Domingo, 19 de Outubro de 2014

Stoner - John Williams - Opinião

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Assim de repente nada de especial. Se calhar um bocado chato para alguns, um livro sobre a vida académica de um tal de William Stoner, de quem nunca se ouviu falar. A publicidade e divulgação de “Stoner” deixou-me atenta, até porque há citações difíceis de ignorar: “É uma coisa ainda mais rara do que um grande romance - é o romance perfeito, tão bem contado, tão bem escrito, tão comovente que nos corta a respiração.” (New York Times)

Algo me disse que seria um livro candidato a “O Livro”. Não encontrei ainda o livro da minha vida, mas com Stoner percorri mais uns passos do caminho.

Escrito na década de sessenta e esquecido até agora, “Stoner” renasce numa época de boom editorial, em que é difícil (ou mesmo impossível) acompanhar tudo o que sai para o mercado diariamente. Acho estranho mas fico feliz. Estranhamente feliz por um livro tão simples brilhar neste caos de publicações “a martelo”. Uma escrita cuidada e bonita, sem artifícios desnecessários, que me preencheu e alimentou uma fome de algo diferente.

Uma leitura sentimental, pois quem não entender William, quem não se emocionar e identificar com as suas descobertas, terá apenas uma sucessão de palavras por companhia ao longo de duzentas a sessenta páginas. A mim disse-me muito. A forma quase acidental como um rapaz do campo vai para a Universidade e um dia descobre a Literatura, acontece de modo tão absurdo que é genial. O inesperado apanha os sonhadores de surpresa, neste caso os que sonham maioritariamente com livros.

Calado. Observador. Trabalhador rural quando jovem, as tarefas mecânicas fazem-no o mais improvável académico. Uma vida familiar vazia, o típico “agir sem pensar” e “pertencer ao rebanho”. Um casamento sem sentido alimenta a frustração e a infelicidade. Stoner não sabe reagir à vida, ela passa por ele numa sucessão de erros. Um ambiente soturno que os anos não melhoram, até agrava. Está mergulhado em solidão e tristeza. O ambiente ideal para que a pequena luz da sua vida brilhe ainda com mais força. Ler, estudar, aprender e ensinar são as suas razões para seguir em frente. É feliz no seu escritório onde pode passar todas as horas do dia isolado do que não entende e lhe provoca dor.

Um tipo esquisito a dar para o eremita. Um estudioso que precisa de se entregar ao trabalho. Um homem sem referências à procura do seu meio. Cada leitor verá Stoner de forma diferente. Eu vejo-o como um ser humano que se entrega sem reservas ao que o faz feliz. Pouco se aproveita da sua vida, o que faz com que o seu amor incondicional aos livros e a sede de saber se tornem um refúgio especial e único. À medida que o falhanço contamina a sua existência, a vocação, que uma vez descoberta nunca abandona, dita o seu percurso. O percurso que conta.

Excelente. Recomendo sem reservas.

“Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mão grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, de capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitadas, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.” Pág. 18;

“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.” Pág. 28;

“Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria… esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho.” Pág. 104;

Sinopse

“Romance publicado em 1965, caído no esquecimento. Tal como o seu autor, John Williams - também ele um obscuro professor americano, de uma obscura universidade. 
Passados quase 50 anos, o mesmo amor à literatura que movia a personagem principal levou a que uma escritora, Anna Gavalda, traduzisse o livro perdido. Outras edições se seguiram, em vários países da Europa. E em 2013, quando os leitores da livraria britânica Waterstones foram chamados a eleger o melhor livro do ano, escolheram uma relíquia. 
Julian Barnes, Ian McEwan, Bret Easton Ellis, entre muitos outros escritores, juntaram-se ao coro e resgataram a obra, repetindo por outras palavras a síntese do jornalista Bryan Appleyard: "É o melhor romance que ninguém leu". Porque é que um romance tão emocionalmente exigente renasce das cinzas e se torna num espontâneo sucesso comercial nas mais diferentes latitudes? A resposta está no livro. Na era da híper comunicação, Stoner devolve-nos o sentido de intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta, partilhamos com ele a devoção à literatura, revemo-nos nos seus fracassos; sabendo que todo o desapontamento e solidão são relativos - se tivermos um livro a que nos agarrar.”

D. Quixote, 2014

publicado por marcia às 01:15
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