Maio 20, 2010
Resultado do Passatempo "Compaixão"
Já foi escolhida a vencedora do passatempo “Compaixão”. Muitos parabéns à Vânia Caldeira da Azueira.
A Vânia optou por enviar o texto transcrito abaixo. Vale a pena ler!
“Naquele dia chorei. Chorei porque percebi que eu já não era tão importante para ti. Ou, pelo menos, não o suficiente. Não o bastante para quereres viver, estar comigo. Naquela cama de hospital, pediste-me que te ajudasse a partir e senti-me traída. Todos os meus músculos se contraíram perante tamanha proposta. Dos teus olhos, que me fitavam, resolutos, irradiava também um derradeiro pedido de compaixão.
Como podias querer morrer? Era certo que não levávamos a vida que tínhamos idealizado. Desde os primeiros sintomas, que a doença tinha evoluído por surtos e de forma rápida, deixando-te cada vez mais debilitado. Começaste a perder o equilíbrio e a força nas tuas pernas fortes e atléticas doutros tempos. Ficavas cansado com facilidade e, por fim, até a sensibilidade já perderas em parte do corpo. O pior, porém, foi quando além da deterioração progressiva da tua condição física, começaram a surgir lacunas na tua memória. Dolorosas lacunas, para ti e para mim. Momentos que eu recordava como especiais, e que tu querias recordar, mas de forma pérfida se tinham evaporado dessa massa de que é feita a memória.
Nunca deixei de te amar. Nunca te amei menos. Nunca te culpei.
E agora não percebia, porque me querias obrigar a… matar-te. E, sobretudo, obrigar-me a viver cada novo dia sem a tua aconchegante presença. Acordar sem ti ao meu lado, sem o toque do teu corpo, da tua pele, sem a sensatez das tuas palavras, sem o conforto do teu olhar.
Só quando vi esses teus olhos verdes mergulhados de lágrimas, a transbordar carinho, o teu sorriso meigo e a tua doce expressão, é que percebi que estava enganada. A dor no teu rosto mostrava como te estava a custar deixares-me para trás. Eu era, afinal de contas, a pessoa mais importante da tua vida. Não se faz um pedido destes a qualquer pessoa. Exige confiança e coragem, exige laços fortes e únicos que garantam compreensão e exige um amor altruísta capaz da dádiva de abdicar do outro.
Tinhas feito uma escolha – estavas farto de viver assim. Cansado das tuas evidentes limitações mas, sobretudo, cansado de me veres presa a ti, sofrendo contigo cada derrota, cada nova perda de função. Percebi que querias libertar-me, ao mesmo tempo que libertavas esse teu espírito aprisionado num corpo inerte que não lhe responde.
Eu teria aguentado tudo o resto. Teria estado a teu lado até ao fim. Nunca me senti aprisionada e não era por morreres que me libertarias de ti, do teu amor e de tudo o que representas na minha vida.
Decidi não te dar a minha compaixão, mas o meu amor. E que amor suporta ver o outro viver infeliz? Que egoísmo o meu querer-te a meu lado, só para mim, mesmo que definhando a olhos vivos. Mesmo que essa tua sobrevivência fosse, a cada dia que te vias no espelho, a cruel constatação de que não passavas de uma sombra do que foras.
E, nesse dia, entre lágrimas de amor, tomei a minha decisão: ajudar-te-ia a partir, contra tudo e contra todos. Pelo amor. Por ti.”
Agradeço a todos os participantes e, claro, à Civilização Editora por apoiar e tornar possíveis estas iniciativas.
A vencedora foi contactada por e-mail. Boas leituras!