Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

planetamarcia

planetamarcia

Julho 04, 2011

No Meu Peito Não Cabem Pássaros - Nuno Camarneiro - Opinião

 

Desde a primeira página de “No Meu Peito Não Cabem Pássaros” que tentei ser isenta. Agora, que escrevo estas palavras, tento sê-lo também. Conheço o Nuno Camarneiro há muitos anos e queria libertar-me da vontade que tenho de só falar bem do livro dele. Quero dizer o que penso como leitora, o que este livro me fez sentir, como faço sempre. Tenho de confessar que não foi fácil, mas tentei ler o livro esquecendo a pessoa que o escreveu.

A verdade é que não posso esconder o enorme alívio de ter adorado o livro, de me ter deixado embalar por um texto belíssimo, recheado de um vocabulário variado com muita qualidade, e revelador de uma maturidade literária invulgar.

Adoro ler! Não há um dia que não leia, desde há muitos anos… mas poucos foram os livros que me fizeram sentir que não podiam estar mais bem escritos, que não podiam descrever algo de uma forma mais perfeita ou cujas palavras pudessem ser conjugadas de uma maneira mais brilhante. O Nuno é daqueles escritores que pode escrever sobre coisa nenhuma encantando quem o lê. Pensando um pouco sobre o que tenho lido recentemente só Carlos Ruiz Zafón me tinha feito sentir assim. O Nuno, com muito menos páginas (não que isso seja relevante), chegou lá. É um romance de estreia surpreendente. Uma aposta num novo autor que eu espero que o público saiba acolher.

Na minha opinião este livro não é muito revelador, ou seja, é um daqueles presentes para a imaginação do leitor. Por diversas vezes tive dúvidas das verdadeiras intenções de algumas descrições, ou mesmo que sentido teria construir as personagens de determinada forma. Mas a dúvida permite pensar e criar, viajar e inventar. “No Meu Peito Não Cabem Pássaros” será provavelmente mais dos leitores do que do escritor, e cada leitor fará do livro algo seu, pessoal e único. Um livro que podem ser muitos livros, dos quais poderia falar horas sem concluir nada mas sempre discutindo e opinando.

Um livro que conta três vidas. Três homens brilhantes à sua maneira. Três percursos contados com clareza, como se fossem três livros juntos mas que não se misturam nem confundem. Sabemos os seus nomes mas não sabemos quem são. Podemos imaginar, seguir pistas, investigar, divagar e duvidar. Mas podemos acreditar no que é óbvio, Nuno Camarneiro possui um nível de conhecimento e cultura invulgar, desconfio que para ele aprender seja sempre um prazer e investigar um modo de vida.

Nuno, muitos parabéns! Que as tuas palavras cheguem longe!

Deixo aqui um pequeno trecho de que gostei:

“Quando um achador de terras se cansa de procurar caminhos, resta-lhe desistir ou abrir uma estrada nova, assim com os seus avós, assim consigo. Por uma estrada inventada chega-se a qualquer lugar e por palavras escritas chega-se a qualquer vida em qualquer época. Começa-se devagar, com descrença, e vai-se andando encostado ao desespero até que as palavras visitem os sonhos e tomem conta deles. Primeiro uma vida, depois outras que a suportem e justifiquem. Vidas ao lado e vidas antigas, vidas que hão-de vir e outras que nunca chegaram a ser. Todas fazem falta, todas servem.” (p.181)

Sinopse

“Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo. Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar. Apesar de separados por milhares de quilómetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo génio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles. Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, No Meu Peito não Cabem Pássaros é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens.”

Dom Quixote, 2011