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planetamarcia

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Agosto 11, 2013

Tudo o que nunca te disse - Romana Petri - Opinião

 

Senti uma espécie de desencanto ao longo de toda a leitura deste livro. Inegavelmente bem escrito mas tristemente real e verosímil, foi inevitável deixar crescer um vazio em relação a este monólogo que pretende ser um diálogo, mas que obriga a imaginar uma das partes.

Cristiana responde às cartas de Mário, o ex-marido.Quinze anos após o divórcio Mário retoma o contacto através de cartas. “Tudo o que nunca te disse” são as respostas de Cristiana a Mário. Sucessivas cartas de desamor sobre uma relação da qual ficou uma imensa mágoa, e que servem como exorcismo dos demónios que (ainda) convivem com Cristiana.

Descrições pormenorizadas da opressão e tensão em que Cristiana viveu a sua relação passada, detalhes das formas de humilhação usadas por Mário, tudo nos é relatado por uma mulher que tem necessidade de encerrar um capítulo, de se libertar da amargura e, aos 65 anos, começar finalmente a viver.

Gostei de ler. Romana Petri demonstra mais uma vez a sua capacidade de expressar sentimentos através das palavras, numa escrita consistente, madura, que não se perde em devaneios e se foca em pontos concretos.

O segundo livro que leio da autora foi encarado de uma forma diferente de “Esteja eu onde estiver”. Petri é uma mulher mundana, culta, com o dom da palavra, e com capacidade de encantar plateias com a sua experiência de vida e análise acutilante de escritora. A Roda dos Livros convidou e ela aceitou passar um fim de tarde a (literalmente) maravilhar-nos com a sua história, que é feita das histórias que ela encontra, que a encontram, que a perseguem, ou que simplesmente imagina. Uma escritora de topo, um ser humano especial. Uma noite inesquecível.

“Foi precisamente nesse momento que se me abriram outras perspectivas, um horizonte diverso. Num só instante, consegui ver tudo aquilo que poderia encontrar se te deixasse. Não sei como aconteceu. Foi como uma grande revelação, uma daquelas coisas que não se conseguem explicar, que nos devemos limitar a saber aceitar. Talvez eu tenha esta qualidade: quando vejo a vida oferecer-se-me de modo tão evidente, não lhe consigo dizer não. Parece fácil mas nem todos o sabem fazer. Sabes, os anos, o obscurecimento, o cansaço. Acaba-se por perder aquela lucidez que nos permite fazer a escolha certa quando a ocasião propícia se apresenta. É um instante, não dura mais do que isso e é necessário ter rapidez de espírito. Não digo que não se deva também reflectir, mas é preciso saber fazê-lo rapidamente.” (Pág. 168)

Sinopse

“Mario e Cristiana já passaram dos sessenta anos e estão divorciados há quinze. Ele é engenheiro hidráulico, acabado de se mudar para o Rio de Janeiro com a sua jovem mulher e o filho com pouco mais de um ano. Ela vive em Roma com os dois filhos já crescidos e um segundo casamento, feliz. Certo dia, Cristiana recebe uma carta estranha de Mario, do Brasil. Escreve-lhe dizendo que se sente velho, que gostaria de reencontrar um pouco da juventude trocando cartas com ela. Diz que só assim, voltando atrás com quem se foi jovem, se pode continuar a sê-lo. Mas quais serão verdadeiramente as suas intenções? Através das respostas de Cristiana, o leitor verá desfilar diante dos seus olhos, ao mesmo tempo que a história de um amor naufragado, os tiques e os mal-estares de toda uma geração: as falsas utopias, a crise das relações entre homens e mulheres, a revolução fracassada, o terrorismo, os muitos ideais que se esfumaram, deixando espaço apenas para a realidade banal. E depois os rancores, as traições mútuas, todas as coisas nunca ditas que finalmente vêm ao de cima de maneira violenta, brutal, impiedosa. Até se chegar a um verdadeiro ajuste de contas, no qual todas as cartas são postas na mesa.”

Bertrand, 2013

Agosto 08, 2013

Ler a obra-prima de Dante e acompanhar Dan Brown na descida ao Inferno

 

A mais extraordinária criação daquele que foi o maior poeta italiano de todos os tempos e um dos espíritos mais brilhantes de que a Humanidade se pode orgulhar.

«Pelo seu carácter ardente e reflectido, pela sua imaginação criadora e visionária e pelo seu profundo realismo, pelo equilíbrio entre o sentimento religioso e o sentimento cívico e político, pela sua altivez indomável.

Dante é um dos espíritos mais completos e mais universais de todos os tempos.»

«Foi sobretudo em O Inferno que Dante soube dar livre curso à sua imaginação descritiva.»

Versão em prosa.

Texto integral anotado.

Título: A Divina Comédia - O Inferno

Autor: Dante

Colecção: Clássicos

Pvp: 16.91€

Pp.: 152

Agosto 02, 2013

Maldito seja o rio do tempo - Per Petterson - Opinião

 

A sensação que tive ao ler este livro foi a de mergulhar constantemente em recordações, como se estivesse a ver o álbum de família de Arvid, a recordar episódios marcantes da sua vida e a fazer constantes saltos temporais entre as memórias e o presente.

Por vezes sentia que era como caminhar no escuro ou na névoa para perceber o percurso de Arvid, as suas tristezas e melancolias, os seus receios pelo futuro, divorciado e só, preocupado pelo estado de saúde da mãe.

Bastante descritivo, “Maldito seja o rio do tempo”, é de uma narrativa muito bela que me envolveu como uma bonita música. Que vale pela extraordinária beleza da sua escrita mais do que pela história, que muitas vezes senti ser um misto de sentimentos mal ordenados de um homem, acima de tudo, só.

Um leitura com compasso próprio, que dita as regras e não se deixa tomar pelas vontades ou pressas do leitor, que se sujeita com prazer às exigências do texto.

“Uma semana depois ela apareceu à minha porta, e continuou a aparecer, e começou a ir muitas vezes ao meu apartamento quando se dirigia a casa depois da escola no centro de Oslo e bebia chá na minha cozinha vermelha, onde eu lhe contava coisas acerca das quais tinha alguns conhecimentos, os meus livros, o Afeganistão, a intersecção de culturas: falava de Mao sentado à sua secretária, falava-lhe de Edvard Munch e do Partido, e ela falava-me da sua família, e como odiava regressar a casa depois das aulas. Uma vez veio da cidade e fez os seus trabalhos de casa na minha mesa da cozinha, e eu sentei-me para a ajudar e depois conversámos e fumámos até já ser muito tarde, e acho que foi a maneira como ela segurava o cigarro entre os dedos que me tocou mais, o modo como a palma da sua mão se abria em frente do seu peito com uma ligeira inclinação do pulso e a ponta incandescente a apontar para o chão, e aquela foi a primeira noite em que ela não voltou para casa.” (Pág. 100)

Sinopse

“Estamos em 1989 e, por toda a Europa, o comunismo está em colapso. Arvid Jansen, de 37 anos, encontra-se à beira de um divórcio. Ao mesmo tempo, à sua mãe é diagnosticado um cancro. Durante alguns dias intensos, no outono, seguimos Arvid enquanto ele se esforça por encontrar uma nova base para a sua vida, ao mesmo tempo em que os padrões estabelecidos à sua volta se estão a alterar a uma velocidade estonteante. Enquanto tenta conciliar-se com o presente, volta a recordar as suas férias na praia com os irmãos, o namoro, e o início da sua vida de trabalho, quando como jovem comunista abandonou os estudos para trabalhar numa linha de montagem. 
Maldito Seja o Rio do Tempo é um retrato honesto, enternecedor e simultaneamente bem-humorado de uma complexa relação entre mãe e filho, contado na prosa precisa e bela de Petterson.”

D. Quixote, 2013

Pág. 2/2