Sábado, 16 de Janeiro de 2016

O Luto de Elias Gro - João Tordo - Opinião

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O Luto de Elias Gro é o terceiro livro que leio do João Tordo, contudo é o primeiro que me consegue verdadeiramente maravilhar. Não me vou alongar. Não vale a pena, pois não será suficiente. Das frases perfeitas, às palavras escolhidas com engenho, passando pela habilidade das descrições completas e muito belas, que me falaram repletas de emoção, e que eu fui recebendo com prazer e espanto, na calma de cada página lida (e por vezes relida), assimilando o estranho sentido da dor de um homem que conta tudo menos o seu nome.

Passagens sublimes sobre a solidão, sobre a necessidade de estar só, no silêncio, para ouvir o que tem de ser ouvido, no mais profundo de si.

Eu comecei este livro três vezes. Por ter um início tão belo, eu quis repetir o entusiasmo da descoberta, senti que seria muito especial e guardei-o o tempo que pude. Pegava-lhe de vez em quando e sorria com o sofrimento da procrastinação, com o adiamento, com o desejo, com a certeza (que tinha sem saber porquê) que o leria ininterruptamente pelas páginas que o tempo e a vida me deixassem. E foi assim mesmo que o li, com a entrega que este livro merece.

Termino este texto sentindo-me pequena. Sentindo que não produzi uma opinião válida, que não menciono lugares ou personagens, o como ou o porquê. E eu sou mesmo muito pequena ao pé deste livro. Mas no fim fiquei muito mais completa, porque senti um enriquecimento brutal como leitora depois de virar a última página.

“Mas eu entendo-o. A incómoda presença dos outros nas nossas vidas. Às vezes é uma chatice ter de os aturar. Não vale a pena negar, há dias em que acordamos para estarmos longe das pessoas.” (Pág. 68);

“Se os homens se definissem pelas suas profissões, não precisaríamos de nomes. Seríamos o engenheiro número trezentos e quinze e o padeiro seis milhões e meio. Basta que saibam que, dos vinte e dois aos quarenta anos, construí, na cidade, uma carreira de algum prestígio numa determinada profissão e que, a partir dos quarenta, abandonei a cidade e a carreira e fui viver para uma ilha ao largo de uma península, extensão de um continente que não era o meu.” (Pág. 78);

“Escrever mantém-me sóbrio e ajuda-me a preservar a confiança neste caminho de que vos falei. Um homem é refém dos seus segredos até os pronunciar em voz alta; depois, devolvendo-os a Deus numa oração ou numa litania dos aflitos, eles rapidamente se revelam como aquilo que verdadeiramente são: criaturas invertebradas e informes que se escondem atrás do Medo.” (Pág. 151);

“Prossegui pelo litoral enquanto a luz descobria a bainha do céu. Constatei que, embora no centro do meu peito existisse um buraco imenso, aquela liberdade dava-me prazer. Não tinha lugar aonde ir nem ninguém a quem prestar contas; não tinha casa nem família. A melancolia deixara de me incomodar, éramos velhos amigos e, a partir de certa altura, já nada se consertava. Pedalei durante algumas horas pela ilha. Ora a ritmo de uma marcha, ora esforçado numa ladeira; por vezes encontrava a tranquilidade de um terreno plano e deixava a bicicleta fazer o seu trabalho, aproveitando o embalo. Passei pelo farol, mas não me detive; era um lugar ensombrado, habitado pelos restos de uma civilização proscrita.” (Pág. 230);

Sinopse

“Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. 
A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar. 
O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor. 
O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.”

Companhia das Letras, 2015

Uma leitura Roda dos Livros - Livros em Movimento.

publicado por marcia às 16:34
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Sexta-feira, 6 de Junho de 2014

Biografia Involuntária dos Amantes - João Tordo - Opinião

 

Não me identifiquei com este livro, no entanto li-o com entusiasmo. É uma estranha contradição. Mais de quatrocentas páginas de percursos de personagens caracterizados pela melancolia e por um grande desencanto com a vida, com os quais não me identifico, mas não pude deixar de me envolver pela beleza da narrativa de João Tordo.

Admito que, para mim, o conteúdo é desinteressante, ou posso não ter conseguido atingir o verdadeiro objectivo da obsessão do narrador em ir juntando peças de vidas tão desapaixonadas, tendo ele próprio uma vida tão solitária e algo problemática. Mas é difícil quando o próprio, a poucas páginas do fim, tem também dificuldade em perceber o seu próprio esforço. “Talvez eu tenha ficado viciado, talvez não fosse capaz de parar”. Pág. 378.

Ficou pouco em mim da história, dos testemunhos das personagens e da pesquisa feita numa busca cega por vários pontos do mundo. Quando, agora, tento articular tudo na minha cabeça já não consigo, certamente a minha leitura, pautada pelo desinteresse por estas vidas desorganizadas foi perdendo o fio condutor, e nesta altura fica apenas a sensação estranha e descabida de me ter entregue a uma narrativa envolvente sob uma espécie de hipnose que apenas consigo justificar com uma escrita poderosa e brilhante. Leria mais quatrocentas páginas.

 “E a vida é, por definição, uma caminhada absurda cujo final é sempre idêntico. Por que razão não nos deixou Deus em paz, ou seja, inexistentes? Neste lógica incongruente, o Criador coloca-nos neste mundo à mercê de tudo o que é terreno, suculento e carnal, desafia-nos a experimentar e, no final, tira-nos tudo aquilo que nos deu. Reféns da teologia, somos uma piada de mau gosto; reféns do acaso, somos vítimas da ínfima possibilidade. Nesta miséria a que estamos votados, sentimo-nos incompletos e assaz melancólicos. A essa melancolia chamamos vida adulta.” (Pág. 94).

Sinopse

“Numa estrada adormecida da Galiza, dois homens atropelam um javali. A visão do animal morto na estrada levará um deles — Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano de olhos azuis inquietos — a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem — um professor universitário divorciado — irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris.
A viagem de descoberta começa com a leitura de um manuscrito da autoria da ex-mulher do mexicano, Teresa, que morreu há pouco tempo e marcou a vida do poeta como um ferro em brasa. O narrador não poderia adivinhar (porque nunca podemos saber as verdadeiras consequências dos nossos actos) que a leitura desse manuscrito teria o mesmo efeito sobre a sua vida.
As páginas escritas por Teresa revelam a sua adolescência no seio de uma família portuguesa contaminada pela desilusão: um pai ausente e alcoólico, um tio aventureiro e misterioso, uma mãe demasiado protectora. Mas o que ressalta com maior vivacidade daquelas páginas é o relato enternecedor do seu primeiro amor, ao mesmo tempo que começam a insinuar-se na sua vida realidades grotescas e brutais. Confrontado pela primeira vez com a suspeita dessa terrível possibilidade, Saldaña Paris mergulha numa depressão profunda. Determinado em libertar o amigo do poder corrosivo do mal, o nosso narrador compõe então, peça a peça, a biografia involuntária dos dois amantes. Uma biografia que passa pelo desvelar do passado, para que este não contamine irremediavelmente o futuro.”

Alfaguara, 2014

publicado por marcia às 20:10
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

João Tordo entre os Finalistas do Prémio Literário Europeu

João Tordo, com a edição francesa de O Bom Inverno (Le Bon Hiver), traduzido por Dominique Nedellec e publicado pela Actes Sud, é o único escritor português presente entre os finalistas da 6.ª Edição do Prémio Literário Europeu, cujo vencedor será anunciado, em Bruxelas, no próximo dia 5 de Dezembro.

Editado pela Dom Quixote em Agosto de 2011, O Bom Inverno, actualmente na 4.ª Edição, conta-nos a história de um narrador frustrado e hipocondríaco que se desloca a Budapeste, Hungria, onde acaba por conhecer um escritor italiano mais jovem, mais enérgico e muito pouco sensato, que o convence a ir com ele até Sabaudia, em Itália, onde o famoso produtor de cinema Dom Metzger reúne um leque de convidados excêntricos numa casa escondida no meio de um bosque.

Neste romance absorvente e magnificamente narrado, com alguns dos melhores diálogos da literatura portuguesa, João Tordo coloca a sua arte ao serviço de uma história carregada de suspense, em que o amor e a literatura se misturam com sexo, crime e metafísica.

Para além de O Bom Inverno (Le Bon Hiver), a Actes Sud publicou, de João Tordo, o romance As Três Vidas (Le Domaine Du Temps)

publicado por marcia às 01:17
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

O Bom Inverno - João Tordo - Opinião

 

“O Bom Inverno” foi uma aquisição inesperada mas uma leitura ansiada. Desde que foi editado que o “burburinho” em volta deste livro me tem vindo a aguçar a curiosidade; várias opiniões positivas recolhidas, não só deste título, como também de “As 3 Vidas”, fizeram com que tivesse imensa vontade de conhecer este autor.

“O Bom Inverno” não me surpreendeu. Nem podia, pois a fasquia já estava demasiado elevada. Devo dizer que correspondeu às minhas expectativas: uma escrita densa mas rica, inovadora e envolvente que nos prende e consome página a página.

João Tordo tem de facto o dom da escrita, a sabedoria de jogar com as palavras e com as frases. Confesso que o argumento deste livro não é de todo o género que mais aprecio, trata-se de uma história negra de perseguições e mortes, mas escrita de tal forma brilhante que me encantou.

Uma excelente descrição das personagens que vão surgindo á medida que a acção se desenrola, com os detalhes das suas personalidades e por vezes manias. Ficamos a conhecer um grupo de pessoas que se vê isolado numa casa de campo em Itália, à mercê de um justiceiro que decide fazer justiça pelas próprias mãos pelo assassinato do proprietário da dita casa. Todos são suspeitos. Mas o culpado estará neste grupo? Um desenrolar vertiginoso, repleto de surpresas e sobretudo com uma excelente caracterização da natureza humana.

Sinopse 

“Quando o narrador, um escritor prematuramente frustrado e hipocondríaco, viaja até Budapeste para um encontro literário, está longe de imaginar até onde a literatura o pode levar. Coxo, portador de uma bengala, e planeando uma viagem rápida e sem contratempos, acaba por conhecer Vincenzo Gentile, um escritor italiano mais jovem, mais enérgico, e muito pouco sensato, que o convence a ir da Hungria até Itália, onde um famoso produtor de cinema tem uma casa de província no meio de um bosque, escondida de olhares curiosos, e onde passa a temporada de Verão à qual chama, enigmaticamente, de O Bom Inverno. O produtor, Don Metzger, tem duas obsessões: cinema e balões de ar quente. Entre personagens inusitadas, estranhos acontecimentos, e um corpo que o atraiçoa constantemente, o narrador apercebe-se que em casa de Metzger as coisas não são bem o que parecem. Depois de uma noite agitada, aquilo que podia parecer uma comédia transforma-se em tragédia: Metzger é encontrado morto no seu próprio lago. Porém, cada um dos doze presentes tem uma versão diferente dos acontecimentos. Andrés Bosco, um catalão enorme e ameaçador, que constrói os balões de ar quente de Metzger, toma nas suas mãos a tarefa de descobrir o culpado e isola os presentes na casa do bosque. Assustadas, frágeis, e egoístas, as personagens começam a desabar, atraiçoando-se e acusando-se mutuamente, sob a influência do carismático e perigoso Bosco, que desaparece para o interior do bosque, dando início a um cerco. E, um a um, os protagonistas vão ser confrontados com os seus piores medos, num pesadelo assassino que parece só poder terminar quando não sobrar ninguém para contar a história.”

Dom Quixote, 2010

publicado por marcia às 23:52
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