página que avançava. Li devagar. Coisa pouco comum em mim, mas apeteceu-me “ver” este livro com calma, senti que não se lê como um filme mas antes se observa como um álbum de fotos, ou como uma exposição de pintura num museu, tela a tela.

Mara é dúvida. Ela própria não sabe que rumo tomar, o que quer da vida. Analisa o mundo a partir do seu pedestal e é curioso como uma visão assim pode ser facilmente deturpada, é como se vivesse numa gaiola de ouro, não está presa mas não quer sair, que fugir mas não quer decidir. Quer ser independente mas não arrisca, vive uma vida de medos, desejando que as decisões surjam não se sabe de onde, é fatalista mas fantasiosa, vive à espera.

Os pormenores do seu casamento chegam-nos através da sua visão. Pensei muitas vezes se a sua visão seria real, se a forma como criticava o marido não seria fruto de ela própria ter colocado a sua atividade como criativa de chapéus de parte, quando se mudaram para Paris. Thomas tudo faz pelo seu trabalho, mas será isso tão errado e justificará todas as dúvidas que assolam a mente de Mara? Atualmente é normal ter empregos exigentes e lutar para os manter, mas Mara prefere fantasiar sobre as horas que Thomas passa fora de casa, talvez como desculpa para se entregar nos braços de Matthéo, naquilo que ela acha que pode ser uma opção de felicidade.

Receio estar a ser demasiado injusta com Mara, mas são de facto muito contraditórias as sensações que me suscita. Tudo tem uma razão de ser e, claro, Mara tem motivos para ser assim. Mas essa é a descoberta da leitura deste livro, conhecer a decisão final de uma mulher que evolui e cresce nas páginas deste livro.

Não há literatura feminina ou masculina. Há boa literatura, há bons livros e bons autores. “A Mulher-Casa” demonstra isso mesmo.

Altamente recomendado!

Sinopse

“Ela é uma modista de chapéus pouco conhecida; ele, um ghostwriter de políticos menores e personalidades duvidosas. Quando trocam a pacata Aix-en-Provence pela imponente Paris, levam consigo toda uma bagagem de sonhos e promessas de glamour. Porém, o crescente sucesso profissional do marido depressa reduz Mara ao papel de mãe e dona de casa, arrastando-a para um abismo de solidão e desencanto.

É então que se envolve com Matthéo, um jovem chef mais novo do que ela, e de súbito se vê enredada numa espiral de sentimentos contraditórios onde a lealdade, a luxúria e o dever encerram as agonizantes perguntas: poderá uma adúltera ser uma boa mãe? Poderá ela esperar que este amor proibido a salve de si mesma e da sua falta de fé?”

Porto Editora, 2012

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