Domingo, 26 de Março de 2017

A Serpente do Essex - Sarah Perry - Opinião

serpente_frente.jpg

A Serpente do Essex é um livro com uma atmosfera muito particular. A sua leitura levou-me para uma Inglaterra nebulosa e fria do século XIX. Tal como o clima, extraordinariamente descrito, esta história é feita de nuances que se parecem com as zonas pantanosas do Essex.

Gostava de começar por destacar o naipe de personagens que compõe esta narrativa, pela sua admirável construção e verosimilhança. O livro tem algumas situações que se podem considerar pouco credíveis, (e como não, se é sobre uma serpente mítica?), mas as personagens, e a forma como se movimentam, interagem, ganham presença e força, é de uma cadência ponderada e estudada. São muitas, acho que já não lia um livro com tanta gente há algum tempo, e não me perdi nem as confundi (depois das páginas iniciais, claro).

Cora é a viúva que fica bem melhor depois do marido morrer. Não vale a pena estar com paninhos quentes, é assim que a coisa nos é dada, e é esse o encanto de Cora, uma senhora de bem que vai para o campo para andar mal vestida no meio dos pântanos à procura de uma serpente, não porque acredite que ela exista da forma como os habitantes da zona a descrevem (razão para todos os males que os enche de medos e superstições), mas porque quer descobrir (e provar) racionalmente as aparições testemunhadas por alguns dos locais.

A acompanhá-la, Martha, uma mulher de uma dureza pouco comum na época, suponho, pelo menos para uma espécie de dama de companhia. Martha toma também conta de Francis, o filho de Cora, uma criança especial que irá proporcionar momentos únicos na trama.

Senti bastantes vezes que a acção decorria na época actual, o que confere um cariz particular ao romance. Dei por mim a verificar a sinopse, onde se lê que estamos em 1893, mas de alguma forma não batia certo com o vestuário, as festas e, principalmente, a ousadia da relação que vai nascendo entre Cora e o Reverendo. Tratar-se-á, possivelmente, de uma forma de aproximar Cora do século XX, já que ela é de facto uma mulher à frente do seu tempo. Assim como Martha, pelo seu cariz revolucionário e ideais políticos.

Senti-me sempre dentro de uma viagem no tempo, mesmo sabendo que tudo acontece no mesmo ano, não pude evitar a sensação de proximidade com um estilo de vida actual, ao mesmo tempo que aterrava no nebuloso século XIX, cheio de superstições e crendices que a medicina vai tentando explicar e apaziguar. E curar.

Na verdade, para mim, a serpente (ou a hipótese da sua existência) foi perdendo importância ao longo da leitura. Foquei-me muito mais na interacção das personagens e nos seus encontros e desencontros. Encantaram-me as cartas trocadas entre Cora e o Reverendo, assim como entre Cora e Luke, o cirurgião seu eterno apaixonado, e todas as outras cartas que, mais ou menos, todas as personagens vão enviando. É uma forma de comunicar que me encanta e que trouxe, sem qualquer margem para dúvida, uma magia especial ao livro.

Sarah Perry escreve de forma cuidada e com qualidade. A história resvala algumas vezes para o campo da fantasia, mas sem exageros. Lê-se de forma célere e com gosto. Quanto à serpente…terão de ler para saber…

17362088_1262198810515823_3359982844375722989_n.jp

A Serpente do Essex é a primeira aposta da nova chancela do Grupo Almedina, a Minotauro. Agradeço o convite para participar na apresentação deste livro, que decorreu de modo informal no dia 23 de Março, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha. Acompanharam-me nesta aventura as bloggers Célia Marteniano, Cristina Delgado e Cris Rodrigues. A moderar a sessão esteve a editora Sara Lutas. Devido a um imprevisto de última hora A Cris Rodrigues não esteve connosco fisicamente.

Foto Minotauro.

Fiquem atentos que a Minotauro promete!

Sinopse

“Londres, 1893. Quando o marido de Cora Seaborne morre, a viúva inicia uma nova vida marcada ao mesmo tempo por alívio e tristeza.
Não teve um casamento feliz e ela própria nunca se adequou ao papel de mulher da sociedade. Acompanhada pelo filho, Francis - um rapaz curioso e obsessivo -, troca a cidade pelo campo de Essex, onde espera que o ar fresco e os grandes espaços lhe proporcionem o refúgio de que necessita.
Quando se instalam em Colchester, chegam-lhe aos ouvidos rumores de que a Serpente do Essex, conhecida por em tempos ter percorrido os pântanos na sua avidez de colher vidas humanas, regressou à aldeia de Aldwinter. Cora, naturalista amadora sem interesse por superstições ou questões religiosas, fica empolgada com a ideia de que aquilo que as pessoas da região tomam por uma criatura sobrenatural possa, na realidade, ser uma espécie ainda por descobrir. Quando decide iniciar a sua investigação é apresentada ao vigário de Aldwinter, William Ransome. Tal como Cora, Will sente uma desconfiança profunda em relação aos boatos, que considera um fenómeno de terror de caráter moral e um desvio da verdadeira fé. Enquanto Will procura tranquilizar os paroquianos, inicia-se entre ele e Cora uma relação intensa; apesar de os dois não concordarem a respeito de nada, são atraídos e afastados um do outro inexoravelmente, a ponto de isso modificar a vida de ambos de formas inesperadas.
Escrito com uma delicadeza e uma inteligência cheias de requinte, este romance é sobretudo uma celebração do amor e das muitas formas que ele pode assumir.”

Minotauro, 2017

Tradução de Helena Ramos e Dila Gaspar

publicado por marcia às 11:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 4 de Março de 2017

A Avó e a Neve Russa - João Reis - Opinião

aavoeaneverussa.jpg

Como não querer ler este livro? Um menino que nos fala (como um menino) da sua visão do mundo e dos planos para salvar a avó doente.

É um menino que, na verdade, já é um homenzinho. Que sabe tantas coisas, tantas, da História do mundo e das pessoas em seu redor. Sabe da solidão da doença e da certeza de que a avó, apesar da exposição aos ventos atómicos, não pode morrer. Nem que para isso, seja ele próprio a salvá-la.

Tinha alguns receios acerca desta leitura, nomeadamente que a verosimilhança (ou falta dela) atraiçoasse a ideia (brilhante) de colocar todas as palavras deste livro na boca de uma criança. Um trabalho de estofo, diria eu, manter o leitor crédulo no pequeno (de quem nunca sabemos o nome) que nos conta tantas coisas da história da sua própria família, e revela uma aprendizagem alargada e deliciosa de tantos acontecimentos mundiais.

O seu olhar sério sobre a escola, a vizinhança, tudo o que observa e o faz, não só pensar, mas colocar em causa ou interrogar-se sobre questões pertinentes que podem começar pela saúde debilitada da avó devido acidente nuclear de Chernobyl, mas que avançam sem controlo para reflexões sobre xenofobia (ou xenofilia num dos vários admiráveis equívocos), ou pelas mais variadas injustiças do mundo.

E sim, acreditei até à última página que este menino me falava, que os seus olhos me davam uma perspectiva infantil com a qual me deliciei tanto de felicidade como de tristeza, que quis ficar triste com a morte iminente da Babushka, mas que a crença do neto na cura me arrancava fé de onde eu não sabia que tinha. Uma fé que durou um livro. Pouco para alguns. Muito para mim. A escrita de João Reis tem a competência de fazer sonhar, infelizmente dentro de limites, mas sonhar. Tem o dom do sorriso, mesmo que misturado com a tristeza da racionalidade que não nos deixa, e que talvez por isso, permite uma beleza feita de tanta simplicidade.

Eu gostava que todos o lessem.

“Os avós paternos do Matt estiveram num acampamento de concentração dos Nazis do Senhor Hitler, e os seus pais eram ainda crianças pequeninas e ficaram escondidos em Varsóvia porque cabiam em todos os armários. A avó do Matt morreu num desses acampamentos de concentração do Senhor Hitler; comia pouco e ficou magra até morrer, e depois carbonizaram-na para que não ficasse a ocupar espaço e enviaram-na para as caldeiras, já que moravam muitas pessoas naqueles acampamentos e não havia o aquecimento que temos hoje em dia. O avô do Matt sobreviveu, porque fazia serviços no campo e falava alemão e algum francês, foi isso que o salvou. Deram-lhe comida suficiente para não comer de menos e ficar magro até morrer. Porém, ele acabou por se matar, ainda o Matt era uma criança; não aguentou a pressão da sociedade que cai sobre um sobrevivente e o esmaga, acordava a meio da noite em terrores vivos, a chorar.” Pág. 95/96;

“E as árvores envelhecem e mantêm-se de pé e aumentam o tronco, mas as pessoas encolhem e encolhem até desaparecerem pressionadas pela idade que têm em cima do corpo; porém, as árvores não se podem mexer e ficam presas à terra e não conseguem fugir, e nisso são parecidas com a Babushka, deitada na cama do hospital, tão pequena, pequenina, se não fosse pelos cabelos brancos quase seria um bebé da maternidade. Pobre Babushka: escapar aos ventos fulminantes para estar assim, arruinada numa cama, e só uma planta a pode ajudar, um cato.” Pág. 105;

Sinopse

“Babushka está doente. Esta russa idosa, emigrante no Canadá, sobreviveu ao acidente nuclear de Chernobyl. Esconde no peito a doença que a obriga a respirar a contratempo e lhe impõe uma tosse longa e larga e comprida e sem fim — um mal que a faz viver mergulhada nas memórias do seu passado luminoso, a neve pura da Rússia, recordação sob recordação.
Na fronteira com a realidade caminha o seu neto mais novo, de dez anos, um menino que não desiste de puxar o fio à meada e de tentar devolver a avó ao presente. Para ajudar Babushka, precisa de encontrar uma solução para os seus pulmões destruídos, sacos rasgados e quase vazios — mesmo que isso o obrigue a crescer de repente e partir em busca de uma planta milagrosa, o segredo que poderá salvar a família e completar a matriosca que só ele vê.
Narrado na primeira pessoa e escrito a partir da perspetiva de uma criança, A Avó e a Neve Russa é um livro feito da inocência e da coragem com que se veste o deslumbramento das infâncias. Romance simples e emotivo sobre a força da memória e da abnegação, relata a peregrinação de um neto através da esperança, do Canadá ao México, para encontrar a possibilidade de um final feliz.”

Elsinore, 2017

publicado por marcia às 16:59
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito (1)
|
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017

Onze Tipos de Solidão - Richard Yates - Opinião

onzetiposdesolidao.jpg

Quando comecei a escrever sobre este livro de contos pensava dedicar um texto a cada uma das histórias. Escrevi umas linhas para o primeiro conto, e mais umas linhas para o segundo. Contudo a leitura ganhou fôlego e dediquei-me a lê-los de seguida, sem me preocupar com anotações e possíveis futuros textos.

A solidão é um tema que me toca particularmente, por ter tanto por onde pegar, literariamente falando. E Yates explora este tema de forma admirável.

Os onze contos não se relacionam, mas todos narram histórias de gente que, de alguma forma, está só. Da infância ao serviço militar, passando pelo casamento e pela doença, ficam as imagens (porque achei a narrativa muito visual) de Onze Tipos de Solidão que me agarraram pela escrita tão completa que utiliza, curiosamente, poucas palavras. Yates fez-me sentir mais, fez-me estar mais perto das personagens e das suas solidões, nestes contos com cerca de vinte páginas cada, do que muitos calhamaços com centenas delas.

Com um poder de síntese impressionante e uma clareza admirável, Yates já devia ter saltado para as minhas leituras obrigatórias há muito.

Sinopse

“A partir da vida de empregados de escritório em Nova Iorque; de um taxista que ambiciona a imortalidade; de jovens romancistas frustrados; de professores desprezados pelos alunos; de homens do subúrbio e das suas mulheres deprimidas e negligenciadas, de aperitivos e martinis e bares de jazz sem glamour nenhum, Richard Yates constrói um mosaico assombroso dos anos 1950, período em que o sonho americano começava finalmente a concretizar-se e, em simultâneo, a revelar um grande vazio.

Publicado a seguir ao romance que consagrou Richard Yates - Revolutionary Road - o conjunto de onze histórias - ilustrando cada uma delas uma vertente desses Onze Tipos de Solidão - cria, para lá do retrato, uma forte atmosfera de alienação e desconexão social.”

Quetzal, 2011

Tradução de Nuno Guerreiro Josué

publicado por marcia às 00:24
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
|
Domingo, 12 de Fevereiro de 2017

Concerto em Memória de um Anjo - Éric-Emmanuel Schmitt - Opinião

concertoemmemoriadeumanjo.jpg

Um livro com quatro histórias que se lê muito bem, mas que infelizmente me acrescentou pouco. Uma escrita simples, fluída e bem estruturada. Contos que me prenderam de modo contido. Apenas o primeiro, A Mulher Venenosa, me agradou verdadeiramente. Daí até ao final do livro, acompanhei com mediano interesse.

Faz boa companhia numa tarde de lazer, mas eu espero mais de um livro. Por isso ficou-me aquele sabor a “quero mais”. Contudo, penso que poderá agradar a muitos leitores. Fica a sugestão.

Sinopse

“Que relação existe entre uma mulher que envenena sucessivamente os seus maridos e um presidente da República apaixonado? Qual a ligação entre um simples e honesto marinheiro e um escroque internacional que vende bugigangas religiosas fabricadas na China? Por que milagre uma imagem de Santa Rita, padroeira das causas perdidas, assume o papel de guia misteriosa das suas existências? Todas estas personagens tiveram a possibilidade de se redimir, de escolhera luz em vez da sombra. A todas foi um dia oferecida a salvação. Algumas aceitaram-na, outras recusaram-na, outras ainda não souberam reconhecê-la. Quatro histórias com ligações entre si. Quatro histórias que atravessam o quede mais comum e mais extraordinário existe na nossa vida. Quatro histórias que exploram uma questão: somos livres ou estamos presos a um destino? Será que podemos mudar?”

Marcador, 2016

Tradução de Nuno Camarneiro

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 13:36
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Domingo, 5 de Fevereiro de 2017

Desgraça - J. M. Coetzee - Encontro da Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz

desgraca.jpg

Falar sobre livros com outros leitores pode ser quase tão bom como lê-los. Por isso gosto tanto de trocar ideias sobre leituras com os meus amigos leitores. Foi por isso, também, que nasceu a Roda dos Livros. Porque há mais leitores com a mesma vontade, e ainda bem.

Além da Roda participo numa Comunidade de Leitores que reúne em Lisboa uma vez por mês, com direito a discussão sobre o livro escolhido, jantar e encontro com o autor. No dia 28 de Janeiro fui pela primeira vez ao encontro da Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, a cidade onde cresci. Já há algum tempo que queria conhecer esta comunidade, mas o encontro mensal nem sempre coincidia com as minhas deslocações à Figueira. Fui ao primeiro encontro de 2017, e espero que seja um prenúncio de que consiga ir a uma boa parte dos encontros do ano. O grupo já está formado há algum tempo e nem sempre é fácil ser novato nestas circunstâncias, contudo eu senti uma recepção calorosa que me deu logo vontade de ficar.

O livro escolhido foi o Desgraça, de J. M. Coetzee, que eu já tinha lido há uns treze anos. Na altura lembro-me de não ter gostado, apesar disso lembro-me de não ter conseguido parar de o ler. Reli o livro para este encontro tendo sempre presente a experiência contraditória de uma leitura que não agrada mas que não solta, e até agarra quem lê. Como já sabia ao que ía, não me foquei tanto na história, que recordava, e que nos leva para outro país, outro continente, outra realidade. Foquei-me na escrita, na estrutura do livro, na forma como o autor consegue, num livro relativamente pequeno, condensar tanto para pensar. E para falar, pois a discussão foi verdadeiramente envolvente, com uma série de pontos de vista que enriqueceram de sobremaneira a minha leitura inicial.

Sinopse

“Com cinquenta e dois anos, o professor David Lurie perde o emprego e os amigos depois de um romance com uma das suas alunas, refugiando-se na quinta da filha, Lucy. As tentativas de David para se relacionar com Lucy e com uma sociedade feita de novas complexidades raciais são perturbadas por uma tarde de violência que os vai modificar, a ele e à filha, de uma forma que ele jamais poderia prever. Neste romance perverso e, não obstante, terno, Coetzee diz, uma vez mais, verdades que penetram até ao osso.”

O encontro da Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz é no último sábado de cada mês e a entrada é livre. Deixo o desafio a quem se quiser juntar ao grupo no dia 25 de Fevereiro.

16298963_1264946966916022_5369107557978468749_n.jp

 Boas leituras a todos!

publicado por marcia às 18:30
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|
Domingo, 29 de Janeiro de 2017

É assim Que A Perdes - Junot Díaz - Opinião

eassimqueaperdes.png

Eu passo, como leitora, muito tempo à espera daquele livro. O tal. O que faz esquecer tudo e preenche os meus pensamentos enquanto houver páginas para ler. Penso que é um desejo comum a todos os leitores, encontrar em todos os livros que lemos essa sensação de entrega e interesse avassaladores. Sabemos que são raros os livros que nos proporcionam tais sensações, e quantos mais livros lemos mais difícil é que um livro nos encha as medidas.

Muitas vezes penso, quando alguém me fala de um livro com grande entusiasmo, que será essa a tal leitura. Persigo, ambiciosa, nas frases do livro sugerido, as mesmas sensações. Quantas desilusões! As altas expectativas, os gostos distintos, tantas coisas que podem fazer um livro perfeito para uns e um leve encolher de ombros para outros.

É assim Que a Perdes é uma dessas extraordinárias surpresas. Uma narrativa que vai de encontro a tudo o que mais me agrada, que me envolveu totalmente pelas horas que as páginas duraram. E que bom que foi. Que frases extraordinárias, que modo de escrever sem medo, parecendo quase fácil deitar para o lado de cá tantos sentimentos. Eu gosto da crueza da escrita de Junot Díaz, das palavras duras, do calão que soa a natural na dor de quem está cheio de frio e solidões.

São nove contos. Todos sobre Yunior ou com ele relacionados. Quase todos sobre o amor, mesmo parecendo ele tão distante dessas coisas, quase imune aos sentimentos, mas fraco à frieza das relações ocasionais. Tem de se ser duro quando se deixa um país quente para o constante inverno, quando se é sempre um estranho, quando não se fala a língua, quando se é só. As mulheres, a mãe sempre triste, o pai ausente, o irmão doente. Crescer com a pressão da adaptação. Querer sempre dizer que não.

Para mim, extraordinário, mas tenho a certeza que não agradará a todos os leitores. Pouco consensual, possivelmente... o que me faz gostar ainda mais deste livro.

“É um começo, dizes em voz alta.

E é isto. Nos meses seguintes, atiras-te ao trabalho, porque isso te infunde uma espécie de esperança, uma espécie de graça – e porque no fundo do teu coração de mentiroso infiel sabes que às vezes um começo é tudo o que alguma vez teremos.” (Pág. 153).

Sinopse

“O novo livro de Junot Díaz, É assim Que A Perdes, é um conjunto de narrativas ligadas entre si sobre o amor — amor apaixonado, amor ilícito, amor em extinção, amor maternal — e contadas através da vida dos habitantes de New Jersey oriundos da República Dominicana e da sua luta para encontrar um ponto de encontro entre os seus dois mundos. O livro desvenda a inevitável fragilidade do coração humano. São histórias que nos recordam que a paixão pode triunfar sobre a experiência e que o amor, quando nos atinge, tem sempre algo de eterno.”

«[…]nunca relatos sobre as ruínas da paixão amorosa foram tão honestos, tão brutais, tão no osso, tão na pele.» José Mário Silva, Expresso

Relógio D’Água, 2013

 

publicado por marcia às 23:01
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito (1)
|
Domingo, 22 de Janeiro de 2017

Nem Todas as Baleias Voam - Afonso Cruz - Opinião

nemtodasasbaleiasvoam.jpg

Será possível vencer uma guerra com a música?

Esta é uma premissa interessante e verídica, pois o plano Jazz Ambassadors (CIA) tinha o objectivo de cativar a juventude de Leste para a causa americana. Está na sinopse, não é spoiler, e no último FOLIO Afonso Cruz revelou que este plano fora o ponto de partida para o novo livro. Para mim foi uma novidade, desconhecia tal plano, e fiquei verdadeiramente entusiasmada com o livro.

Agora que o li, o Jazz Ambassadors parece-me muito pequeno e sem graça ao pé de tudo o que o Afonso construiu neste livro. São as pequenas coisas que nascem ao redor do fio condutor que é o plano, que guardo. As frases que reli, permanecendo na mesma página, as reflexões que me seguem, mesmo depois de fechar o livro, a sensação de brincar com os limites, quando se esbate a linha que separa a crueldade da beleza.

Há muito para descobrir nas profundas camadas que as palavras formam nas páginas de Nem Todas as Baleias Voam. Desconfio que não haverá uma releitura igual e, de cada vez, virão novos pontos de vista à superfície.

Há uma cadência de dor que arrepia e, ao mesmo tempo, envolve. Há uma vontade de parar e uma necessidade de prosseguir. É, para mim, mais um livro fantástico do Afonso Cruz.

“- Gostava daquele bar, do Delon, e gostava da sua flor, porque as tulipas raiadas são flores doentes. A sua beleza vem de uma doença. A normalidade nunca fez bem a ninguém, mas a anomalia, aquelas estranhas cores que pintavam as pétalas, como se Van Gogh fosse o autor do Universo, elevavam a flor a um estatuto artístico, era a doença que a fazia mais bela do que o habitual. A arte é uma doença, a humanidade nasceu de um macaco doente, como uma tulipa raiada. Foi um desvio que o levou a erguer-se na savana e a sentar-se mais tarde num bar de Montmartre. Abençoadas doenças, Tristan.

- E não matam?

- Matam, são a coisa mais triste do mundo.” (pág. 254)

Sinopse

“Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria.”

Companhia das Letras, 2016

publicado por marcia às 00:36
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito (1)
|
Sábado, 14 de Janeiro de 2017

O Czar do Amor e do Tecno - Anthony Marra - Opinião

31948559.jpg

As leituras de 2017 começam muito bem com O Czar do Amor e do Tecno. Confesso que não gosto do título. Também não gosto da capa. Mesmo assim o meu interesse manteve-se, a vontade de descobrir esta história era enorme. E ainda bem, pois revelou-se uma leitura entusiasmante que, apesar das quase quatrocentas páginas, decorreu a um bom ritmo. Interessante e misterioso, pelas pontas que vai deixando em aberto, e que urge decifrar, é um livro com uma estrutura admirável e muito bem pensado.

A viagem começa em 1937 e apresenta-nos Leopardo, um censor em Leningrado que apaga (literalmente) pessoas. Não pode haver vestígios daqueles que a história apagou, e Roman Markin dá veracidade histórica a quadros e fotografias. Esta é a premissa a que se juntam outras histórias, de outras pessoas e outros tempos. É um livro que, mesmo não parecendo, segue uma linha orientativa constante, em redor da qual vão surgindo novas personagens. Tudo está relacionado, e o que ao início parece ser demasiada gente e demasiados nomes, vai-se reduzindo à medida que o leitor junta vidas como se construísse um puzzle.

Encantou-me a estrutura deste livro, como já referi. Penso que se pode considerar um conjunto de histórias que, aparentemente isoladas, se relacionam em alguns pontos dando continuidade, com saltos temporais, às tais pontas em aberto. É como uma viagem de comboio com muitas entradas e saídas de passageiros. Há sempre alguém que regressa ao percurso para alinhar a narrativa num sentido, que muitas vezes, parecia já estar esgotado. Não sei se se poderão considerar Contos, dado que alguns são bastante extensos, mas o que importa é que esta espécie de capítulos longos, confere uma dinâmica inovadora ao livro.

As histórias dentro da história são muitas, e cheias de detalhes. Da Sibéria, à Chechénia, passando por Moscovo, e até pela imensidão do espaço, o leitor percorre a recente história russa nas vidas de pessoas banais. Realista e, por vezes, bastante cruel, não por aquilo que é escrito, mas pela forma como as palavras marcam e permanecem na mente, O Czar do amor e do Tecno é uma leitura fantástica, que recomendo com entusiasmo.

Sinopse

“Em 1937, um promissor pintor de Leninegrado vê-se reduzido à tarefa ingrata de "apagar", de pinturas e fotografias, os dissidentes do regime soviético. Entre os inúmeros rostos que faz desaparecer, está o do seu próprio irmão, condenado à morte. 
Na atualidade, uma historiadora de arte dedica-se a estudar o mistério que se esconde na obra desse censor. Nas centenas de imagens que alterou, ele introduziu obsessivamente um rosto. Quem foi essa figura anónima, a um tempo dissimulada e omnipresente na História da Rússia? 
O segredo do criador de rostos atravessa décadas e fronteiras e confunde-se com a memória do país. Cruza as trajectórias de uma bailarina caída em desgraça, espiões polacos, mercenários, um aprendiz de mendigo, uma beldade siberiana, e até um lobo. E como pano de fundo, uma cidade com um lago de mercúrio, um céu sem estrelas e uma floresta de plástico. 
Um livro profundamente original, que nos leva de S. Petersburgo aos confins da Sibéria e à Chechénia, e consolida Anthony Marra como um dos jovens escritores americanos mais aclamados da atualidade.”

Teorema, 2016

 

publicado por marcia às 11:28
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito (1)
|
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

A Gorda - Isabela Figueiredo - Opinião

agorda.jpg

Este é um daqueles livros de que se gosta desde a primeira frase. Eu gostei bastante e li rapidamente. Há urgência nesta leitura, não que seja compulsiva, pois a partir de certa altura a história não oferece nada de novo, mas há uma necessidade constante de virar a página e acompanhar a escrita fluída e bonita de Isabela Figueiredo.

A vida de Maria Luísa está neste livro, compactada nas divisões de uma casa. Uma organização diferente (eu nunca tinha visto) em que cada capítulo vai nascendo dentro de um novo espaço. Se por um lado há sempre um pormenor ligado à sala, ao quarto, ou à cozinha, por outro o local funciona como o fio condutor que leva a uma parte da história da sua vida. Pode ser uma conversa ou uma cena de amor, algo que a liga à divisão, à casa e, claro, a ela própria.

A Gorda é sobre Maria Luísa, que é gorda. Contudo, não é um livro sobre ser gorda ou magra, sobre ser gozada na escola devido ao aspecto físico, ou sobre o namorado que tem vergonha de estar com ela em locais públicos. Ou melhor, é sobre todas essas coisas e muitas mais, sobre os anos que passam e deixam marcas, sobre as opções de vida e o caminho percorrido. É sobre as metas de uma mulher com ganas de vencer, determinada e trabalhadora, aventureira e humana. Uma mulher que se cansa, desanima e, por vezes, deixa cair os braços. Como todos nós.

Maria Luísa deixou de ser gorda. Não é spoiler, sabe-se logo no primeiro parágrafo. Mas não deixou nunca de ser ela própria. E essa é uma aprendizagem que nem todos conseguem seguir. E é muito bom saber tudo isso num livro como este, que se lê com facilidade e prazer, que faz pensar, porque é tão fácil identificarmo-nos com Maria Luísa e com as reviravoltas comuns às vidas da maioria das pessoas. E como ela, voltamos a casa, ao espaço familiar, conhecido, que habitamos e também deixamos que nos habite. Todos os dias.

Gostei de quase tudo. Só houve uma coisinha que aqui a picuinhas achou que estava a mais, que é a repetição da descrição de alguns acontecimentos. Entendi que serviram para fazer uma ligação à história quando se muda de divisão, mas eu dispensava algumas das repetições.

É um excelente livro. Recomendo com a certeza de que agradará à maioria dos leitores.

Sinopse

“Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.”

Caminho, 2016

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 23:45
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito (4)
|
Domingo, 1 de Janeiro de 2017

A Vegetariana - Han Kang - Opinião

avegetariana.jpg

Pensei em não escrever sobre este livro, que é um conjunto de três histórias. Ou melhor, uma história em três versões, a três vozes. E, apesar de ter gostado muito de o ler, pensei em não me manifestar por recear não ser capaz de desenvolver ideias coerentes sobre esta leitura, por ser difícil de expôr, talvez até de compreender.

A Vegetariana vai muito para além da história de uma mulher que não quer comer carne, ou que deseja transforma-se numa árvore. É talvez a história dessa mulher e do seu desejo de ser dona das suas vontades. De querer controlar o próprio corpo, quando mais nada controla na sua vida.

Tem de obedecer ao pai e ao marido, de se vestir como os outros desejam, de ser a esposa para que foi preparada. Tem de viver para as vontades dos outros e de acordo com as expectativas que criaram para ela. É uma prisão onde, apesar de não estar só, nada controla. Deseja a morte como fuga, mas não lhe é permitido morrer. A estranheza de não comer é encarada como loucura e ninguém lhe sente o sofrimento nos silêncios.

Para quem lê o sufoco é constante. Os gritos de socorro da mulher que se quer transformar em árvore para abandonar a sua própria vida são perturbadores. Ouvimos do lado de cá das páginas o que a família ignora. E é revoltante. É clara a angústia de quem é dado como louco, e a forma como acaba por ceder à loucura. Por ser o único caminho.

A Vegetariana questiona costumes e padrões de forma tormentosa, levando ao limite o conceito de normalidade e dissecando a dor de não ser aceite. É um grito (silencioso) de revolta.

Gostei bastante, mas estou certa que não agradará a todos os leitores. Os mais exigentes não o devem deixar escapar.

Sinopse

“Uma combinação fascinante de beleza e horror.
Ela era absolutamente normal. Não era bonita, mas também não era feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana. E esse seu ato de renúncia à carne - que, a princípio, ninguém aceitou ou compreendeu - acabou por desencadear reações extremadas da parte da sua família. Tão extremadas que mudaram radicalmente a vida a vários dos seus membros - o marido, o cunhado, a irmã e, claro, ela própria, que acabou internada numa instituição para doentes mentais. A violência do sonho aliada à violência do real só tornou as coisas piores; e então, além de querer ser vegetariana, ela quis ser puramente vegetal e transformar-se numa árvore. Talvez uma árvore sofra menos do que um ser humano.”

D. Quixote, 2016

publicado por marcia às 01:32
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.a ler


.a ler também


.Março 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
20
21
23
24
25
27
28
29
30
31

.posts recentes

. A Serpente do Essex - Sar...

. A Avó e a Neve Russa - Jo...

. Onze Tipos de Solidão - R...

. Concerto em Memória de um...

. Desgraça - J. M. Coetzee ...

. É assim Que A Perdes - Ju...

. Nem Todas as Baleias Voam...

. O Czar do Amor e do Tecno...

. A Gorda - Isabela Figueir...

. A Vegetariana - Han Kang ...

.últ. comentários

Correu bem, Isaura, Obrigada!Foi um excelente expe...
Boa!!Muito sucesso e sorte.Espero que corra bem.Be...
A mim também tenta!
Sim, é verdade. Isso também me agrada bastante!
Este quero! Também tenho um especial fascínio pela...
A guerra dos Balcãs impressiona-me muito, por isso...
Estou a ver que gostaste!
Ah, este já li!Esta nova editora promete.Paula
Sim, tem óptimas referências e sim, a capa é magní...
Tenho ouvido falar muito (e bem) deste livro. Que ...

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Setembro 2007

.gosto

blogs SAPO

.subscrever feeds