Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

A Tia Julia e o Escrevedor - Mario Vargas Llosa - Opinião

 

Custa-me cada vez mais escrever sobre livros. Bons livros. Porque não há nada que eu possa fazer para os tornar melhores, nem tal ambição tenho o desplante de ter, e porque sinto que escreva o que escrever, será sempre insuficiente.

Mas, e porque estes joguitos de palavras que faço me dão um certo gozo, não resisto a pelo menos tentar descrever o prazer de ler um livro excepcional.

Já li alguns livros de Llosa. Este é diferente. Autobiográfico. Não sei, tem logo assim à partida uma espécie de seriedade cheia de verdades. Mete respeito pensar que se vai entrar na vida privada do senhor quando tinha dezoito anos, descobrir uma espécie de incesto por afinidade que aguça a curiosidade, mas ao mesmo tempo me fez recear ficar a salivar pelas personagens delirantes dos outros livros que li do autor.

Mas não. Pois que o delírio continua. A imaginação de Vargas Llosa é, sem dúvida, poderosa, mas as situações da sua vida e aqueles que o rodearam terão sido, a meu ver, um impulso decisivo para criações tão fantásticas. O meio terá influenciado o criador. Sorte ter a genialidade e movimentar-se num laboratório vivo, cheio de cobaias mesmo a pedir a imortalização. Num livro. Partindo do princípio que tudo no livro é verdade. A mim apetece pensar que sim.

E mais me apetecia ter lá estado. Para conhecer Pedro Camacho que, não sendo o meu grande favorito Dom Rigoberto, me encantou com a sua dedicação exaustiva à escrita, pela forma como sugou a sua imaginação até ao esgotamento, citando o próprio “Para a arte não há horário”.

Não interessa o que Camacho escreve mas como o faz. Pois que explicando a sua dedicação à causa qualquer aspirante a escritor o idolatrará de imediato, aprofundando a questão acerca do tema dos seus escritos, já não é assim tão fascinante. Por isso e para manter por mais um pouco esta ideia romântica do escritor lunático, vou adiar a explicação mais exacta (a verdadeira, pronto) para depois.

Camacho escreve como um actor. Muda de indumentária para entrar totalmente na personagem. Enfiado num cubículo com a Remington “emprestada” cria capítulos para a cada dia, a cada hora, surpreender e fascinar ainda mais os seguidores. Estes, mesmo depois, de ele dar provas óbvias de ter entrado nas suas próprias estórias ao ponto de enlouquecer, ainda o adoram mais. Ficam diariamente, à hora certa, ansiando ouvir a radionovela, os folhetins do grande Pedro Camacho. Um escritor para massas, um escritor de banalidades, que leva o seu trabalho tão a sério que representou uma grande inspiração para Llosa.

Fascinante e caricato, este é (mais) um livro de Vargas Llosa que me levou muito mais longe do que eu esperava ir. Ao compasso do seu amor pela Tia Julia, fui sendo surpreendida com capítulos com uma certa estrutura de conto, que me foram fazendo imaginar que, também ou, ouvia a radionovela.

“Começo a escrever com a primeira luz. Ao meio-dia o meu cérebro é uma tocha. Depois vai perdendo fogo e à tardinha paro porque só restam brasas. Mas não importa, pois nas tardes e nas noites é quando mais rende o actor. Tenho meu sistema bem distribuído.” (Pág. 47)

“Quando lhes perguntei porque é que os preferiam aos livros, protestaram: que palermice, como é que se podiam comparar, os livros eram a cultura, os folhetins simples extravagâncias para passar o tempo. Mas o certo é que viviam apegadas ao rádio e que nunca tinha visto nenhuma delas abrir um livro” (Pág.96)

“Cada vez se me tornava mais evidente que a única coisa que queria ser na vida era escritor e cada vez, também, me convencia mais que a única maneira de sê-lo era entregando-me à literatura de corpo e alma. Não queria de modo nenhum, ser um escritor a meias e aos bocadinhos, mas sim um de verdade, como quem? O mais próximo desse escritor a tempo inteiro, obcecado e apaixonado pela sua vocação, que conhecia, era o radionovelista boliviano: por isso me fascinava tanto.” (Pág. 198)

Sinopse

“A Tia Julia e o Escrevedor é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Conta a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos cinquenta, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até ao dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e a tia Julia é descoberto pela família. Ironia e romance em doses perfeitas, memórias autobiográficas e criação literária magistral fazem deste livro um clássico da literatura contemporânea.”

D. Quixote, 2011

publicado por marcia às 16:38
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Domingo, 16 de Março de 2014

O Herói Discreto - Mario Vargas Llosa - Opinião

 

Ler algo de Vargas Llosa oferece-me uma espécie de garantia desde que abro a primeira página. Um dos meus escritores favoritos, que me consegue levar sempre numa exclusiva viagem de palavras.

“O Herói Discreto” é mais um brilhante livro do autor, que me proporcionou excelentes momentos de leitura e uma espécie de revisitação a um dos meus personagens favoritos de sempre, o peculiar D. Rigoberto.

Uma narrativa em dois espaços alternados capítulo a capítulo. A história de Felícito Yanaqué, um verdadeiro herói, íntegro, corajoso, honesto, de aparência frágil mas na verdade um duro que não cede aos princípios em que sempre regeu a sua vida; é por isso discreto, reservado, inesperado, e mesmo surpreendente na forma como reage a sucessivas ameaças de um grupo de chantagistas que lhe tenta extorquir dinheiro de destruir o negócio que toda a vida lutou por construir e manter.

À medida que Felícito avança, ajudado pelas autoridades, na investigação de quem está por trás das ameaças, o leitor vai sendo verdadeiramente brindado com os capítulos dedicados a D. Rigoberto, esse expoente do hedonismo, dos prazeres carnais, intelectuais e, acima de tudo, mundanos. Continuam os jogos de prazer com a sua amada Lucrécia, assim como as confusões com Fonchito, sempre a encontrar novas formas de fazer perder a cabeça ao pai e à madrasta.

Estive praticamente todo o livro a pensar onde é que D. Rigoberto se iria cruzar com Félicito. Tão diferentes e geograficamente distantes, vivendo realidades tão díspares, cheguei a pensar que não haveria qualquer relação…e na verdade D. Rigoberto é de tal modo excêntrico e único que nem precisa de motivos para surgir, um personagem que o é mesmo sem palco, que existe perfeitamente só, e encontra lugar na história de qualquer herói (discreto ou não).

Mas o que mais guardo deste livro é a habilidade de Llosa de contar uma história. Ou melhor, de contar várias histórias, ao mesmo tempo, misturando diálogos de conversas actuais com situações passadas, saltando entre uma e outras com uma habilidade admirável e sem nunca deixar o leitor perdido entre acontecimentos.

Escrever bem é, sem dúvida, fruto de trabalho, prática, insistência, solidão. Mas quando se tem o dom, junta-se tudo como pura magia.

Sinopse

“Felícito Yanaqué é um homem de cinquenta anos, respeitado pela comunidade e proprietário de uma empresa de transportes que fundou e fez prosperar na cidade de Piura, no noroeste do Peru. Sem instrução, oriundo de uma família pobre e gestor cuidadoso dos seus bens, Felícito conquistou tudo a pulso, de uma forma tranquila, discreta e constante, atributos que se poderiam também aplicar à sua personalidade. Casado, com filhos já adultos, Felícito Yanaqué mantém uma amante de longa data, exuberante beleza da cidade. E também outra relação - não de natureza sexual - com Adelaida, uma vidente cujo conselho Felícito segue quase sempre, quer se trate de negócios ou de matéria puramente pessoal ou, mesmo, íntima.
Tudo corre bem na sua cidade; tudo normal. Só que Felícito Yanaqué começa a receber cartas anónimas de extorsão; e quando a ameaça de represálias passa à concretização, Yanaqué decide resistir a tudo isto sem apoio, estoica e discretamente. Como um herói.
Depois da atribuição do Prémio Nobel, do romance O Sonho do Celta ou de A Civilização do Espetáculo (conjunto de ensaios sobre o estado da cultura na atualidade), Mario Vargas Llosa regressa agora com um extraordinário e invulgar romance que relembra os cenários, os personagens e alguns dos temas dos seus livros fundadores - a coragem, o medo e a necessidade de resistir a novas formas de injustiça e de maldade.”

Quetzal, 2013

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 22:56
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Sábado, 29 de Dezembro de 2012

A Civilização do Espetáculo - Mario Vargas Llosa - Opinião

Quase uma semana após a conclusão da leitura de “A Civilização do Espetáculo”, é que me atrevo a tentar escrever algo que possa refletir o que senti ao lê-lo.

Receosa de não conseguir exprimir e partilhar o brilhantismo de Llosa, tentarei explicar o porquê deste ser, provavelmente, o melhor, ou dos melhores livros que li este ano.

Não escondo a minha predileção por este escritor, pelo que parto sempre para um livro dele com a certeza que me vai realizar como leitora. Neste caso, o tema, por me ser particularmente caro, deu-me um entusiasmo tal que as primeiras 100 páginas foram lidas de seguida já altas horas da noite, afastando qualquer hipótese de me deixar adormecer.

A cultura está em crise? Que género de crise? As pessoas não procuram cultura? Ou procuram o que acham que é cultura?

Muitas dúvidas e questões que ficam nas consciências de quem tem noção (como Llosa) de qual é o papel das iniciativas culturais na vida em sociedade. Este livro, direcionado para vários pontos culturais fulcrais, descreve uma verdadeira e total crise de valores e conceitos relacionados com a forma como a cultura se tornou um espetáculo, uma triste civilização de espetáculos fúteis, sensacionalistas e deprimentes.

Será Llosa um fundamentalista? Um exagerado? Estaremos todos, sem exceção, aos pés de uma sociedade de cordeirinhos num rebanho que aceita tudo o que lhes dão sem questionar? Que dizem que gostam porque toda a gente assim o faz?

Os livros ocupam grande parte deste ensaio. A forma como a vida útil de um livro o faz, atualmente, quase um objeto descartável, é alvo de uma crítica feroz mas construtiva por parte do autor. A sucessão de novidades, as edições em massa de lixo editorial promovido de forma enganosa estão a deformar o propósito enriquecedor dos livros. A partilha por empréstimo é quase inexistente, o consumo desenfreado chegou aos livros, que se vendem pela beleza das capas. Falo por mim, que durante bastante tempo me deixei “maravilhar” pela ”injeção” de novidades. Mais recentemente tenho parado um pouco para pensar e observar todos os livros mais antigos que comprei com gosto e prazer e que ainda estão na estante a aguardar a sua leitura. Deixei-me corromper por esta “Civilização do Espetáculo” doente e enganosa, mas acredito estar a tempo de me recuperar e voltar aos anos em que lia devagar e com mais gosto, saboreando livros bem escritos, lendo menos em quantidade mas atingindo mais em realização pessoal.

É feito um enquadramento, questionado o papel do governo na permissão e interessa nesta patética “Civilização do Espetáculo”. Claro que a busca cultural tem de partir do interesse de cada um, mas uma nação culturalmente doente, em que quem está ao leme descura e despreza o real conceito de cultura, não pode fazer surgir do nada o interesse por valores diferentes. À religião é também dedicada uma grande parte deste ensaio, dado que é, ainda hoje, uma influência fulcral na sociedade; confesso que foi a parte que menos me cativou, apesar de considerar as questões bem expostas e fundamentadas.

Llosa, como amante e defensor das artes é arrebatado na defesa dos seus ideais. Por vezes  cruel pois a cultura também não pode ser, a meu ver, obrigação. A distração e divertimento têm de existir, de marcar a diferença, de ser um caminho cativante e colorido nas vidas cinzentonas daqueles para quem, por exemplo, a profissão é um castigo. Deverá ser uma forma de esquecer tristezas e sonhar.

É um facto que cultura é seriedade. Atualmente não é considerada como tal. Mas a indústria do entretenimento não deverá, a meu ver, ser tão seriamente condenada. Numa época em que a humanidade é, na generalidade, triste, não devemos colocar em causa o poder de um filme ou série de televisão só porque não atinge os mais altos padrões culturais. Mas sim dar-lhe uma oportunidade se, por uns momentos, trouxer alguma liberdade a quem se sente preso pelas exigências da vida atual. As pessoas têm a liberdade de escolher, se apenas optam pelo que é fácil e fútil, isso se deve à crise de valores, mas muitas há que procuram, necessitam e vivem de cultura, da original, a que alimenta a alma, faz pensar questionar e crescer.

Valorizei muito as opiniões pessoais e a partilha de experiências de vida que Mario Vargas Llosa faz neste livro. Fez-me pensar e questionar, por vezes concordar e por vezes achar que ele já estava a ir longe de mais. Acima de tudo fez-me meditar sobre o meu lugar, onde estou e onde quero estar. Um livro que não me deixou indiferente, que me trouxe revolta e alegria, que me fez querer ser melhor.  

Sinopse

“A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afeta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, atua como mecanismo de distração e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio. Uma duríssima radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, pelo olhar inconformista de Mario Vargas Llosa.”

Quetzal, 2012

publicado por marcia às 13:49
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Domingo, 25 de Novembro de 2012

Os Cadernos de Dom Rigoberto - Mario Vargas Llosa - Opinião

Em “Os Cadernos de Dom Rigoberto” temos, de certa forma, uma continuação do “Elogio da Madrasta” que li recentemente. Os acontecimentos do passado condicionam a relação entre Dom Rigoberto e Dona Lucrécia, agora separados. Fonchito já não é vértice neste triângulo, assume mesmo uma postura ativa na reconciliação do pai e da madrasta.

À medida que se sucedem os “episódios” desta possível reunião, o leitor vai sendo agraciado com as fabulosas considerações, pensamentos e análises de Dom Rigoberto. Nos seus cadernos expõe temas tão diversos como a homossexualidade, as organizações de beneficência, as imposições sociais e políticas, a pressão profissional. Tudo é alvo do seu escrutínio pessoal e perspicácia, a sua ironia e humor são uma verdadeira dádiva, um dos muitos pontos reveladores do brilhantismo de Llosa que, mesmo que se esforce, não deve conseguir escrever mal.

Dom Rigoberto dedica-se aos livros e à arte de forma total, obtendo um prazer único da cultura, e de tudo o que lhe permite aprender e enriquecer a nível intelectual. Não se considerando intelectualmente superior, descreve sem rodeios que o ser humano pode escolher entre evoluir ou estagnar. A cultura é um ponto essencial, uma forma de liberdade e escape da opressão social e profissional, o conhecimento é sempre a forma pela qual o individuo “se desintoxica da espessa crosta de convencionalismos embrutecedores, vis rotinas.” (pág. 230)

Um esteta, um verdadeiro apreciador dos prazeres da vida, atribui ao sexo e ao desejo físico um patamar de importância elevada e cuidada, tendo sempre na “sua” Dona Lucrécia o único objeto de desejo. Monogâmico e sofredor pela separação, apenas na sua imaginação atinge picos, vivendo recordações das noites ardentes do seu casamento.

A vida de Dom Rigoberto está nos seus cadernos, a que recorre continuamente, meditando sobre o passado, expondo pontos de vista, escrevendo sobre o que gosta e sobre o que o atormenta. Mas é Dona Lucrécia o expoente máximo do prazer na sua vida. O ponto de onde tudo parte e onde tudo termina, o seu tudo e o seu nada. O desejo constante por ela eleva-lhe de tal modo a criatividade que vive a imaginação como se de realidade se tratasse. A mim aconteceu-me durante todo o livro considerar as suas divagações realidade, deixar-me levar e acreditar que os cenários criados pudessem estar fora dos seus cadernos.

Este é o livro onde provavelmente fiz mais marcações e retive frases, tal a forma como me identifiquei com Dom Rigoberto, uma espécie de cavaleiro branco da busca constante do conhecimento e da sabedoria. Um livro com passagens que me marcaram profundamente. A reler, pelo menos algumas partes.

“Um rebanho, como se sabe, é composto por gente sem voz própria e de esfíncter mais ou menos débil. É um facto comprovado, aliás, que, em tempos de confusão, o rebanho prefere a servidão à desordem. Daí que aqueles que agem como cabras não tenham líderes mas sim cabrões. E alguma coisa se nos deve ter pegado dessa espécie quando no humano rebanho é tão comum esse dirigente capaz de conduzir as massas até à beira do recife e, uma vez ali, fazê-las saltar para a água. Isto se não lhe ocorrer assolar uma civilização, que é uma coisa também bastante frequente.” (Pág. 119)

“(…)consegui encher o meu escritório de livros, gravuras e quadros que me couraçam contra a estupidez e a vulgaridade reinantes e formar um enclave de liberdade e fantasia onde , todos os dias, melhor dizendo todas as noites, consegui desintoxicar-me da espessa crosta de convencionalismos embrutecedores, vis rotinas, actividades castrantes e gregarizadas que você fabrica e das quais se alimenta, e viver, viver de verdade, ser eu mesmo, abrindo aos anjos e demónios que me habitam as portas gradeadas atrás das quais – por sua causa, sua – são obrigados a esconder-se o resto do dia.” (Pág. 230)

Sinopse

“”Tenho o feiticismo dos nomes, e o teu enleva-me e enlouquece-me. Rigoberto! É viril, é elegante, é brônzeo, é italiano. Quando o pronuncio, em voz baixa, corre-me uma cobrazinha pelas costas e gelam-se-me os calcanhares rosados que Deus (ou, se preferes, a Natureza, descrente) me deu. Rigoberto! Ridente cascata de águas transparentes. Rigoberto! Amarela alegria de pintassilgo a celebrar o sol. Onde estiveres, estou eu. Quietinha e apaixonada, eu aí.”

Mario Vargas Llosa ao criar em Os Cadernos de Dom Rigoberto um mundo de erotismo, sensualidade, desejo e paixão, transporta o leitor para todo um universo de sonho ousado e arrojado, criado pela imaginação fértil de um reservado corretor de seguros. Um livro que é a apologia perfeita do amor em estado puro.”

D. Quixote, 2010

publicado por marcia às 23:07
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

Elogio da Madrasta - Mario Vargas Llosa - Opinião

Não decido ler um livro por ter ou não ganho prémios. Até porque o processo de decisão da atribuição de prémios é bastante subjetivo. Já li livros de autores que ganharam o Prémio Nobel e não me identifiquei minimamente, não entendi que motivos tiveram para tal destaque. Não podemos gostar todos do mesmo, e como a atribuição de prémios literários não depende de mim, limito-me a ler o que gosto. E gosto de Mario Vargas Llosa. Gosto muito.

Gosto das descrições, da forma sublime como constrói frases tão belas, como conjuga palavras simples que se transformam em perfeição. Só li dois livros dele mas estou tão certa de que todos os outros me vão agradar, que desejo começar já outro livro e descobrir a beleza da sua escrita por toda a sua obra.

Estou encantada. De verdade. Maravilhada com uma narrativa tão simples e ao mesmo tempo intricada de detalhes deliciosos. Erotismo. Muito erotismo. Numa altura em qua anda tudo a ler livros sexualmente explícitos como se não houvesse amanhã, eu decidi-me a ler algo “erótico-literariamente” perfeito. Não devo maldizer livros que não li, mas desconfio de tanto romance sensual, sexual, hard-core, sadomasoquista, erótico e outros que tais que parecem estar a levar todos (principalmente mulheres) à loucura. À loucura de ler lixo.

Bom, eu recomendo o “Elogio da Madrasta” para quem se quiser divertir e brincar, mas acima de tudo imaginar, pois que um livro bem escrito dá essa margem ao leitor, dá espaço criativo para trabalhar na mente o que lê. Colocar ou não em prática já é da decisão de cada um…mas há pormenores deliciosos nas cenas de alcova entre D. Rigoberto e a sua D. Lucrécia. Há tentações, como o pequeno Fonchito, enteado ingénuo de Lucrécia que nutre pela madrasta um carinho que a entusiasma, até demais, criando um triângulo amoroso familiar estranho e talvez doentio.

E como nem tudo é o que parece, não se é tão ingénuo como Fonchito e todos os atos acabam por ter um objetivo. Assim é a natureza humana, desonesta e calculista. Um triângulo é um triângulo e mesmo com a saída de um elemento assim continuará a ser. Curiosos? Intrigados? Então há que ler…

Imperdíveis as magníficas sagas das abluções noturnas de D. Rigoberto, as suas preparações do corpo param o prazer marital. Cada dia da semana dedicado a uma zona do corpo, toda a atenção e deleite nos preparativos da descoberta dos detalhes mais íntimos do corpo da esposa. Entregue aos seus devaneios enquanto trata do nariz, dos dentes ou das axilas, deixava-se levar, ainda na casa de banho por pensamentos libidinosos que contrariava com determinação e graça, para se reservar por inteiro para o momento certo. Simplesmente brilhante.

Em alguns capítulos o autor descreve imagens de quadros que, imagino, sejam da sua preferência. Adapta as obras de arte ao “Elogio da Madrasta”, tece considerações e enredos interessantes. Em resumo, o puro prazer de ler.

Sinopse

“Lucrécia e dom Rigoberto vivem em constante felicidade. Ela, uma mulher que acaba de completar 40 anos, nada perdeu da sua elegância e sensualidade; ele, no segundo casamento, descobriu por fim os prazeres da vida conjugal. Juntos, crêem que nada pode afetar esse idílio, cheio de fantasias e de sexo. Alfonso, ou Fonchito, filho de dom Rigoberto, parece ser o único empecilho; ama demais sua mãe, Eloísa, para aceitar a chegada de uma madrasta. Mas até ele acaba por ser conquistado pelos encantos de dona Lucrécia. O amor do menino pela sua madrasta, entretanto, vai muito além do que se esperaria de uma criança, desenhando uma linha ténue entre a paixão e a inocência que mudará o destino de cada um deles. Elogio da Madrasta é a história de um universo dominado por um triângulo inquietante, que pouco a pouco envolve os leitores na rede de subtil perversidade que une, na plena satisfação dos seus desejos, a sensual Lucrécia, Rigoberto e o filho.”

D.Quixote, 2012

publicado por marcia às 00:53
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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa - Opinião

 

Deliciei-me com esta leitura. Para mim há poucas coisas melhores do que uma história bem contada. Esta é absolutamente divinal. Serão todos os livros de Mario Vargas Llosa assim? Vou querer descobrir.

A menina má desaparece e aparece na vida de Ricardo sempre da mesma forma inesperada. Ricardo ama-a e tudo faz por ela, esta paixão é como uma doença que o consome e lhe rouba a sanidade. A menina má volta em todos os capítulos, por mais voltas que o autor dê ao texto, e por muito que a ponha a correr mundo, ela acaba por regressar sempre, por aparecer sempre de forma inesperada ansiando pelo romântico Ricardito, com as suas deixas melosas a que ela chama de piroseiras.

A menina má abomina a pobreza, anseia por uma vida próspera sem as dificuldades que viveu na infância; constrói um percurso de mentiras e deixa de parte os seus próprios sentimentos com o objectivo de obter o que, para ela, representa a máxima felicidade: dinheiro. Ricardo tem, desde a infância, o sonho de viver em Paris. Do Peru para a Europa persegue esse seu sonho. É um ser humano simples e sincero, apaixonado desde os 15 anos pela menina má, deixa-se enredar na sua teia de todas as vezes que ela surge na sua vida!

Eu acho que a menina má também o ama, mas como poderá ela sucumbir e deixar-se levar pelos amores de um pobre borra-botas, como ela lhe chama? Mas chega a altura em que a menina má, de tantas trafulhices e mentiras inventar, não tem mais ninguém na vida. E é nas alturas de maior solidão e desespero que podemos ver quem são os verdadeiros amigos. À menina má só resta Ricardito, o piroso borra-botas, que lhe dedicou toda a sua vida, esteve com ela nos períodos em que ela o quis e suspirou por ela quando desaparecia por anos a fio. Ricardo salva-a sempre, ama-a de forma sincera e sofredora, só deseja tê-la ao seu lado.

Podem as pessoas mudar e recuperar-se? Aceitar e viver o amor conforme a vida lhes oferece? Ou insistem nas suas teorias de grandeza, dando sempre mais valor aos bens materiais do que aos sentimentos? A miséria na infância marca decerto os objectivos e percursos na idade adulta, mas não será já exagero voltar sempre as costas a um amor sincero, seguindo sempre o caminho da ganância? Se calhar as pessoas nunca mudam, a menina má tenta, consome-se, e acaba sempre por ceder à sua natureza. E a Ricardo, valeu a pena perder quase tudo por ela?

Este livro lança uma ou duas dúvidas, não mais do que isso, mas que pela sua profundidade nos fazem meditar sobe a natureza humana e sobre o que se leva deste caminho sinuoso e curto que é a vida.

Escrito de forma brilhante, este texto embalou-me por horas de leitura seguida sem pensar sequer em pausas; adorei e sinto-me cheia daquela felicidade que só um livro brilhante nos faz sentir. Concluí este leitura no dia do meu aniversário. É um presente que guardarei para sempre.

“Desejo-te – sussurrei-lhe ao ouvido, mordiscando-lhe a borda da orelha. – Estás mais bonita que nunca, peruaninha. Amo-te, desejo-te com toda a minha alma, com todo o meu corpo. Nestes quatro anos não fiz outra coisa senão sonhar contigo, amar-te e desejar-te. E Também amaldiçoar-te. Cada dia, cada noite, todos os dias.

Passado um momento, afastou-me com as suas mãos.

- Tu deves ser a última pessoa no mundo que ainda diz essas coisas às mulheres. – Sorria, divertida, olhando-me como um bicho raro. – Que piroseiras me dizes Ricardito!” (pág. 123)

Sinopse

“Qual o verdadeiro rosto do amor?
Ricardo vê cumprido, muito cedo na vida, o sonho que sempre alimentara de viver em Paris. Mas o reencontro com um amor da adolescência mudará tudo. Essa jovem, inconformista, aventureira, pragmática e inquieta, arrastá-lo-á para fora do estreito mundo das suas ambições.
Criando uma admirável tensão entre o cómico e o trágico, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para dar vida a uma história na qual o amor se nos revela indefinível, senhor de mil caras, tal como a menina má.
Paixão e distância, sorte e destino, dor e prazer... Qual é o verdadeiro rosto do amor?”

D. Quixote, 2010

publicado por marcia às 17:20
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