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planetamarcia

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Maio 20, 2012

Teoria Geral do Esquecimento - José Eduardo Agualusa - Opinião

 

Leitura terminada hoje. Sensação de ter tido nas mãos um livro que é precioso, que transmite alegria misturada com dor mas que me deixou cheia de fé e esperança. Maravilhoso!

Leitura feliz. É a forma melhor que tenho de me referir a “Teoria Geral do Esquecimento”. Pergunto-me como pude nunca ter lido nada de Agualusa,
e só agora, depois de tantos livros editados me estrear nesta escrita colorida, alegre e musical como imagino que seja África.

Magia e mistério a cada página, uma história contada a um ritmo próprio, quando menos esperava surgia a explicação para o que tinha acontecido; os porquês do que se lê antes são apresentados depois. Curiosa esta forma de narrar, tão particular e estranha, difícil para mim de explicar, pode parecer confuso, mas curiosamente faz sentido. Não me perdi no meio das personagens e dos acontecimentos e, à medida que a leitura avançava, todas as pecinhas foram encaixando. É engraçado pois há respostas para dúvidas que nem cheguei a ter, situações em que só pensei a sério depois do cenário completo, de entender os motivos, a estranheza de algumas atitudes. Fica a certeza que nada acontece ao acaso, a vida tem um motivo e um curso. Ideia interessante para uma pessoa de fraca fé nestas coisas dos destinos e afins, como eu.

Ludovica é uma mulher muito particular. Portuguesa, a viver em Angola quando se dá a independência, vê-se sozinha sem saber o que aconteceu à irmã e ao cunhado, com quem vive. Ludo (como é tratada) isola-se.
Ergue uma parede que a mantém fechada em casa durante 30 anos. Curiosamente não isolada do mundo na totalidade, além de ir interpretando à sua maneira o que avista pelas janelas e terraço da casa, o mundo também lhe vai entrando pela casa dentro na forma de acontecimentos especiais e aparentemente inusitados.

Ludo conhece a dor, a fome, a doença, a solidão, o medo. Mas conhece também a amizade, o valor de ter amigos, família, aprende a deixar
entrar pessoas na sua vida. Compreendemos, a seu tempo, as razões de Ludo. Ludo compreende, também com tempo, que a vida é para ser vivida, que cada dia é uma surpresa, que a felicidade só existe porque conhecemos também a tristeza.

Tive sempre uma sensação positiva ao longo de todo o livro, apesar dos muitos relatos de vidas menos felizes. Deve ser um dom, o dom de escrever cada linha e sair uma surpresa, o dom da imaginação e de chegar a quem lê arrancando um sorriso das situações mais inesperadas e por vezes de verdadeira miséria. Tratar os conflitos com alguma ironia, descrever a situação política sem os dramas do costume, resumir tudo às pessoas, à vida, ao sol que vai voltar sempre a nascer. Esperança, felicidade nas pequenas coisas, valores positivos que se revelam no meio do ódio, das guerras, dos crimes.

Tudo neste livro me deu a sensação de revelação, de descoberta, por vezes de paz e bem-estar. Recomendo muito, sem qualquer reserva. Quero descobrir mais livros de Agualusa e apagar a sensação com que fiquei (a única menos positiva) de o ter descoberto um bocadito tarde.

“A minha família é esse menino, a mulemba lá fora, o fantasma de um cão. Vejo cada vez pior. Um oftalmologista, amigo do meu vizinho, esteve aqui em casa a observar-me. Disse-me que nunca perderei a vista por completo. Resta-me a visão periférica. Hei de sempre distinguir a luz, e a luz neste país é uma festa. Em todo o caso não pretendo mais: a luz, Sabalu a ler para mim, e a alegria de uma romã todos os dias.“ (pág. 208)

“Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas foram suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu. Ludo acreditava nisto. Ou gostaria de acreditar. Foi o que disse a Sabalu:

Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros” (pág.215)

“Não se atormente mais. Os erros nos corrigem. Talvez seja melhor esquecer. Devíamos praticar o esquecimento.” (pág. 221)

Sinopse

“Luanda, 1975, véspera da Independência. Uma mulher portuguesa, aterrorizada com a evolução dos acontecimentos, ergue uma parede separando o
seu apartamento do restante edifício - do resto do mundo. Durante quase trinta anos sobreviverá a custo, como uma náufraga numa ilha deserta, vendo, em redor, Luanda crescer, exultar, sofrer. Teoria Geral do Esquecimento é um romance sobre o medo do outro, o absurdo do racismo e da xenofobia, sobre o amor e a redenção.”

D. Quixote, 2012

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