Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

planetamarcia

planetamarcia

Junho 13, 2011

A Vida em Surdina - David Lodge - Opinião

 

Tinha lido dois livros de David Lodge (Pensamentos Secretos e Longe do Abrigo) antes deste “A Vida em Surdina”. É sem dúvida um autor que já me tinha cativado e agora, depois desta recente leitura, fiquei ainda com mais vontade de conhecer outros livros dele.

Confesso que as minhas expectativas eram altas pois já diversas pessoas comentaram este livro de forma muito positiva. Tive a sorte de me ter sido oferecido recentemente; passou à frente dos muitos que tenho para ler.

“A Vida em Surdina” é o diário de Desmond Bates. Desmond vem perdendo a audição desde há alguns anos; este livro é no fundo um conjunto de reflexões sobre os seus dias e a sua percepção da vida. Tudo é alvo de dissertação, qualquer situação da vida quotidiana é esmiuçada ao detalhe, sempre com um sentido de humor muito próprio do autor, eu diria que são uns rasgos de uma deliciosa ironia aplicada a tudo, desde a família, o Natal, e principalmente à sua situação de “quase” surdo, bem como à forma como a sua condição pode levar a situações perfeitamente hilariantes e, ao mesmo tempo tristes. Parafraseando o autor: “A surdez é cómica, a cegueira é trágica”.

Este livro tocou-me muito, a principal razão deve-se ao facto de se tratar de um livro em parte autobiográfico, pois David Lodge sofre de perda de audição. Esta situação acaba por transmitir ao leitor o peso da verdade em quase tudo o que lê. Imaginamos as cenas de todas as dificuldades de comunicação e suas consequências como verdadeiras, e provavelmente são situações que aconteceram mesmo. David Lodge consegue fazer rir com descrições de cenas que por um lado podemos achar patetas, como os diálogos entre Desmond e o pai (que também é surdo), e emocionar com as suas reflexões sobre essas situações, a forma como expõe os seus sentimentos é de facto tocante.

O livro está repleto de trocadilhos divertidos, não só a exemplificar as dificuldades de percepção de Desmond e a forma como uma frase pode passar a ter um sentido completamente diferente, mas também de forma intencional em notas de humor muito característico. Imagino que estes trocadilhos não tenham facilitado o trabalho da tradutora. Através das diversas notas de rodapé, e dado que a nossa língua tem características gramaticais tão diferentes da Inglesa, penso que o sentido das frases chega intacto aos leitores portugueses. A maioria dos livros que leio são traduzidos, por vezes surge a dúvida se a tradução espelha efectivamente o que o autor escreveu, e reflicto na importância da tradução na transmissão da mensagem. Na minha opinião de simples leitora, e não tendo lido o original, parece-me estar na presença de uma boa tradução. Os meus parabéns à Tânia Ganho.

“A Vida em Surdina” é um livro excelente que recomendo sem qualquer reserva. Deu-me um imenso prazer ler cada página, pensar sobre as situações da vida de um homem que podia ser qualquer de nós, com as suas dificuldades e formas de as ultrapassar. As dúvidas, receios e inseguranças de Desmond dão-lhe uma humanidade com que depressa nos identificamos, ficamos solidários e, acima de tudo, muito emocionados.

Sinopse

“Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.”

Asa, 2009