Segunda-feira, 24 de Julho de 2017

O Homem Domesticado - Nuno Gomes Garcia - Opinião

O Homem Domesticado.jpg

Foi com grande expectativa que comecei a ler O Homem Domesticado. Não só por ter gostado bastante do livro anterior do autor, O Dia em que o Sol se Apagou, mas porque a temática me interessa bastante.

Com linguagem mais simples, O Homem Domesticado, lê-se rapidamente. Confesso que a linguagem algo complexa do livro anterior me agradou muito. Mas percebo que um livro com uma temática distópica tenha de chegar ao leitor de forma diferente, mais realista e de acordo com a época em que se passa a acção.

Gosto de livros arriscados, e este tem uma componente de risco significativa. Vejamos, representa uma mudança de direcção em relação ao livro anterior, é arrojado, pois apesar de as histórias distópicas terem uma boa aceitação por parte dos leitores (pelo menos dos leitores que eu conheço), não há muitos autores portugueses que se aventurem por tais cenários.

Nuno Gomes Garcia sai de uma zona mais cómoda e arrisca (muito bem) numa história em que os homens são domesticados pelas mulheres. Eles fracos e frágeis, elas dominadoras, uma espécie de donas destes homens todos iguais, como que fabricados em série. Não há sexo, não há carinho, amor ou amizade. Há regras para tudo, que têm de ser criteriosamente respeitadas. Há, obviamente, o controlo característico de narrativas deste género.

Não sei até que ponto este livro pode sair prejudicado pela série The Handmaid’s Tale, baseado no livro de Margaret Atwood, dado que as semelhanças são óbvias, apesar de aqui os “servos” serem os homens. Se assim for, tenho pena, pois mais do que A História de uma Serva versão masculina, O Homem Domesticado tem uma amplitude diferente. A liberdade que é vedada aos homens, atinge aqui as mulheres de modo subtil, arrastando-as para uma escravatura diferente da dos homens, mas escravatura na mesma. Espero que os leitores lhe deem o benefício da dúvida antes de o rotularem como cópia invertida. Que não é.

A história tem um desenvolvimento interessante e inverso ao que se poderia supor, pois se nem sempre uma voz solitária consegue ser ouvida, poderá ser suficiente para faze ruir toda esta construção de sociedade? O pensamento e a liberdade, aqui de mãos dadas, poderão atacar as fragilidades desta estrutura? Como se reaprende a pensar? Ou perdeu-se tudo aquilo que entendemos como humanidade?

Um livro que pergunta mais do que responde, que levanta questões às quais não damos atenção suficiente. Não estaremos nós, nas nossas correrias, afazeres e compromissos, desviados cada vez mais do essencial? Se optarmos por continuar a adiar a reflexão e o pensamento, não estaremos a caminhar, de livre vontade, para a nossa própria distopia?

Leiam-no e pensem.

Sinopse

“Desde o tempo em que Marine alcançou o poder, dando início a uma nova era, a sociedade foi-se progressivamente desumanizando: os conceitos de amor e de amizade deixaram de fazer sentido, os prazeres são malvistos e o sexo está proibido pelo novo regime totalitário, até porque a reprodução passou a ser padronizada e desenvolvida artificialmente em laboratórios. 
As mulheres tornaram-se senhoras do mundo e submeteram os homens à condição de escravos - machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés.
A cidadã Francine Bonne é aconselhada pelas autoridades a escolher um segundo marido, depois de Pierre ter sido considerado um peso morto; mas desconhece que, ao trazer para casa um macho que foge ao cânone e cuja origem está envolta em mistério, a sua vida e a de Pierre sofrerão uma absoluta transformação. A ponto de o regime se sentir abalado com a possibilidade de um suposto retrocesso civilizacional…
Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva - tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflete de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade atual.”

Casa das Letras, 2017

publicado por marcia às 21:24
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Domingo, 23 de Julho de 2017

Eu Confesso - Jaume Cabré - Opinião

Euconfesso.jpg

Eu Confesso foi, sem dúvida, a minha melhor compra da Feira do Livro de Lisboa deste ano. Numa noite de passeio, sem expectativas de compras, passei pelo stand da Tinta-da-China durante a Hora H (sim, sempre a viver no limite).

Ora, o Eu Confesso com 50% de desconto? Quem é que o deixava lá? Eu não. Ainda não tinha lido Cabré, as referências eram (e são) fenomenais, e estava na minha lista há tempo suficiente para pegar nele sem hesitar. Mas ainda hesitei um pouco, fiz-me difícil com o livro, lamentei-me de estar a ficar sem espaço, dei mais uma voltinha, e voltei, fraca, para consumar o inevitável.

Despois desta introdução e depois da leitura, escrever sobre este livro é uma tarefa muito complicada. É tão complexo e sensacional que nem sei por onde começar. E mesmo que soubesse não saberia como o fazer. Cabré abusa de uma liberdade que eu não conhecia. Eu nem sequer sabia que era possível escrever assim, sem medo, sem regras (pelo menos as regras que eu sabia), desrespeitando espaço e tempo num jogo constante com o leitor em que este ganha. Ganha a leitura da sua vida se se souber (ou se deixar) entregar a Eu Confesso como se mais nada houvesse na vida.

Disseram-me que não é para todos os leitores. E não é. É preciso merecer ler esta história, fazer por merecer, deixar que se entranhe um pouco mais a cada página para ficar lá, no lugar dos livros da nossa vida.

Adriá lá ficará para sempre. Assim como esta história sobre conhecimento, sabedoria, amor, dor, guerra, morte. Espanha e o mundo. Presente e passado, muitos passados. E um violino.

Gostava de vos contar mais, de o descrever melhor (enfim, de o descrever simplesmente), mas não sei como. Por isso fica o desafio, não o deixem escapar.

Preparem-se e leiam-no. Merece todo o vosso empenho.

Sinopse

“Na Barcelona franquista, o pequeno Adrià cresce num amplo e sombrio apartamento; o pai está determinado a transformá-lo num humanista poliglota, a mãe, num violinista virtuoso. Brilhante, solitário e tímido, o rapaz procura satisfazer as ambições desmesuradas que depositam nele, até ao dia em a morte violenta e misteriosa do pai o leva a questionar a origem da fortuna familiar. Meio século depois, Adrià recorda a sua vida, indissociável do turbulento percurso de um violino excepcional. Da Inquisição ao nazismo, de Barcelona ao Vaticano, vai-se desvelando a cruel história europeia: uma cadeia de eventos iniciada na Idade Média, com repercussões trágicas até à actualidade.”

Tinta-da-China, 2016

Tradução de Maria João Teixeira Moreno

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Sexta-feira, 7 de Julho de 2017

A Última Rodada - Rui Miguel Fragas - Comunidade de Leitores da BMFF

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O último encontro da Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz foi especial. Não que não o sejam todos os encontros, não é isso, mas desta vez tivemos a presença do autor com direito a apresentação de livro e leitura de excertos. Foi um encontro com características mais formais que, pela exposição que implica e pela presença de público, inibiu à discussão e convívio habituais. Um evento diferente que, se por um lado refreou a discussão, por outro permitiu conhecer o trabalho de Rui Miguel Fragas nas palavras do próprio.

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Desconhecia o autor, mas quando soube que tinha sido escolhido um livro de contos para a leitura do mês fiquei bastante entusiasmada. Adoro contos, já o referi várias vezes, e poder ter “companhia” nesta leitura (que se revelou tão boa), deu-me vontade de “atacar” o livro assim que o fui buscar. Até porque a capa é lindíssima e o formato muito apelativo, apetece tê-lo constantemente nas mãos.

Li o livro devagar, descobrindo e saboreando as histórias de forte componente rural, com personagens enigmáticas, saídas de cenários fantásticos. Nem tudo o que parece é (fui bem enganada no último conto, como se era tão óbvio?), os bichos falam, há bruxas e um funil que… que merece ser descoberto. Gostei da escrita, vestida de poesia, das expressões que já não se usam e daquelas que eu nem conhecia. Gosto deste não ter medo das palavras, de as usar, todas, e encher de música aquelas que ficariam escondidas na maioria dos livros.

Imaginação e criatividade dão aos animais vidas de gente, com empregos, compromissos e pensamentos humanos. Há um vazio bom nas paisagens que me reconfortou como o silêncio da madrugada. É um livro que se abre como quem fecha uma porta para o mundo, colocando o sinal de “Não incomodar”. Gostei muito.

Poética Edições, Abril 2017

publicado por marcia às 00:08
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Quinta-feira, 15 de Junho de 2017

Granta Portugal 9 - Comer e Beber - Opinião

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Assino a Granta Portugal há um ano. Semestralmente têm vindo para a estante os exemplares lindíssimos, como de resto o são todos os livros da Tinta-da-China, desta publicação a que ouço chamar revista literária.

Não é o que habitualmente chamo de revista, por isso a Granta é, para mim, um livro. Um livro de histórias, como devem ser os livros, partilhadas a várias mãos. Gosto da variedade e da liberdade de não respeitar a ordem dos textos, de descobrir autores dos quais ainda não tinha lido nada, e de ficar com vontade de conhecer melhor.

A Granta 9 tem uma colecção de textos espectacular o que a torna tão gulosa como o tema, Comer e Beber. Marcaram-me especialmente os escritos de Ana Margarida de Carvalho (Última Ceia), de Sousa Jamba (Açúcar no sangue) e de Luís Afonso (Chez Hippolyte). A banda desenhada (Sleepwalk-Filipe Melo, Juan Canvia) no lugar do habitual ensaio fotográfico agradou-me muito e, não sendo possível manter os dois, pendo para a narrativa gráfica.

Para ler sem pressas quando apetece fugir por uma história.

Comam, bebam e leiam.

publicado por marcia às 22:40
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Domingo, 11 de Junho de 2017

A Oeste Nada de Novo - Erich Maria Remarque - Opinião

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Mais um que já estava na estante há algum tempo. Uma edição muito bem conseguida da Camões & Companhia (Saída de Emergência), com uma capa sóbria de que gosto muito. Comecei a leitura com algum receio quendo percebi que se trata de uma tradução da tradução inglesa e, honestamente, tive pena de não ter reparado nisso quando o comprei, mas li-o muito bem e considero-o uma daquelas leituras inesquecíveis.

O melhor de deixar um pouco de lado as novidades e pegar em livros escritos há mais tempo, é que surgem sempre algumas opiniões de quem já leu determinado livro há alguns anos. E o tempo, meus amigos, lá confere a qualidade dos melhores, deixando arrumados em outras gavetas as obras que não sobrevivem a esse escrutínio. Tudo isto para dizer que quero fazer mais leituras de livros que o tempo, e os leitores, salvam. Espero, ainda este ano, ter a oportunidade de descobrir outras obras intemporais.

E o que escrever sobre A Oeste Nada de Novo que não tenha sido já escrito ou dito? Não sei, nem sinto que tenha algo de novo a acrescentar, contudo conto-vos sobre a escrita maravilhosa, escorreita e fluída, como quem fala, com um quê de musicalidade, que poderá ser uma melodia de fundo. Gostei dos sentimentos, da forma como um livro sobre as trincheiras mergulha tão profundamente na alma humana, como num livro sobre a guerra sobressaem a amizade e a camaradagem, como esta leitura me encantou pela simplicidade e proporcionou a vontade de prosseguir virando páginas.

Gosto de livros assim, que parecem fáceis e podem ser lidos com destreza mesmo pelos leitores mais jovens, mas que, de alguma forma, encerram esse grande segredo só ao alcance de alguns autores: proporcionar um enorme prazer na leitura.

Sinopse

“Nas trincheiras, os rapazes começam a tombar em combate um a um... Em 1914, um professor chauvinista leva uma turma de estudantes alemães - jovens e idealistas - a alistar-se para a «guerra gloriosa». Todos se alistam, movidos pelo ardor e pelo patriotismo próprios da juventude. Porém, o seu desencanto começa durante a recruta brutal. Mais tarde, ao embarcarem no comboio de campanha que os levará à frente de combate, veem com os próprios olhos as feridas terríveis sofridas na linha da frente... É o seu primeiro vislumbre da realidade da guerra.”

Camões & Companhia, 2011

Tradução de Luís Miguel Coutinho

publicado por marcia às 13:41
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Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Um segredo bem guardado - Tatiana de Rosnay - Opinião

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Fiquei bastante desapontada com este livro, infelizmente. Depois da leitura de Chamava-se Sara, que adorei, estava muito expectante em relação a este Um Segredo bem guardado. É mais um para a série “gostava de ter gostado” e, talvez por isso, o tenha lido até ao fim, sempre à espera de uma aguardada reviravolta que me prendesse às páginas de modo compulsivo, como aconteceu com o livro anterior.

Mas tal não sucedeu e este é mais um exemplo em que o peso das expectativas não permite que se disfrute de uma leitura, assim como o peso de Chamava-se Sara, que foi sempre uma sombra comparativa da qual não me consegui libertar.

É difícil construir um enredo tão arrebatador como o do livro anterior, por todas as condicionantes que o cenário da II Guerra Mundial permite, assim como pela sua envolvência, pelo que é difícil não achar este livro bastante inferior. Apesar da aura de mistério e suspense que a sinopse promete, o “segredo bem guardado” é óbvio desde as primeiras páginas. Confesso que prossegui a leitura esperando que houvesse mais qualquer coisa para revelar, algo bombástico para abanar o livro. Mas não. O que tive à minha espera foi uma sucessão de dramas familiares e pessoais bastante banais.

Além de ter ficado bastante aquém do que prometia, os graves erros de tradução e revisão tornaram, em alguns trechos, a leitura dolorosa.

Sinopse

“O que sabemos realmente sobre aqueles que amamos?
Tudo começou num fim-de-semana junto ao mar. Antoine Rey pensava que tinha preparado a surpresa perfeita para a celebração dos 40 anos da irmã Mélanie: uma viagem à ilha de Noirmoutier, onde ambos tinham passado muitos Verões felizes na infância. Um lugar impregnado de recordações felizes mas também de memórias de pessoas queridas que partiram. O que Antoine não poderia imaginar é que o regresso à ilha teria consequências tão devastadoras. A beleza do lugar desperta em Mélanie memórias de um acontecimento perturbador ocorrido no último Verão que haviam passado na ilha.
Na viagem de regresso a Paris, Mélanie ganha finalmente coragem para contar ao irmão aquilo que sabe, mas é tal a comoção que perde o controlo do carro. O complexo segredo que Mélanie queria partilhar parece assim ficar sepultado para sempre. Mas, na verdade, os segredos de família regressam sempre. E podem ser explosivos. Simultaneamente história de amor, mistério, drama e comédia, Um Segredo Bem Guardado explora com sensualidade e delicadeza as relações entre irmãos, entre pais e filhos, entre amantes, resultando numa narrativa tão emocionante quanto reveladora."

Objectiva, 2012

Tradução de Teresa Machado

publicado por marcia às 13:17
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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Vozes de Chernobyl - Svetlana Alexievich

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Receio não ter palavras para descrever esta leitura. Mas ficarão sempre comigo as palavras de quem sobreviveu ao desastre de Chernobyl. Cru e impiedoso como a verdade que, mesmo escondida, emerge em livros como este. Svetlana Alexievich deixa que as vozes falem nas páginas deste livro, e eu considero que é nosso dever ouvi-las. Porque há demasiadas histórias que ficam por contar, e sobre Chernobyl há muito para saber.

Custou-me cada página. Não é ficção. Aconteceu. Leiam!

Aproveito para divulgar a tertúlia Elsinore, com Dulce Maria Cardoso, dedicada a este livro. É já no dia 14 de Junho pelas 21h00, no espaço 20|20 Editora, na Feira do Livro de Lisboa. Moderação de Ricardo Duarte.

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Sinopse

“Vozes de Chernobyl é a mais aclamada obra de Svetlana Alexievich, Premio Nobel de Literatura 2015, tida como o seu trabalho mais duro e impactante.
A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.
Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.”

Elsinore, 2016
Prefácio de Paulo Moura e tradução de Galina Mitrakhovich.

 

publicado por marcia às 23:57
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Domingo, 14 de Maio de 2017

Segredos Imorais - Brian Freeman - Opinião

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Por vezes é preciso parar antes de continuar. A ler, entenda-se.

Tenho lido alguns livros fortes. Que mexem com emoções, que exigem uma concentração apurada e espírito crítico alerta. Não me queixo, gosto disso. Na verdade, pensar, argumentar e discutir motivam-me bastante. Mas (e porque há sempre um mas) acontece precisar de um intervalo, de ler um livro como quem vê uma série ao domingo à tarde, de relaxar e desejar apenas e só um pouco de entretenimento.

Nessas alturas passeio os dedos pela estante e sei que me apetece um policial. Gosto do suspense e da dúvida, de tentar descobrir o rasto do assassino, de ler empolgada páginas e páginas de seguida (quanto a este último ponto já depende do policial).

Segredos Imorais satisfez amplamente este meu desejo de emoções fortes controladas. Tem clichés q.b. (também sabem bem), mistério e reviravoltas. E não adivinhei o assassino, o que é uma fabulosa mais-valia. Para saberem do que se trata leiam a sinopse abaixo, antes que eu escorregue em algum spoiler. Parece demasiado reveladora, mas não é tanto assim.

Um livro que cumpriu o seu objectivo.

Sinopse

“Segredos Imorais é um policial americano que marca a estreia de Brian Freeman na publicação. Já comparado a gurus do género como Harlan Coben (autor editado em Portugal pela Presença), Dennis Lehane e Michael Connelly, o autor arrebatou a crítica internacional e conquistou o aplauso de leitores no mundo inteiro. Com base num caso real de uma rapariga desaparecida no Minnesota, amplamente divulgado nos meios de comunicação social, Freeman criou uma obra que utiliza como tema a sedução, encarnada por uma variedade de casais. Rachel nunca conseguiu perdoar a mãe da morte do pai e quando esta se volta a casar engendra um plano para a polícia chegar à conclusão de que o padrasto a matara. O detective Stride entra em acção e devido à complexidade do caso vê-se forçado a rever todas as teorias especulativas para avançar com a investigação. Uma leitura policial, com os ingredientes clássicos do género mas que é também uma obra sobre pessoas.”

Editorial Presença, 2006

Tradução de Lucinda Santos Silva

publicado por marcia às 20:10
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Sábado, 6 de Maio de 2017

Canção Doce - Leïla Slimani - Opinião

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Canção Doce já circulava, na versão francesa original, pelas sessões da Roda dos Livros. Como não ficar ansiosa pela edição portuguesa perante os comentários avassaladores de leitoras cujas opiniões tanto estimo? Não domino o Francês, mas a tradução da Tânia Ganho é sempre uma garantia para os leitores. Obviamente que o livro veio cá para casa assim que saíu, e nem passou pela estante.

Duas crianças morrem ao cuidado da ama com quem desenvolveram uma relação de extrema afeição. Louise, a ama dedicada, é contratada quando Myriam, a mãe, decide voltar a trabalhar. Louise afeiçoa-se às crianças e os dois irmãos (Mila e Paul) retribuem o amor da ama numa relação bonita e feliz. Louise permite que os pais se dediquem incansavelmente às suas profissões exigentes, assegurando a harmonia do lar. Estimada por toda a família, a ama chega a acompanhá-los nas férias.

Como se passa de um cenário de felicidade e segurança para a ruptura provocada pela morte? Leïla Slimani escava nas aparências de felicidade e traz para a superfície os medos, anseios e solidões, dissecando-os como causas da degradação humana na sociedade actual.

O percurso de Louise é uma espiral descendente de racionalidade. O amor à família que a contrata evolui para uma obsessão tal que a sua vida fora da casa de Myriam e Paul se resume a esperar pelo momento do regresso. As suas rotinas são cruciais e o receio do vazio que a possibilidade de deixar de ser necessária implica, levam-na a actos descompensados e paranoicos.

Uma leitura aterradora que tive de dosear com ponderação, sob pena de mergulhar na angústia. Mais do que as palavras e a escrita sublime de Slimani, ficam as reflexões a que este livro me obrigou e o inevitável receio de pertencer à sociedade tão bem caracterizada pela autora, com laivos de assustadora realidade.

Louise mata as crianças? Porquê? Antes de lerem o livro pensem se querem mesmo saber.

Eu recomendo, claro.

Sinopse

“Mãe de duas crianças pequenas, Myriam decide retomar a actividade profissional num escritório de advogados, apesar das reticências do marido. Depois de um minucioso processo de selecção de uma ama, o casal escolhe Louise. A ama rapidamente conquista o coração dos pequenos Adam e Mila e a admiração dos pais, tornando-se uma figura imprescindível na casa da jovem família.
O que Myriam e Paul não suspeitam - ou não querem ver - é que a sua pequena família é o único vínculo de Louise à normalidade. Pouco a pouco, o afecto e a atenção vão dando lugar a uma interdependência sufocante, com o cerco a apertar a cada dia, até desembocar num drama irremediável.
Com um olhar incisivo sobre esta pequena família, Leila Slimani aponta o foco para um palco maior: a sociedade moderna, com as suas concepções de amor, educação e família, das relações de poder e dos preconceitos de classe. Com uma escrita cirúrgica e tensa, eivada de um lirismo enigmático, o mistério instala-se desde a primeira página, um mistério que é tanto sobre as razões do drama como o das profundezas insondáveis da alma humana.”
 

PRÉMIO GONCOURT 2016, o mais importante prémio literário francês.

Tradução de Tânia Ganho

publicado por marcia às 13:59
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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

A Construção do Vazio - Patrícia Reis - Opinião

A Construção do Vazio.jpg

Poucos são os livros que me proporcionam uma total queda na história. Habitualmente os meus sentidos estão atentos a várias coisas, como o vocabulário, figuras de estilo, ritmo e encadeamento da narrativa, construção de personagens. Contudo, neste caso, alheei-me dessas observações. Bebi a história de Sofia em choque, aterrada e completamente envolvida nas poderosas descrições.

Todas essas coisas que aprecio durante uma leitura foram de certa forma esquecidas aqui, não que não existam ou não mereçam o meu escrutínio (ao contrário), mas porque dei a tal queda (ou salto sem rede ou bungee jumping) em cheio na vida de Sofia, a menina-tesoura que me fez esquecer que estava a ler um livro. Vivi a história sem relativizar e sem questionar, aceitando a crueldade descrita e sofrendo (muito) com ela. Parando muitas vezes para respirar. A análise ficou para depois. Depois de fechar a última página, mas ainda com a voz de Sofia na cabeça.

Senti-me tão atordoada pela história que tive de a viver de modo intenso. Demasiado intenso talvez, pois vi-me completamente enredada nas dores da personagem e, principalmente, na sua infância aterradora, que a condicionou à total descrença na sua própria felicidade. Como é viver com a certeza de não ser merecedora daquilo a que todos aspiram? É essa a dura viagem que este livro oferece.

Meditando um pouco sobre tudo isto, dado que já li o livro há algum tempo, e esperando que este modo de “cair” não signifique um retrocesso no meu sentido crítico, e sabendo (tendo a certeza, vá) que a escrita da Patrícia Reis continua irrepreensível (acho que até melhorou), A Construção do Vazio só pode significar um outro patamar. Para a autora sem dúvida. Para mim, como leitora, de certeza.

Uma experiência inesquecível. Talvez o meu livro preferido de Patrícia Reis. Uma chapada na cara (várias na verdade).

Sinopse

“A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo. 
Será possível atenuar a dor? 
Como se resiste ao fantasma real da infância? 
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida? 
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final. 
Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus.”

D. Quixote, 2017

publicado por marcia às 11:47
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