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planetamarcia

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Abril 05, 2010

A Virgem das Amêndoas - Marina Fiorato - Opinião

 

Posso dizer que este livro me conquistou desde a primeira página, adorei a história e o seu desenvolvimento, as personagens, o tema, bem como a forma como está escrito. Uma surpresa muito positiva.

Viajei até à Itália do Séc. XVI e conheci Bernardino Luini, figura histórica real, aprendiz de Leonardo Da Vinci. A vida boémia de Bernardino sofre uma viragem a partir do momento em que conhece a bela Simonetta e se apaixona perdidamente. Infelizmente as coisas não correm da melhor das formas e os dois apaixonados são forçados a um afastamento dada a recente condição de viúva de Simonetta. Apesar da distância, Simonetta continua a ser a musa de Bernardino e o rosto presente nos frescos que continua a pintar…como se ainda posasse para ele como quando se conheceram.

“A Virgem das Amêndoas” não é apenas uma história de amor, são várias histórias de amores diferentes e de paixões que, com o decorrer da narrativa, vemos estarem interligadas. É também uma lição de tolerância e de respeito pelas diferenças, nomeadamente ao nível da religião. É constantemente abordado o tema da Inquisição no que refere às perseguições ao povo Judeu; na verdade esta abordagem serve também para valorizar a verdadeira amizade e demonstrar que ela não depende se acreditamos ou não no mesmo Deus; achei esta particularidade muito interessante e, apesar do tema não ser abordado de forma demasiado pesada, não deixa de nos fazer pensar no que são os valores mais importantes.

Penso que é feita uma caracterização bastante realista da época, eu pelo menos facilmente me deixei transportar pelas aldeias da Lombardia com as suas feiras e costumes.

Acima de tudo trata-se de um relato muito doce das vidas de todas as personagens, mesmo apesar das dificuldades que vão enfrentando. Achei a escrita simples mas muito cativante. O ritmo do virar de páginas foi constante, nunca me apetecia largar este livro.

Gostaria de destacar como minha favorita a parte em que é descrita a obtenção da receita do licor de Amêndoas. Simonetta dedica-se à criação deste licor numa noite em que recorda o seu apaixonado Bernardino; os ingredientes vão sempre sendo doseados na medida das suas recordações, como se o licor fosse de facto o resultado de tal amor. Apenas para ilustrar deixo o meu trecho favorito:

“Investiu tudo o que lhe animava a alma nessa infusão. Saiu para a noite e colheu damascos das espaldeiras na escuridão fragrante, a polpa ainda quente do sol, a casca como a de uma cria de rato. Os damascos para conferir doçura, a doçura extasiante que experimentara quando ele a beijara nessa única ocasião ardente. Mas depois adicionou dois cravos-da-índia de um frasco chinês, pretos como o seu cabelo e tão amargos, quando triturados, como a recordação da sua partida, da última vez, quando ele se afastara dela e se dirigira para as colinas. A casca da maçã mais verde, que se lhe enrolou nas mãos como a serpente de Eva ao descascá-la, relembrou-lhe a afortunada queda que a conduzira aos braços de Bernardino. Mas a raspa amarela de um limão dourado fez-lhe arder os cortes nos nós dos dedos, castigando os dedos que haviam tocado o seu cabelo quente quando puxara o seu rosto para o dela. Só então, quando permitiu que a lembrança dele a ajudasse, quando conjugou o doce e o amargo, a própria essência do seu encontro, é que compreendeu que havia terminado.”

Leitura mais que recomendada!

 

Sinopse

“Na Itália do século XVI, o jovem pintor Bernardino Luini, discípulo favorito do mestre Leonardo da Vinci, é encarregado de pintar um fresco religioso na igreja de Saronno, uma pequena localidade nas colinas da Lombardia. Ao entrar na igreja, a sua atenção é captada pela beleza e pela melancolia da jovem Simonetta, viúva de um poderoso senhor feudal morto em combate.
Sozinha e a ver a sua fortuna desaparecer até não restar nada mais a não ser as amendoeiras da sua villa, Simonetta acede a posar como modelo para Luini, que a imortalizará para sempre nos frescos da igreja como a Virgem di Saronno. À medida que o trabalho progride, artista e modelo apaixonam-se, selando o sentimento com um beijo que escandalizará a Igreja.
À genialidade com que Bernardino imortalizará a sua musa, Simonetta retribui com a criação da sua própria obra de arte: um licor especial fabricado com o fruto das suas amendoeiras. O licor ficará conhecido, até aos dias de hoje, como o famoso Amaretto di Saronno.
Contudo, antes de ambos completarem as suas obras, a relação é fortemente abalada por um acontecimento que porá em perigo aquele amor. E as suas vidas.
Uma inesquecível história de paixão e arte que se desenrola tendo como pano de fundo uma Itália Renascentista, onde a intriga, os escândalos, a guerra e a intolerância religiosa imperavam no dia-a-dia.”

Porto Editora, 2010