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planetamarcia

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Janeiro 22, 2012

Homem na Escuridão - Paul Auster - Opinião

 

Há uns anos que não lia nada de Paul Auster. Este ano o Natal trouxe-me dois livros do autor, decidi-me por este “Homem na Escuridão” num impulso…abri a primeira página… e foi até ao fim.

Fico sempre surpreendida com a capacidade do autor em transmitir tantas coisas em livros tão pequenos, dá aquela sensação de leitura perfeita (se é que isso existe), todas as palavrinhas estão no sítio certo, a fazer todo o sentido, apesar do seu estilo muito próprio e até surreal.

Não é fácil comentar um livro destes. Facilmente me ocorrem expressões como “gostei muito”, “interessante”, “curioso”, “intrigante”, “brilhante”, mas custa-me unir ideias e concretizar uma reflexão. Senti tantas coisas diferentes ao ler este livro, esta história triste de um homem de 70 anos, viúvo, doente que, nas noites de insónia (todas) imagina e inventa histórias, ficção para terminar a própria vida.

Não é um livro deprimente. O início é bastante surreal e o desenvolvimento é de uma humanidade estonteante. É o percurso de vida de August Brill e os universos paralelos da sua imensa criatividade. August recupera de um acidente numa cama, em casa da filha divorciada, com a companhia da neta cujo namorado morreu. Três vidas de tristezas à procura de cura mas sem saberem o percurso para lá chegar, ou se querem lá chegar.

August cria uma América paralela, em guerra, em que um mercenário tem a missão de o matar e levar de vez deste mundo. Mas o livro adensa-se pela vida passada de August, pelo seu eterno amor a Sonia, extremo carinho pela filha e solidariedade pela situação de sofrimento da neta.

A dada altura torna-se uma partilha de experiências sem lapso geracional, avô e neta aproximam-se pela depressão mas descobrem o passado, a vida cheia e plena de August, os seus amores, a quantidade de relatos e coincidências estranhas (por vezes caricatas) que lhe sucederam ou de que tomou conhecimento. Um homem com uma vida mundana, por vezes boémio, que perdeu e recuperou o amor da sua vida, que teve sorte, que foi feliz e já nem se lembrava.

E de que servem as recordações quando não são mais do que isso? Quando já perdemos quem mais amamos e queremos ir embora também? Não servem de nada, só para contar como foi, o que se viveu e fazer acreditar quem sofre (neste caso a filha e a neta) de que vale a pena lutar para fora da tristeza e viver!

August achava que não tinha mais nada a fazer aqui mas eu acho que estava errado. A sabedoria e experiência dos mais velhos são (infelizmente) subvalorizadas, mas têm o poder do ensinamento e até da cura, basta ouvir, ou querer ouvir. A história de vida de August Brill é única e transbordante, por vezes comovente, outras vezes revoltante, muito caricata, mas é, acima de tudo completa. Fiquei sem saber se chegou ou não a hora de August partir, mas acho que ele prefere ficar mais uns tempos, “enquanto o bizarro mundo continua a girar” (pág.160).

Sinopse

“E se a América não estivesse em guerra com o Iraque mas consigo própria? Nesta América, as Torres Gémeas não caíram e as eleições presidenciais de 2000 conduziram à secessão, com estado após estado a abandonar a união e uma sangrenta guerra civil a instalar-se. Este mundo paralelo é criado pela mente e coração perturbados de August Brill, um crítico literário vítima de insónias. Com 72 anos, Brill está a recuperar de um acidente de viação em casa da filha, no Vermont e, para afastar recordações que preferia esquecer – a morte da mulher e o violento assassinato do namorado da neta –, conta histórias a si próprio. Gradualmente, o que Brill tenta desesperadamente impedir insiste em ser contado. Com a neta a juntar-se-lhe de madrugada, ele arranja finalmente coragem para revisitar os seus piores dramas.

Chocante e apaixonante, Homem na Escuridão é o exemplar romance do nosso tempo, um livro que nos obriga a confrontar a escuridão da noite, celebrando a existência das pequenas alegrias do dia-a-dia num mundo capaz da mais grotesca violência”.

Asa, 2008

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