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planetamarcia

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Novembro 12, 2011

O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe - Opinião

 

Há muito que queria ler algo de Valter Hugo Mãe. A sua obra tem sido bastante divulgada na comunicação social. Não sou imune ao marketing, principalmente no que refere a livros. Cativada pela ideia de um homem que aos 40 anos sonha ter um filho, decidi-me a começar pelo último, por este “Filho de mil homens”. Mesmo sentindo, através de outras opiniões, que este não seria o mais brilhante livro do autor, e que ainda por cima já tinha passado a fase das minúsculas (que raio de coisa, uma fase de minúsculas). Senti que era este o livro que queria ler. Posso reservar os tais “tsunamis literários” para depois…

Assisti a diversas entrevistas ao autor, estive presente em vários lançamentos de livros apresentados por ele. Já tinha construído uma pessoa composta de tantas coisas especiais, principalmente pelo dom de maravilhar quem o ouve. Falo de mim que ainda só o tinha ouvido, nunca lido. Valter chegou sempre até mim de uma forma tão linda e simples, que me fez sempre lembrar os meus próprios pensamentos tão inocentes e infantis de que tudo o que precisamos está no que é simples mas não se vê, só se sente.

Este livro é isso. É tudo o que nos faz feliz. Ou a forma que temos de ser felizes com o que temos mesmo pertinho e passando muitas vezes a vida sem ver, acolher e aproveitar. Por que a família é, acima do sangue, o amor. É para além de nascer, poder renascer junto de quem mais nos quer. É aceitar quem é diferente e ver beleza na estranheza, ser feliz porque é para isso que cá estamos, para quê ser pela metade se podemos ser um todo? Ou um dobro?

Acreditar.

Este livro tem partes que me tocaram menos, que chegaram mesmo a ser pouco interessantes. Mas Valter tem o dom da escrita, e encantou-me mesmo nessas partes que menos me agradaram. Simples e divertido, usando termos que ninguém usa e poucos conhecem, sorri ao ler que se levava uma ceira para um piquenique. Ninguém diz “ceira”, ninguém escreve “ceira”. Achava que só eu é que ainda dizia coisas destas, feliz por causar estranheza a alguns ouvintes que ignoram o termo… deliciei-me…

Um livro bonito, mesmo tocante. Às vezes parecia que estava outra vez a ler “O Principezinho” de tantas verdades sérias serem expostas como se fossem óbvias, verdades supremas que só não segue quem não quer, quem não quer ser feliz.

São muitas as passagens que me encantaram e encheram o coração de todas as cores. Senti o verdadeiro prazer de ler que tantas vezes procuro num livro. E percebi que nos livros e na vida o essencial está em nós, escondido pelas tristezas, oculto pelas nuvens do dia-a-dia, mas que podemos, se quisermos, viver, realmente viver.

Porque a nossa família pode ser uma construção à medida do que a vida oferece, Crisóstomo começou sozinho e teve um livro inteiro para ser completo e perceber que ser completo é mais do que podia algum dia ter imaginado.

“Trouxe os peixes, usou para eles as louças que herdara e que se espantavam de novamente pousarem em mesa de grandes conversas, e disse que entre a Isaura ser dele e do Antonino era importante que fossem todos familiarmente unidos. Farto como estava de ser sozinho, aprendera que a família também se inventava. O Antonino sorriu iluminado. A Isaura deu-lhe a mão e riu muito. A Matilde, que talvez não soubesse que o seu filho era o melhor ser humano do mundo, sentiu que, por tolice ou novidade, ele cabia naquela casa. A Matilde não o saberia dizer, mas sentiu que uma casa onde o seu menino grande pudesse caber haveria de ser uma casa perfeita. Com tanto desespero, pensou subitamente que o mundo poderia ser mais justo para com o seu menino diferente. O mundo poderia ser melhor. Naquela casa, naquele instante, o mundo era também perfeito. O Camilo levantou-se e, não dizendo palavra, sorriu ao Antonino, que ficou tímido. O homem novo do cerco disse-lhe: coma, homem, que você ainda não tocou em nada. O Antonino comeu. O Camilo nunca mais poderia responsabilizar-se por entristecer o pai. O seu pai tão herói, que salvava e amava toda a gente.” (pág.210)

Sinopse

“Esta é a história de Crisóstomo que, chegando aos quarenta anos, lida com a tristeza de não ter tido um filho. Do sonho de encontrar uma criança que o prolongue e de outros inesperados encontros, nasce uma família inventada, mas tão pura e fundamental como qualquer outra.
As histórias do Crisóstomo e do Camilo, da Isaura do Antonino e da Matilde mostram que para se ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor. As suas vidas ilustram igualmente que o amor, sendo uma pacificação com a nossa natureza, tem o poder de a transformar.
Tocando em temas tão basilares à vida humana como o amor, a paternidade e a família, O filho de mil homens exibe, como sempre, a apurada sensibilidade e o esplendor criativo de Valter Hugo Mãe”

Alfaguara, 2011

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