Terça-feira, 1 de Maio de 2012

O Teu Rosto Será o Último - João Ricardo Pedro - Opinião

 

Este livro é nosso, no sentido de ser português. Foi escrito por um talentoso observador, um colecionador de memórias, até um ladrão de situações. João Ricardo Pedro é um “Escritor-Ladrão”, pela forma como absorve e rouba tudo em seu redor, desconfio que o faça desde sempre. Rouba o quotidiano, episódios banais transformados num texto perfeito. Fascinante.

Um livro fácil de ler mas do qual é difícil escrever. Fácil de ler no sentido de cativar, de se tornar cada ver melhor a cada página, de conciliar uma ironia muito particular com um sentido de humor especial, acompanhados de momentos de profunda tristeza e dor. Um livro que é um quadro: uma pincelada aqui, outra ali, que juntas fazem um conjunto que me arrebatou completamente.

É a história de uma família, enaltecida por pormenores curiosos com que todos nos identificamos mas que na realidade poucas vezes vemos nas páginas de um livro. Vão sendo narrados “pedaços de rotinas” por vezes disparatadas e cómicas, histórias dentro de histórias, como se fossem muitos livros dentro de um só.

Ri de puro prazer com as situações inesperadas, desencadeadas pelo que de mais típico caracteriza o “ser português”. Emocionei-me com a dureza das consequências da Guerra Colonial, com o peso da doença no seio de uma família, com todos os fragmentos que fui juntando até completar, à minha maneira, uma história que não tem fim no papel.

João Ricardo Pedro tem um conhecimento da nossa História recente que não é comum na sua (também minha) geração. Senti-lhe gosto pela música e prazer pela arte.

A sua forma de escrever é algo crua e muito direta, contudo flui com uma beleza muito particular. Confesso que me desagradaram os palavrões pois pessoalmente não gosto, mas tenho de admitir que lhes acabei por encontrar enquadramento. Por vezes senti que poderiam ser reveladores de alguma raiva/zanga, vontade de deitar para fora, vontade de escrever, de dar, de mostrar algo que lhe mói por dentro. Enfim, pura especulação minha.

Um livro que é Portugal. Não só Lisboa. Não só subúrbio. Não só interior lá na terra com nome de mamífero (sim fiquem curiosos e no fim pesquisem como eu fiz), um livro sem geografia nem época mas que nos conduz habilmente pelo percurso de várias personagens que se cruzam, se amam, odeiam, vivem e morrem. Tão verdadeiro como o dia-a-dia, como a vida de qualquer um de nós.

E por achar que a minha opinião não é suficiente e nunca será boa perante as marcas que este livro deixou em mim, transcrevo uns excertos, uma amostra de um livro merecedor de uma vida longa, algo raro na nossa sociedade descartável. Apelo aos leitores que lhe deem essa vida, contrariando a tendência ao esquecimento a que as coisas especiais muitas vezes se resignam.

“Mas o outro continuava a plenos pulmões: “Por isso, enquanto for novo e dinheiro não me faltar, adeusinho ò pátria lusa mais as estrofes de Camões, que só um país miserável tem um poeta zarolho como herói nacional. Estou cansado de viras e fandangos. Só me falta vender aquilo que era dos meus pais, lá no cu-de-judas, e, estando isso tratado, é apanhar o comboiozinho para a bendita Europa, que, se formos a ver, só começa em atravessando os Pirinéus.” (pág. 40)

“Dona Laura, para quem as corridas de bicicletas, a par dos homens com brincos, das televisões a cores, dos implantes mamários, das lentes progressivas, dos astronautas e do Ramalho Eanes, eram augúrios de apocalipses, depois de uma manhã inteira ao espremedor e ao fogão, trancara-se no quarto a rezar para que aquilo acabasse depressa, e nem a presença do padre Alberto a demovera da clausura.

O padre Alberto, que torcia pelo Sporting com uma fé inabalável e conhecia pessoalmente as grandes glórias do clube – tinha inclusivamente uma fotografia em que aparecia abraçado ao Jesus Correia -, levantara-se ainda de noite e, com a solenidade que a liturgia exige, aspergira com água benta todo o percurso que atravessava a freguesia, desde o cemitério antigo até à fonte salgada. Um percurso repleto de curvas perigosas, descidas íngremes, bermas traiçoeiras.” (pág.50)

“Depois de um longo silêncio, o médico perguntou-lhe se, quando ouvia essas músicas tocadas por outros pianistas, experimentava a mesma sensação.

Duarte respondeu que nunca ouvia música. Não tinha discos. Não ía a concertos.

O médico perguntou-lhe se gostava de música.

Duarte não soube responder.

O médico perguntou-lhe porque começara a tocar piano.

Duarte disse: “Não fui eu que comecei a tocar piano. Foram as minhas mãos.”” (pág.112)

Sinopse

“Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?”

Abril, 2012

publicado por marcia às 19:46
link do post | comentar | favorito
10 comentários:
De carla m soares a 1 de Maio de 2012 às 20:07
Oh, Márcia, estás a ler o meu livrinho depois desta maravilha de que aqui falas, merecedora de prémios e tudo? Ohh, espero que, pelo menos, te divirtas.

Como estreante, aguardo a tua opinião com muita curiosidade.
De marcia a 1 de Maio de 2012 às 22:40
Carla, ainda vou muito no início do teu livro mas já bastante curiosa. Gostava de já ter lido mais mas hoje, apesar de feriado, não deu.
Darei notícias.
Beijinhos.
De Anónimo a 11 de Maio de 2012 às 00:46
Márcia, a sua leitura foi partilhada. Obrigado pelo destaque crítico.
https://www.facebook.com/premioleya
De marcia a 11 de Maio de 2012 às 02:17
Obrigada eu, por me mencionarem.
De numadeletra a 25 de Junho de 2012 às 13:49
Acabei-o ontem e já publiquei a minha opinião.
Um livro imperdível!
De marcia a 26 de Junho de 2012 às 02:11
Muito boa a opinião!
De numadeletra a 26 de Junho de 2012 às 12:09
Bom que gostaste
De Maria da Graça a 3 de Novembro de 2013 às 23:01
Vou começar a ler "O Teu rosto Será o último".

A analise /critica que apresenta deixou-me com água na boca.

Parabéns, pelo modo, como escreve.

Graça
De marcia a 3 de Novembro de 2013 às 23:22
Muito obrigada Maria da Graça. Espero que goste.
De José Moura Pereira a 7 de Janeiro de 2018 às 12:04
Acabo de ler o livro e gostei muito.
Pode não ser de importância vital, mas, quem matou afinal o homem do olho de vidro?
Fiquei com a sensação de que poderá ter sido morto por qualquer um dos outros personagens.
Por vezes sinto que ficou a porta aberta para a sequela...
Pode-me ajudar?

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.a ler


.a ler também


.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Os Loucos da Rua Mazur, d...

. Livros ao preço de postai...

. Uma Coluna de Fogo - Ken ...

. Os Loucos da Rua Mazur, d...

. Lançamento da Antologia d...

. Escritaria em Penafiel 20...

. Escritaria em Penafiel 20...

. Escritaria em Penafiel 20...

. Escritaria em Penafiel 20...

. Escritaria em Penafiel 20...

.últ. comentários

Eu li "Livro" no ano passado exatamente para o COn...
Tenho o livro e é excelente as letras são boas est...
Encontrei escrito em português de Portugal, foi tr...
Acabo de ler o livro e gostei muito. Pode não ser ...
Li A Oeste Nada de Novo, era jovem. Tema interessa...
Quero! MUITO!!!
Também acho!
Demasiadas páginas que voam...
Interessante cou ler também.
Nunca cheguei a ler OS Pilares da Terra, mas vi a ...

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Setembro 2007

blogs SAPO

.subscrever feeds