Sábado, 6 de Maio de 2017

Canção Doce - Leïla Slimani - Opinião

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Canção Doce já circulava, na versão francesa original, pelas sessões da Roda dos Livros. Como não ficar ansiosa pela edição portuguesa perante os comentários avassaladores de leitoras cujas opiniões tanto estimo? Não domino o Francês, mas a tradução da Tânia Ganho é sempre uma garantia para os leitores. Obviamente que o livro veio cá para casa assim que saíu, e nem passou pela estante.

Duas crianças morrem ao cuidado da ama com quem desenvolveram uma relação de extrema afeição. Louise, a ama dedicada, é contratada quando Myriam, a mãe, decide voltar a trabalhar. Louise afeiçoa-se às crianças e os dois irmãos (Mila e Paul) retribuem o amor da ama numa relação bonita e feliz. Louise permite que os pais se dediquem incansavelmente às suas profissões exigentes, assegurando a harmonia do lar. Estimada por toda a família, a ama chega a acompanhá-los nas férias.

Como se passa de um cenário de felicidade e segurança para a ruptura provocada pela morte? Leïla Slimani escava nas aparências de felicidade e traz para a superfície os medos, anseios e solidões, dissecando-os como causas da degradação humana na sociedade actual.

O percurso de Louise é uma espiral descendente de racionalidade. O amor à família que a contrata evolui para uma obsessão tal que a sua vida fora da casa de Myriam e Paul se resume a esperar pelo momento do regresso. As suas rotinas são cruciais e o receio do vazio que a possibilidade de deixar de ser necessária implica, levam-na a actos descompensados e paranoicos.

Uma leitura aterradora que tive de dosear com ponderação, sob pena de mergulhar na angústia. Mais do que as palavras e a escrita sublime de Slimani, ficam as reflexões a que este livro me obrigou e o inevitável receio de pertencer à sociedade tão bem caracterizada pela autora, com laivos de assustadora realidade.

Louise mata as crianças? Porquê? Antes de lerem o livro pensem se querem mesmo saber.

Eu recomendo, claro.

Sinopse

“Mãe de duas crianças pequenas, Myriam decide retomar a actividade profissional num escritório de advogados, apesar das reticências do marido. Depois de um minucioso processo de selecção de uma ama, o casal escolhe Louise. A ama rapidamente conquista o coração dos pequenos Adam e Mila e a admiração dos pais, tornando-se uma figura imprescindível na casa da jovem família.
O que Myriam e Paul não suspeitam - ou não querem ver - é que a sua pequena família é o único vínculo de Louise à normalidade. Pouco a pouco, o afecto e a atenção vão dando lugar a uma interdependência sufocante, com o cerco a apertar a cada dia, até desembocar num drama irremediável.
Com um olhar incisivo sobre esta pequena família, Leila Slimani aponta o foco para um palco maior: a sociedade moderna, com as suas concepções de amor, educação e família, das relações de poder e dos preconceitos de classe. Com uma escrita cirúrgica e tensa, eivada de um lirismo enigmático, o mistério instala-se desde a primeira página, um mistério que é tanto sobre as razões do drama como o das profundezas insondáveis da alma humana.”
 

PRÉMIO GONCOURT 2016, o mais importante prémio literário francês.

Tradução de Tânia Ganho

publicado por marcia às 13:59
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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

A Construção do Vazio - Patrícia Reis - Opinião

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Poucos são os livros que me proporcionam uma total queda na história. Habitualmente os meus sentidos estão atentos a várias coisas, como o vocabulário, figuras de estilo, ritmo e encadeamento da narrativa, construção de personagens. Contudo, neste caso, alheei-me dessas observações. Bebi a história de Sofia em choque, aterrada e completamente envolvida nas poderosas descrições.

Todas essas coisas que aprecio durante uma leitura foram de certa forma esquecidas aqui, não que não existam ou não mereçam o meu escrutínio (ao contrário), mas porque dei a tal queda (ou salto sem rede ou bungee jumping) em cheio na vida de Sofia, a menina-tesoura que me fez esquecer que estava a ler um livro. Vivi a história sem relativizar e sem questionar, aceitando a crueldade descrita e sofrendo (muito) com ela. Parando muitas vezes para respirar. A análise ficou para depois. Depois de fechar a última página, mas ainda com a voz de Sofia na cabeça.

Senti-me tão atordoada pela história que tive de a viver de modo intenso. Demasiado intenso talvez, pois vi-me completamente enredada nas dores da personagem e, principalmente, na sua infância aterradora, que a condicionou à total descrença na sua própria felicidade. Como é viver com a certeza de não ser merecedora daquilo a que todos aspiram? É essa a dura viagem que este livro oferece.

Meditando um pouco sobre tudo isto, dado que já li o livro há algum tempo, e esperando que este modo de “cair” não signifique um retrocesso no meu sentido crítico, e sabendo (tendo a certeza, vá) que a escrita da Patrícia Reis continua irrepreensível (acho que até melhorou), A Construção do Vazio só pode significar um outro patamar. Para a autora sem dúvida. Para mim, como leitora, de certeza.

Uma experiência inesquecível. Talvez o meu livro preferido de Patrícia Reis. Uma chapada na cara (várias na verdade).

Sinopse

“A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo. 
Será possível atenuar a dor? 
Como se resiste ao fantasma real da infância? 
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida? 
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final. 
Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus.”

D. Quixote, 2017

publicado por marcia às 11:47
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Terça-feira, 25 de Abril de 2017

O Ano da Dançarina - Carla M. Soares - Opinião

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De todos os livros da Carla M. Soares (e eu li todos os que estão publicados) este é, sem dúvida, o meu preferido. Há livros assim, que mandam na minha vontade logo na primeira página, que não me saem da cabeça durante as horas que estamos afastados, que me deixam com saudades de voltar à leitura, de me envolver mais e mais na história e nas personagens.

O Ano da Dançarina é um romance delicioso que se lê com ritmo e alguma compulsão. A escrita da autora continua fluída e cuidada, tendo adquirido bastante segurança que se nota em alguns trechos mais destemidos. Nota-se que a pesquisa histórica foi intensa, mas nunca senti que a informação foi colocada “à martelada” (e é muita informação), mas antes perfeitamente doseada na trama com a ajuda de personagens bem estruturadas.

Quem dera só ler livros assim, com gosto e vontade de galopar pelos parágrafos. E ficar triste por chegar à última página.

Gostei dos detalhes, das descrições das ruas na Lisboa de 1918, dos locais, do vestuário, do enquadramento social e político, de ver surgir em cada personagem uma personalidade influenciada pelo meio, de conhecer os Lopes Moreira, no seu estatuto privilegiado, contudo terra-a-terra, de sentir as dores da guerra em quem nela participou, bem como as ramificações da perda em quem está próximo. Gostei de ler a dor de quem é arrasado por uma epidemia, bem como pelos que assistem com o sofrimento da impotência. Chegaram até mim as amizades, as inimizades, a fúria, a paixão, o amor.

Poucos são os livros que convidam o leitor a uma tão intensa possibilidade de construir, de imaginar e sonhar e, sou honesta, gostava que todas as minhas leituras fossem assim, tão amplas e satisfatórias.

Gostei muito e convido-vos a descobrir a Dançarina, que não é exactamente o que parece.

Sinopse

“No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política. 
No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista. 
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.”

Marcador, 2017

publicado por marcia às 12:53
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Sexta-feira, 14 de Abril de 2017

Rapariga em Guerra - Sara Novic - Opinião

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Impressionou-me. Sim, é o que me fazem alguns livros, normalmente aqueles que não consigo largar desde que abro a primeira página. Foi o que aconteceu com Rapariga em Guerra, que li rapidamente, envolvida pela história de uma menina de dez anos que, na Croácia, perdeu a infância para a guerra. Na verdade Ana perdeu muito mais do que a infância, mas não são esses anos mágicos uma perda já demasiado cruel?

Uma escrita simples e envolvente como a meninice, em que embrenhei com prazer e me apresentou uma mudança brusca na realidade de Ana, dos pais, da irmã bebé e dos amigos mais próximos. Há um encanto cruel nos acontecimentos sob o olhar perspicaz de uma criança, na forma como os raids aéreos se tornam mais uma peça da rotina, e de como as brincadeiras se adaptam às circunstâncias. A escassez de alimentos e a proliferação do ódio são realidades que Ana não compreende e, quando sente o verdadeiro poder do ódio, aquele que sustenta esta guerra, deixa de ser menina.

Rapariga em Guerra é, para mim, um livro sobre o poder das memórias. É sobre a forma como o que Ana viveu a acompanha sempre, e lhe condiciona as emoções. Porque há acontecimentos que marcam e a partir dos quais nada fica igual, e nasce uma dor que os anos vão esbatendo, mas que renasce como se se voltasse a premir um gatilho.

Há passados que estarão sempre na sombra de quem os viveu, mas conseguirá Ana vencer os fantasmas?

Muito bom. Recomendo sem reservas. E convido-vos para participar na tertúlia sobre este livro e A Serpente do Essex, na próxima quinta-feira, dia 20 de Abril.

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 Sinopse

“Uma saga de guerra, um relato da passagem à idade adulta, uma história de amor e de memória, Rapariga em Guerra percorre todas estas facetas e revela-se um romance de estreia ao mesmo tempo perturbador e cheio de esperança, escrito com a força da verdade.
Zagreb, 1991. Ana Juric é uma menina de dez anos com um espírito descontraído, que vive com a sua família na capital da Croácia. Mas, nesse ano, a Jugoslávia é abalada pela guerra civil, destruindo a infância idílica de Ana. A paz do dia a dia é manchada pelo racionamento, pelos constantes raids aéreos e os jogos de futebol são substituídos pelo fogo das armas. Os vizinhos começam a desconfiar uns dos outros e a sensação de segurança começa a desvanecer-se. Quando a guerra lhe bate à porta, Ana tem de encontrar um novo caminho num mundo perigoso.
Nova Iorque, 2001. Ana é agora uma estudante universitária em Manhattan. Apesar de todas as tentativas para deixar o passado para trás, não consegue escapar às recordações de guerra e aos segredos que guarda até dos que lhe são mais próximos. Perseguida pelos acontecimentos que lhe roubaram a família para sempre, regressa à Croácia depois
de uma década de ausência, na esperança de fazer as pazes com o lugar a que um dia chamou casa. Enquanto enfrenta o passado, procura reconciliar-se com a história difícil do seu país e com os acontecimentos que lhe interromperam a infância, há tantos anos.
Avançando e recuando no tempo, este livro é um retrato franco e generoso de um país devastado pela guerra, mostrando-nos, com uma escrita brilhante, a impossibilidade de separar a história de um país e a história do indivíduo. 
Sara Novic revela destemidamente o impacto da guerra numa menina e o seu legado em todos nós. É a estreia de uma escritora que olhou para o passado recente e encontrou uma história que ressoa ainda hoje.”

Minotauro, 2017

Tradução de Rita Carvalho e Guerra

publicado por marcia às 19:28
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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

O Leitor do Comboio - Jean-Paul Didierlaurent - Opinião

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Ler no comboio (ou em qualquer local) é perfeitamente normal, na verdade é essencial, para quem gosta de livros.

Guylain Vignolles lê em voz alta, todos os dias, durante o percurso de comboio. As suas leituras têm a particularidade de não terem qualquer seguimento, são textos avulsos sem ligação que vai lendo sentado sempre no mesmo lugar, o banco solitário e desdobrável no fim dos outros lugares. Guylain foi-se tornando, à medida que eu avançava na leitura, uma espécie de herói. Talvez pela sua simplicidade ou pela forma como encara o dia a dia, ou ainda pelos motivos das suas atitudes. São muitas as analogias que esta narrativa tece com a realidade profissional de uma grande maioria das pessoas, desde a sensação de vazio, passando pela falta de realização profissional e, claro, a dificuldade de se relacionar com as chefias e com os colegas de trabalho, devido ao constante acotovelar para se ser o melhor (mesmo que isso signifique ser muito pior pessoa) aos olhos de quem manda.

Uma escrita simples, mas que toca no cerne das questões, que me deliciou ao mesmo tempo que me ía acordando para os sentimentos mais pessoais de Guylain, tantas vezes semelhantes aos meus, na verdade penso que semelhantes a qualquer um de nós.

Guylain trabalha numa fábrica que destrói livros. O seu acto de rebeldia é salvar algumas páginas por dia, que lê em voz alta no comboio. Essas leituras proporcionam-lhe um caminho novo na sua vida solitária, que, até então apenas partilhava com um peixinho de aquário. E um dia (porque há sempre um dia que na vida e nas histórias muda tudo) encontra um objecto que lhe proporciona outras leituras, outras descobertas, e um caminho sem volta na solidão. Porque a verdade é que estamos todos cada vez mais sós, e parece que é preciso que aconteça algo inesperado ou surpreendente para encarreirarmos no caminho essencial das ligações humanas.

O Leitor do Comboio mostra, com ternura e simplicidade, que, se calhar, não estamos no caminho certo.

Gostei bastante.

Sinopse

“O poder dos livros através da vida das pessoas que eles salvam. Uma obra que é um hino à literatura, às pessoas comuns e à magia do quotidiano.
Jean-Paul Didier Laurent é um contador de histórias nato. Neste romance, conhecemos Guylain Vignolles, um jovem solteiro, que leva uma existência monótona e solitária, contrariada apenas pelas leituras que faz em voz alta, todos os dias, no comboio das 6h27 para Paris.
A rotina sensaborona do protagonista desta história muda radicalmente no dia em que, por mero acaso, do banquinho rebatível da carruagem salta uma pendrive que contém o diário de Julie, empregada de limpeza das casas de banho num centro comercial e uma solitária como ele… Esses textos vão fazê-lo pintar o seu mundo de outras cores e escrever uma nova história para a sua vida.
O Leitor do Comboio revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que as personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia quotidiana. Herdeiro da escrita do japonês Haruki Murakami, dotado de uma fina ironia que faz lembrar Boris Vian, Jean-Paul Didierlaurent demonstra ser um contador de histórias nato.”

Clube do Autor, 2017

Tradução de Inês Castro

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 22:36
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Domingo, 9 de Abril de 2017

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao - Junot Días - Leitura Conjunta - Opinião

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Apesar da leitura ser uma actividade solitária, a partilha do que se leu exige que se deixe a solidão de lado. Ter um blogue aproximou-me de outros leitores bloggers, pessoas que, como eu, fazem da leitura, não só um passatempo preferido, como essencial.

E por isso esta leitura foi feita a três. Posso dizer que li a Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao com a Ana e a Isaura, companheiras da blogosfera e, agora, parceiras de leituras conjuntas. Sim, porque espero que esta tenha sido a primeira de muitas.

Foi bom ir trocando ideias à medida que as páginas passavam, se bem que, confesso, fui a mais lenta. Já as minhas companheiras tinham terminado, ainda estava eu entregue à narrativa de Junot Días. E muito bem entregue, pois o livro é espetacular. Assombroso, vá.

Curiosamente já lhe tinha pegado há uns tempos. Mas por alguma razão (que agora não consigo conceber) deixei-o de lado ao fim de umas cinquenta páginas. Queria voltar a ele, principalmente depois de ler os Contos do autor, que me deixaram impressionada com a qualidade da escrita. E assim, acabei por ser eu a sugerir este livro para a nossa primeira leitura conjunta, porque sabia que a Isaura também o tinha. À Ana a sugestão também agradou e chegámos ao fim desta aventura muito satisfeitas com o livro escolhido. Vamos lá ver se da próxima vez encontramos um título que provoque opiniões opostas para aumentar a discussão.

De qualquer modo resta-me dizer que esta experiência foi positiva e enriquecedora, que adoro a escrita crua, impiedosa e por vezes até dolorosa de Díaz. Foi uma profunda viagem à realidade social e política da República Dominicana durante o último século, um passeio para conhecer Oscar, as suas raízes familiares e o seu temperamento peculiar. E foi bom rever Yunior. Deviam conhecê-lo. Atrevam-se!

Sinopse

“Oscar Wao é enorme. E dominicano.
Gozado pelos colegas e isolado do mundo, sonha com raparigas e aventuras extraordinárias, sente vergonha por não estar à altura da reputação viril dos machos dominicanos, mas não consegue mais do que uma vida de desilusões.
Para Oscar, o drama é um fado demasiado familiar.
A sua breve e assombrosa vida está marcada a ferro e fogo por uma maldição ancestral, o fukú, que, nascido em Santo Domingo, é transmitido de geração em geração, como uma semente ruim.
Alimentada pela sorte dos seus antepassados, quebrados pela tortura, pela prisão, pelo exílio e pelo amor impossível, a história de Oscar escreve-se fulgurante e catastrófica, e integra a grande História, a da ditadura de Trujillo, a da diáspora dominicana nos Estados Unidos e a das promessas incumpridas do Sonho Americano.”

Porto Editora, 2009

Tradução de Victor Cabral

publicado por marcia às 22:32
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Domingo, 2 de Abril de 2017

A verdade sobre o caso Harry Quebert - Joël Dicker - Opinião

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Tive uns dias livres e já algum tempo que andava com vontade de ler um policial, nada de literariamente exigente, apenas entretenimento para uns dias de férias. A verdade sobre o caso Harry Quebert reúne um considerável número de opiniões muito favoráveis, foi-me amplamente recomendado, e tem suficiente número de páginas para não me deixar “pendurada” antes do tempo. Pereceu-me uma boa opção, além de ler uma leitura muitas vezes adiada.

Infelizmente o livro não esteve à altura das minhas expectativas. Seria bom que fosse apenas porque esperava por algo espetacular e a leitura tivesse ficado aquém, sendo um “problema” de expectativas demasiado elevadas, mas a verdade é que a maior parte do livro me pareceu uma sucessão de factos pouco credíveis, que me chegou a entediar. Confesso que, na recta final, fiquei verdadeiramente agarrada aos desenvolvimentos e algumas coisas acabaram por fazer sentido, não sendo despropositado que algumas coisas não batessem certo, contudo, para mim, não é suficiente que, num livro de mais de seiscentas páginas, apenas cem sejam entusiasmantes.

É um livro que não acrescenta nada de novo, vive de constantes twists e alimenta o leitor com (demasiadas) reviravoltas. A partir de certa altura é espectável que nada seja o que parece e que, ao virar da página, tudo mude radicalmente, o que acaba por ser cansativo e pouco surpreendente. A escrita é fluída, mas bastante banal. Os diálogos são pobres. Lê-se bem e não deixa pontas soltas, mas não entendo a razão de tanto sucesso.

Gostei da estrutura em contagem decrescente e das “lições” de escrita.

Não satisfez a minha sede de um bom policial.

Sinopse

“Verão de 1975. Nola Kellergan, uma jovem de quinze anos, desaparece misteriosamente da pequena vila costeira de Nova Inglaterra. As investigações da polícia são inconclusivas. Primavera de 2008, Nova Iorque. Marcus Goldman, escritor, vive atormentado por uma crise da página em branco, depois de o seu primeiro romance ter tido um sucesso. Junho de 2008, Aurora. Harry Quebert, um dos escritores mais respeitados do país, é preso e acusado de assassinar Nola, depois de o cadáver da rapariga ser descoberto no seu jardim. Meses antes, Marcus, discípulo de Harry, descobrira que o professor vivera um romance com Nola, pouco tempo antes do seu desaparecimento. Convencido da inocência de Harry, Marcus abandona tudo e parte para Aurora para conduzir a sua própria investigação.”

Alfaguara, 2013

Tradução de Isabel St. Aubyn

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Domingo, 26 de Março de 2017

A Serpente do Essex - Sarah Perry - Opinião

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A Serpente do Essex é um livro com uma atmosfera muito particular. A sua leitura levou-me para uma Inglaterra nebulosa e fria do século XIX. Tal como o clima, extraordinariamente descrito, esta história é feita de nuances que se parecem com as zonas pantanosas do Essex.

Gostava de começar por destacar o naipe de personagens que compõe esta narrativa, pela sua admirável construção e verosimilhança. O livro tem algumas situações que se podem considerar pouco credíveis, (e como não, se é sobre uma serpente mítica?), mas as personagens, e a forma como se movimentam, interagem, ganham presença e força, é de uma cadência ponderada e estudada. São muitas, acho que já não lia um livro com tanta gente há algum tempo, e não me perdi nem as confundi (depois das páginas iniciais, claro).

Cora é a viúva que fica bem melhor depois do marido morrer. Não vale a pena estar com paninhos quentes, é assim que a coisa nos é dada, e é esse o encanto de Cora, uma senhora de bem que vai para o campo para andar mal vestida no meio dos pântanos à procura de uma serpente, não porque acredite que ela exista da forma como os habitantes da zona a descrevem (razão para todos os males que os enche de medos e superstições), mas porque quer descobrir (e provar) racionalmente as aparições testemunhadas por alguns dos locais.

A acompanhá-la, Martha, uma mulher de uma dureza pouco comum na época, suponho, pelo menos para uma espécie de dama de companhia. Martha toma também conta de Francis, o filho de Cora, uma criança especial que irá proporcionar momentos únicos na trama.

Senti bastantes vezes que a acção decorria na época actual, o que confere um cariz particular ao romance. Dei por mim a verificar a sinopse, onde se lê que estamos em 1893, mas de alguma forma não batia certo com o vestuário, as festas e, principalmente, a ousadia da relação que vai nascendo entre Cora e o Reverendo. Tratar-se-á, possivelmente, de uma forma de aproximar Cora do século XX, já que ela é de facto uma mulher à frente do seu tempo. Assim como Martha, pelo seu cariz revolucionário e ideais políticos.

Senti-me sempre dentro de uma viagem no tempo, mesmo sabendo que tudo acontece no mesmo ano, não pude evitar a sensação de proximidade com um estilo de vida actual, ao mesmo tempo que aterrava no nebuloso século XIX, cheio de superstições e crendices que a medicina vai tentando explicar e apaziguar. E curar.

Na verdade, para mim, a serpente (ou a hipótese da sua existência) foi perdendo importância ao longo da leitura. Foquei-me muito mais na interacção das personagens e nos seus encontros e desencontros. Encantaram-me as cartas trocadas entre Cora e o Reverendo, assim como entre Cora e Luke, o cirurgião seu eterno apaixonado, e todas as outras cartas que, mais ou menos, todas as personagens vão enviando. É uma forma de comunicar que me encanta e que trouxe, sem qualquer margem para dúvida, uma magia especial ao livro.

Sarah Perry escreve de forma cuidada e com qualidade. A história resvala algumas vezes para o campo da fantasia, mas sem exageros. Lê-se de forma célere e com gosto. Quanto à serpente…terão de ler para saber…

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A Serpente do Essex é a primeira aposta da nova chancela do Grupo Almedina, a Minotauro. Agradeço o convite para participar na apresentação deste livro, que decorreu de modo informal no dia 23 de Março, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha. Acompanharam-me nesta aventura as bloggers Célia Marteniano, Cristina Delgado e Cris Rodrigues. A moderar a sessão esteve a editora Sara Lutas. Devido a um imprevisto de última hora A Cris Rodrigues não esteve connosco fisicamente.

Foto Minotauro.

Fiquem atentos que a Minotauro promete!

Sinopse

“Londres, 1893. Quando o marido de Cora Seaborne morre, a viúva inicia uma nova vida marcada ao mesmo tempo por alívio e tristeza.
Não teve um casamento feliz e ela própria nunca se adequou ao papel de mulher da sociedade. Acompanhada pelo filho, Francis - um rapaz curioso e obsessivo -, troca a cidade pelo campo de Essex, onde espera que o ar fresco e os grandes espaços lhe proporcionem o refúgio de que necessita.
Quando se instalam em Colchester, chegam-lhe aos ouvidos rumores de que a Serpente do Essex, conhecida por em tempos ter percorrido os pântanos na sua avidez de colher vidas humanas, regressou à aldeia de Aldwinter. Cora, naturalista amadora sem interesse por superstições ou questões religiosas, fica empolgada com a ideia de que aquilo que as pessoas da região tomam por uma criatura sobrenatural possa, na realidade, ser uma espécie ainda por descobrir. Quando decide iniciar a sua investigação é apresentada ao vigário de Aldwinter, William Ransome. Tal como Cora, Will sente uma desconfiança profunda em relação aos boatos, que considera um fenómeno de terror de caráter moral e um desvio da verdadeira fé. Enquanto Will procura tranquilizar os paroquianos, inicia-se entre ele e Cora uma relação intensa; apesar de os dois não concordarem a respeito de nada, são atraídos e afastados um do outro inexoravelmente, a ponto de isso modificar a vida de ambos de formas inesperadas.
Escrito com uma delicadeza e uma inteligência cheias de requinte, este romance é sobretudo uma celebração do amor e das muitas formas que ele pode assumir.”

Minotauro, 2017

Tradução de Helena Ramos e Dila Gaspar

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Sábado, 4 de Março de 2017

A Avó e a Neve Russa - João Reis - Opinião

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Como não querer ler este livro? Um menino que nos fala (como um menino) da sua visão do mundo e dos planos para salvar a avó doente.

É um menino que, na verdade, já é um homenzinho. Que sabe tantas coisas, tantas, da História do mundo e das pessoas em seu redor. Sabe da solidão da doença e da certeza de que a avó, apesar da exposição aos ventos atómicos, não pode morrer. Nem que para isso, seja ele próprio a salvá-la.

Tinha alguns receios acerca desta leitura, nomeadamente que a verosimilhança (ou falta dela) atraiçoasse a ideia (brilhante) de colocar todas as palavras deste livro na boca de uma criança. Um trabalho de estofo, diria eu, manter o leitor crédulo no pequeno (de quem nunca sabemos o nome) que nos conta tantas coisas da história da sua própria família, e revela uma aprendizagem alargada e deliciosa de tantos acontecimentos mundiais.

O seu olhar sério sobre a escola, a vizinhança, tudo o que observa e o faz, não só pensar, mas colocar em causa ou interrogar-se sobre questões pertinentes que podem começar pela saúde debilitada da avó devido acidente nuclear de Chernobyl, mas que avançam sem controlo para reflexões sobre xenofobia (ou xenofilia num dos vários admiráveis equívocos), ou pelas mais variadas injustiças do mundo.

E sim, acreditei até à última página que este menino me falava, que os seus olhos me davam uma perspectiva infantil com a qual me deliciei tanto de felicidade como de tristeza, que quis ficar triste com a morte iminente da Babushka, mas que a crença do neto na cura me arrancava fé de onde eu não sabia que tinha. Uma fé que durou um livro. Pouco para alguns. Muito para mim. A escrita de João Reis tem a competência de fazer sonhar, infelizmente dentro de limites, mas sonhar. Tem o dom do sorriso, mesmo que misturado com a tristeza da racionalidade que não nos deixa, e que talvez por isso, permite uma beleza feita de tanta simplicidade.

Eu gostava que todos o lessem.

“Os avós paternos do Matt estiveram num acampamento de concentração dos Nazis do Senhor Hitler, e os seus pais eram ainda crianças pequeninas e ficaram escondidos em Varsóvia porque cabiam em todos os armários. A avó do Matt morreu num desses acampamentos de concentração do Senhor Hitler; comia pouco e ficou magra até morrer, e depois carbonizaram-na para que não ficasse a ocupar espaço e enviaram-na para as caldeiras, já que moravam muitas pessoas naqueles acampamentos e não havia o aquecimento que temos hoje em dia. O avô do Matt sobreviveu, porque fazia serviços no campo e falava alemão e algum francês, foi isso que o salvou. Deram-lhe comida suficiente para não comer de menos e ficar magro até morrer. Porém, ele acabou por se matar, ainda o Matt era uma criança; não aguentou a pressão da sociedade que cai sobre um sobrevivente e o esmaga, acordava a meio da noite em terrores vivos, a chorar.” Pág. 95/96;

“E as árvores envelhecem e mantêm-se de pé e aumentam o tronco, mas as pessoas encolhem e encolhem até desaparecerem pressionadas pela idade que têm em cima do corpo; porém, as árvores não se podem mexer e ficam presas à terra e não conseguem fugir, e nisso são parecidas com a Babushka, deitada na cama do hospital, tão pequena, pequenina, se não fosse pelos cabelos brancos quase seria um bebé da maternidade. Pobre Babushka: escapar aos ventos fulminantes para estar assim, arruinada numa cama, e só uma planta a pode ajudar, um cato.” Pág. 105;

Sinopse

“Babushka está doente. Esta russa idosa, emigrante no Canadá, sobreviveu ao acidente nuclear de Chernobyl. Esconde no peito a doença que a obriga a respirar a contratempo e lhe impõe uma tosse longa e larga e comprida e sem fim — um mal que a faz viver mergulhada nas memórias do seu passado luminoso, a neve pura da Rússia, recordação sob recordação.
Na fronteira com a realidade caminha o seu neto mais novo, de dez anos, um menino que não desiste de puxar o fio à meada e de tentar devolver a avó ao presente. Para ajudar Babushka, precisa de encontrar uma solução para os seus pulmões destruídos, sacos rasgados e quase vazios — mesmo que isso o obrigue a crescer de repente e partir em busca de uma planta milagrosa, o segredo que poderá salvar a família e completar a matriosca que só ele vê.
Narrado na primeira pessoa e escrito a partir da perspetiva de uma criança, A Avó e a Neve Russa é um livro feito da inocência e da coragem com que se veste o deslumbramento das infâncias. Romance simples e emotivo sobre a força da memória e da abnegação, relata a peregrinação de um neto através da esperança, do Canadá ao México, para encontrar a possibilidade de um final feliz.”

Elsinore, 2017

publicado por marcia às 16:59
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017

Onze Tipos de Solidão - Richard Yates - Opinião

onzetiposdesolidao.jpg

Quando comecei a escrever sobre este livro de contos pensava dedicar um texto a cada uma das histórias. Escrevi umas linhas para o primeiro conto, e mais umas linhas para o segundo. Contudo a leitura ganhou fôlego e dediquei-me a lê-los de seguida, sem me preocupar com anotações e possíveis futuros textos.

A solidão é um tema que me toca particularmente, por ter tanto por onde pegar, literariamente falando. E Yates explora este tema de forma admirável.

Os onze contos não se relacionam, mas todos narram histórias de gente que, de alguma forma, está só. Da infância ao serviço militar, passando pelo casamento e pela doença, ficam as imagens (porque achei a narrativa muito visual) de Onze Tipos de Solidão que me agarraram pela escrita tão completa que utiliza, curiosamente, poucas palavras. Yates fez-me sentir mais, fez-me estar mais perto das personagens e das suas solidões, nestes contos com cerca de vinte páginas cada, do que muitos calhamaços com centenas delas.

Com um poder de síntese impressionante e uma clareza admirável, Yates já devia ter saltado para as minhas leituras obrigatórias há muito.

Sinopse

“A partir da vida de empregados de escritório em Nova Iorque; de um taxista que ambiciona a imortalidade; de jovens romancistas frustrados; de professores desprezados pelos alunos; de homens do subúrbio e das suas mulheres deprimidas e negligenciadas, de aperitivos e martinis e bares de jazz sem glamour nenhum, Richard Yates constrói um mosaico assombroso dos anos 1950, período em que o sonho americano começava finalmente a concretizar-se e, em simultâneo, a revelar um grande vazio.

Publicado a seguir ao romance que consagrou Richard Yates - Revolutionary Road - o conjunto de onze histórias - ilustrando cada uma delas uma vertente desses Onze Tipos de Solidão - cria, para lá do retrato, uma forte atmosfera de alienação e desconexão social.”

Quetzal, 2011

Tradução de Nuno Guerreiro Josué

publicado por marcia às 00:24
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