Quinta-feira, 15 de Junho de 2017

Granta Portugal 9 - Comer e Beber - Opinião

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Assino a Granta Portugal há um ano. Semestralmente têm vindo para a estante os exemplares lindíssimos, como de resto o são todos os livros da Tinta-da-China, desta publicação a que ouço chamar revista literária.

Não é o que habitualmente chamo de revista, por isso a Granta é, para mim, um livro. Um livro de histórias, como devem ser os livros, partilhadas a várias mãos. Gosto da variedade e da liberdade de não respeitar a ordem dos textos, de descobrir autores dos quais ainda não tinha lido nada, e de ficar com vontade de conhecer melhor.

A Granta 9 tem uma colecção de textos espectacular o que a torna tão gulosa como o tema, Comer e Beber. Marcaram-me especialmente os escritos de Ana Margarida de Carvalho (Última Ceia), de Sousa Jamba (Açúcar no sangue) e de Luís Afonso (Chez Hippolyte). A banda desenhada (Sleepwalk-Filipe Melo, Juan Canvia) no lugar do habitual ensaio fotográfico agradou-me muito e, não sendo possível manter os dois, pendo para a narrativa gráfica.

Para ler sem pressas quando apetece fugir por uma história.

Comam, bebam e leiam.

publicado por marcia às 22:40
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Domingo, 11 de Junho de 2017

A Oeste Nada de Novo - Erich Maria Remarque - Opinião

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Mais um que já estava na estante há algum tempo. Uma edição muito bem conseguida da Camões & Companhia (Saída de Emergência), com uma capa sóbria de que gosto muito. Comecei a leitura com algum receio quendo percebi que se trata de uma tradução da tradução inglesa e, honestamente, tive pena de não ter reparado nisso quando o comprei, mas li-o muito bem e considero-o uma daquelas leituras inesquecíveis.

O melhor de deixar um pouco de lado as novidades e pegar em livros escritos há mais tempo, é que surgem sempre algumas opiniões de quem já leu determinado livro há alguns anos. E o tempo, meus amigos, lá confere a qualidade dos melhores, deixando arrumados em outras gavetas as obras que não sobrevivem a esse escrutínio. Tudo isto para dizer que quero fazer mais leituras de livros que o tempo, e os leitores, salvam. Espero, ainda este ano, ter a oportunidade de descobrir outras obras intemporais.

E o que escrever sobre A Oeste Nada de Novo que não tenha sido já escrito ou dito? Não sei, nem sinto que tenha algo de novo a acrescentar, contudo conto-vos sobre a escrita maravilhosa, escorreita e fluída, como quem fala, com um quê de musicalidade, que poderá ser uma melodia de fundo. Gostei dos sentimentos, da forma como um livro sobre as trincheiras mergulha tão profundamente na alma humana, como num livro sobre a guerra sobressaem a amizade e a camaradagem, como esta leitura me encantou pela simplicidade e proporcionou a vontade de prosseguir virando páginas.

Gosto de livros assim, que parecem fáceis e podem ser lidos com destreza mesmo pelos leitores mais jovens, mas que, de alguma forma, encerram esse grande segredo só ao alcance de alguns autores: proporcionar um enorme prazer na leitura.

Sinopse

“Nas trincheiras, os rapazes começam a tombar em combate um a um... Em 1914, um professor chauvinista leva uma turma de estudantes alemães - jovens e idealistas - a alistar-se para a «guerra gloriosa». Todos se alistam, movidos pelo ardor e pelo patriotismo próprios da juventude. Porém, o seu desencanto começa durante a recruta brutal. Mais tarde, ao embarcarem no comboio de campanha que os levará à frente de combate, veem com os próprios olhos as feridas terríveis sofridas na linha da frente... É o seu primeiro vislumbre da realidade da guerra.”

Camões & Companhia, 2011

Tradução de Luís Miguel Coutinho

publicado por marcia às 13:41
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Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Um segredo bem guardado - Tatiana de Rosnay - Opinião

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Fiquei bastante desapontada com este livro, infelizmente. Depois da leitura de Chamava-se Sara, que adorei, estava muito expectante em relação a este Um Segredo bem guardado. É mais um para a série “gostava de ter gostado” e, talvez por isso, o tenha lido até ao fim, sempre à espera de uma aguardada reviravolta que me prendesse às páginas de modo compulsivo, como aconteceu com o livro anterior.

Mas tal não sucedeu e este é mais um exemplo em que o peso das expectativas não permite que se disfrute de uma leitura, assim como o peso de Chamava-se Sara, que foi sempre uma sombra comparativa da qual não me consegui libertar.

É difícil construir um enredo tão arrebatador como o do livro anterior, por todas as condicionantes que o cenário da II Guerra Mundial permite, assim como pela sua envolvência, pelo que é difícil não achar este livro bastante inferior. Apesar da aura de mistério e suspense que a sinopse promete, o “segredo bem guardado” é óbvio desde as primeiras páginas. Confesso que prossegui a leitura esperando que houvesse mais qualquer coisa para revelar, algo bombástico para abanar o livro. Mas não. O que tive à minha espera foi uma sucessão de dramas familiares e pessoais bastante banais.

Além de ter ficado bastante aquém do que prometia, os graves erros de tradução e revisão tornaram, em alguns trechos, a leitura dolorosa.

Sinopse

“O que sabemos realmente sobre aqueles que amamos?
Tudo começou num fim-de-semana junto ao mar. Antoine Rey pensava que tinha preparado a surpresa perfeita para a celebração dos 40 anos da irmã Mélanie: uma viagem à ilha de Noirmoutier, onde ambos tinham passado muitos Verões felizes na infância. Um lugar impregnado de recordações felizes mas também de memórias de pessoas queridas que partiram. O que Antoine não poderia imaginar é que o regresso à ilha teria consequências tão devastadoras. A beleza do lugar desperta em Mélanie memórias de um acontecimento perturbador ocorrido no último Verão que haviam passado na ilha.
Na viagem de regresso a Paris, Mélanie ganha finalmente coragem para contar ao irmão aquilo que sabe, mas é tal a comoção que perde o controlo do carro. O complexo segredo que Mélanie queria partilhar parece assim ficar sepultado para sempre. Mas, na verdade, os segredos de família regressam sempre. E podem ser explosivos. Simultaneamente história de amor, mistério, drama e comédia, Um Segredo Bem Guardado explora com sensualidade e delicadeza as relações entre irmãos, entre pais e filhos, entre amantes, resultando numa narrativa tão emocionante quanto reveladora."

Objectiva, 2012

Tradução de Teresa Machado

publicado por marcia às 13:17
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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Vozes de Chernobyl - Svetlana Alexievich

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Receio não ter palavras para descrever esta leitura. Mas ficarão sempre comigo as palavras de quem sobreviveu ao desastre de Chernobyl. Cru e impiedoso como a verdade que, mesmo escondida, emerge em livros como este. Svetlana Alexievich deixa que as vozes falem nas páginas deste livro, e eu considero que é nosso dever ouvi-las. Porque há demasiadas histórias que ficam por contar, e sobre Chernobyl há muito para saber.

Custou-me cada página. Não é ficção. Aconteceu. Leiam!

Aproveito para divulgar a tertúlia Elsinore, com Dulce Maria Cardoso, dedicada a este livro. É já no dia 14 de Junho pelas 21h00, no espaço 20|20 Editora, na Feira do Livro de Lisboa. Moderação de Ricardo Duarte.

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Sinopse

“Vozes de Chernobyl é a mais aclamada obra de Svetlana Alexievich, Premio Nobel de Literatura 2015, tida como o seu trabalho mais duro e impactante.
A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.
Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.”

Elsinore, 2016
Prefácio de Paulo Moura e tradução de Galina Mitrakhovich.

 

publicado por marcia às 23:57
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Domingo, 14 de Maio de 2017

Segredos Imorais - Brian Freeman - Opinião

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Por vezes é preciso parar antes de continuar. A ler, entenda-se.

Tenho lido alguns livros fortes. Que mexem com emoções, que exigem uma concentração apurada e espírito crítico alerta. Não me queixo, gosto disso. Na verdade, pensar, argumentar e discutir motivam-me bastante. Mas (e porque há sempre um mas) acontece precisar de um intervalo, de ler um livro como quem vê uma série ao domingo à tarde, de relaxar e desejar apenas e só um pouco de entretenimento.

Nessas alturas passeio os dedos pela estante e sei que me apetece um policial. Gosto do suspense e da dúvida, de tentar descobrir o rasto do assassino, de ler empolgada páginas e páginas de seguida (quanto a este último ponto já depende do policial).

Segredos Imorais satisfez amplamente este meu desejo de emoções fortes controladas. Tem clichés q.b. (também sabem bem), mistério e reviravoltas. E não adivinhei o assassino, o que é uma fabulosa mais-valia. Para saberem do que se trata leiam a sinopse abaixo, antes que eu escorregue em algum spoiler. Parece demasiado reveladora, mas não é tanto assim.

Um livro que cumpriu o seu objectivo.

Sinopse

“Segredos Imorais é um policial americano que marca a estreia de Brian Freeman na publicação. Já comparado a gurus do género como Harlan Coben (autor editado em Portugal pela Presença), Dennis Lehane e Michael Connelly, o autor arrebatou a crítica internacional e conquistou o aplauso de leitores no mundo inteiro. Com base num caso real de uma rapariga desaparecida no Minnesota, amplamente divulgado nos meios de comunicação social, Freeman criou uma obra que utiliza como tema a sedução, encarnada por uma variedade de casais. Rachel nunca conseguiu perdoar a mãe da morte do pai e quando esta se volta a casar engendra um plano para a polícia chegar à conclusão de que o padrasto a matara. O detective Stride entra em acção e devido à complexidade do caso vê-se forçado a rever todas as teorias especulativas para avançar com a investigação. Uma leitura policial, com os ingredientes clássicos do género mas que é também uma obra sobre pessoas.”

Editorial Presença, 2006

Tradução de Lucinda Santos Silva

publicado por marcia às 20:10
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Sábado, 6 de Maio de 2017

Canção Doce - Leïla Slimani - Opinião

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Canção Doce já circulava, na versão francesa original, pelas sessões da Roda dos Livros. Como não ficar ansiosa pela edição portuguesa perante os comentários avassaladores de leitoras cujas opiniões tanto estimo? Não domino o Francês, mas a tradução da Tânia Ganho é sempre uma garantia para os leitores. Obviamente que o livro veio cá para casa assim que saíu, e nem passou pela estante.

Duas crianças morrem ao cuidado da ama com quem desenvolveram uma relação de extrema afeição. Louise, a ama dedicada, é contratada quando Myriam, a mãe, decide voltar a trabalhar. Louise afeiçoa-se às crianças e os dois irmãos (Mila e Paul) retribuem o amor da ama numa relação bonita e feliz. Louise permite que os pais se dediquem incansavelmente às suas profissões exigentes, assegurando a harmonia do lar. Estimada por toda a família, a ama chega a acompanhá-los nas férias.

Como se passa de um cenário de felicidade e segurança para a ruptura provocada pela morte? Leïla Slimani escava nas aparências de felicidade e traz para a superfície os medos, anseios e solidões, dissecando-os como causas da degradação humana na sociedade actual.

O percurso de Louise é uma espiral descendente de racionalidade. O amor à família que a contrata evolui para uma obsessão tal que a sua vida fora da casa de Myriam e Paul se resume a esperar pelo momento do regresso. As suas rotinas são cruciais e o receio do vazio que a possibilidade de deixar de ser necessária implica, levam-na a actos descompensados e paranoicos.

Uma leitura aterradora que tive de dosear com ponderação, sob pena de mergulhar na angústia. Mais do que as palavras e a escrita sublime de Slimani, ficam as reflexões a que este livro me obrigou e o inevitável receio de pertencer à sociedade tão bem caracterizada pela autora, com laivos de assustadora realidade.

Louise mata as crianças? Porquê? Antes de lerem o livro pensem se querem mesmo saber.

Eu recomendo, claro.

Sinopse

“Mãe de duas crianças pequenas, Myriam decide retomar a actividade profissional num escritório de advogados, apesar das reticências do marido. Depois de um minucioso processo de selecção de uma ama, o casal escolhe Louise. A ama rapidamente conquista o coração dos pequenos Adam e Mila e a admiração dos pais, tornando-se uma figura imprescindível na casa da jovem família.
O que Myriam e Paul não suspeitam - ou não querem ver - é que a sua pequena família é o único vínculo de Louise à normalidade. Pouco a pouco, o afecto e a atenção vão dando lugar a uma interdependência sufocante, com o cerco a apertar a cada dia, até desembocar num drama irremediável.
Com um olhar incisivo sobre esta pequena família, Leila Slimani aponta o foco para um palco maior: a sociedade moderna, com as suas concepções de amor, educação e família, das relações de poder e dos preconceitos de classe. Com uma escrita cirúrgica e tensa, eivada de um lirismo enigmático, o mistério instala-se desde a primeira página, um mistério que é tanto sobre as razões do drama como o das profundezas insondáveis da alma humana.”
 

PRÉMIO GONCOURT 2016, o mais importante prémio literário francês.

Tradução de Tânia Ganho

publicado por marcia às 13:59
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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

A Construção do Vazio - Patrícia Reis - Opinião

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Poucos são os livros que me proporcionam uma total queda na história. Habitualmente os meus sentidos estão atentos a várias coisas, como o vocabulário, figuras de estilo, ritmo e encadeamento da narrativa, construção de personagens. Contudo, neste caso, alheei-me dessas observações. Bebi a história de Sofia em choque, aterrada e completamente envolvida nas poderosas descrições.

Todas essas coisas que aprecio durante uma leitura foram de certa forma esquecidas aqui, não que não existam ou não mereçam o meu escrutínio (ao contrário), mas porque dei a tal queda (ou salto sem rede ou bungee jumping) em cheio na vida de Sofia, a menina-tesoura que me fez esquecer que estava a ler um livro. Vivi a história sem relativizar e sem questionar, aceitando a crueldade descrita e sofrendo (muito) com ela. Parando muitas vezes para respirar. A análise ficou para depois. Depois de fechar a última página, mas ainda com a voz de Sofia na cabeça.

Senti-me tão atordoada pela história que tive de a viver de modo intenso. Demasiado intenso talvez, pois vi-me completamente enredada nas dores da personagem e, principalmente, na sua infância aterradora, que a condicionou à total descrença na sua própria felicidade. Como é viver com a certeza de não ser merecedora daquilo a que todos aspiram? É essa a dura viagem que este livro oferece.

Meditando um pouco sobre tudo isto, dado que já li o livro há algum tempo, e esperando que este modo de “cair” não signifique um retrocesso no meu sentido crítico, e sabendo (tendo a certeza, vá) que a escrita da Patrícia Reis continua irrepreensível (acho que até melhorou), A Construção do Vazio só pode significar um outro patamar. Para a autora sem dúvida. Para mim, como leitora, de certeza.

Uma experiência inesquecível. Talvez o meu livro preferido de Patrícia Reis. Uma chapada na cara (várias na verdade).

Sinopse

“A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo. 
Será possível atenuar a dor? 
Como se resiste ao fantasma real da infância? 
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida? 
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final. 
Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus.”

D. Quixote, 2017

publicado por marcia às 11:47
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Terça-feira, 25 de Abril de 2017

O Ano da Dançarina - Carla M. Soares - Opinião

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De todos os livros da Carla M. Soares (e eu li todos os que estão publicados) este é, sem dúvida, o meu preferido. Há livros assim, que mandam na minha vontade logo na primeira página, que não me saem da cabeça durante as horas que estamos afastados, que me deixam com saudades de voltar à leitura, de me envolver mais e mais na história e nas personagens.

O Ano da Dançarina é um romance delicioso que se lê com ritmo e alguma compulsão. A escrita da autora continua fluída e cuidada, tendo adquirido bastante segurança que se nota em alguns trechos mais destemidos. Nota-se que a pesquisa histórica foi intensa, mas nunca senti que a informação foi colocada “à martelada” (e é muita informação), mas antes perfeitamente doseada na trama com a ajuda de personagens bem estruturadas.

Quem dera só ler livros assim, com gosto e vontade de galopar pelos parágrafos. E ficar triste por chegar à última página.

Gostei dos detalhes, das descrições das ruas na Lisboa de 1918, dos locais, do vestuário, do enquadramento social e político, de ver surgir em cada personagem uma personalidade influenciada pelo meio, de conhecer os Lopes Moreira, no seu estatuto privilegiado, contudo terra-a-terra, de sentir as dores da guerra em quem nela participou, bem como as ramificações da perda em quem está próximo. Gostei de ler a dor de quem é arrasado por uma epidemia, bem como pelos que assistem com o sofrimento da impotência. Chegaram até mim as amizades, as inimizades, a fúria, a paixão, o amor.

Poucos são os livros que convidam o leitor a uma tão intensa possibilidade de construir, de imaginar e sonhar e, sou honesta, gostava que todas as minhas leituras fossem assim, tão amplas e satisfatórias.

Gostei muito e convido-vos a descobrir a Dançarina, que não é exactamente o que parece.

Sinopse

“No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política. 
No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista. 
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.”

Marcador, 2017

publicado por marcia às 12:53
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Sexta-feira, 14 de Abril de 2017

Rapariga em Guerra - Sara Novic - Opinião

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Impressionou-me. Sim, é o que me fazem alguns livros, normalmente aqueles que não consigo largar desde que abro a primeira página. Foi o que aconteceu com Rapariga em Guerra, que li rapidamente, envolvida pela história de uma menina de dez anos que, na Croácia, perdeu a infância para a guerra. Na verdade Ana perdeu muito mais do que a infância, mas não são esses anos mágicos uma perda já demasiado cruel?

Uma escrita simples e envolvente como a meninice, em que embrenhei com prazer e me apresentou uma mudança brusca na realidade de Ana, dos pais, da irmã bebé e dos amigos mais próximos. Há um encanto cruel nos acontecimentos sob o olhar perspicaz de uma criança, na forma como os raids aéreos se tornam mais uma peça da rotina, e de como as brincadeiras se adaptam às circunstâncias. A escassez de alimentos e a proliferação do ódio são realidades que Ana não compreende e, quando sente o verdadeiro poder do ódio, aquele que sustenta esta guerra, deixa de ser menina.

Rapariga em Guerra é, para mim, um livro sobre o poder das memórias. É sobre a forma como o que Ana viveu a acompanha sempre, e lhe condiciona as emoções. Porque há acontecimentos que marcam e a partir dos quais nada fica igual, e nasce uma dor que os anos vão esbatendo, mas que renasce como se se voltasse a premir um gatilho.

Há passados que estarão sempre na sombra de quem os viveu, mas conseguirá Ana vencer os fantasmas?

Muito bom. Recomendo sem reservas. E convido-vos para participar na tertúlia sobre este livro e A Serpente do Essex, na próxima quinta-feira, dia 20 de Abril.

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 Sinopse

“Uma saga de guerra, um relato da passagem à idade adulta, uma história de amor e de memória, Rapariga em Guerra percorre todas estas facetas e revela-se um romance de estreia ao mesmo tempo perturbador e cheio de esperança, escrito com a força da verdade.
Zagreb, 1991. Ana Juric é uma menina de dez anos com um espírito descontraído, que vive com a sua família na capital da Croácia. Mas, nesse ano, a Jugoslávia é abalada pela guerra civil, destruindo a infância idílica de Ana. A paz do dia a dia é manchada pelo racionamento, pelos constantes raids aéreos e os jogos de futebol são substituídos pelo fogo das armas. Os vizinhos começam a desconfiar uns dos outros e a sensação de segurança começa a desvanecer-se. Quando a guerra lhe bate à porta, Ana tem de encontrar um novo caminho num mundo perigoso.
Nova Iorque, 2001. Ana é agora uma estudante universitária em Manhattan. Apesar de todas as tentativas para deixar o passado para trás, não consegue escapar às recordações de guerra e aos segredos que guarda até dos que lhe são mais próximos. Perseguida pelos acontecimentos que lhe roubaram a família para sempre, regressa à Croácia depois
de uma década de ausência, na esperança de fazer as pazes com o lugar a que um dia chamou casa. Enquanto enfrenta o passado, procura reconciliar-se com a história difícil do seu país e com os acontecimentos que lhe interromperam a infância, há tantos anos.
Avançando e recuando no tempo, este livro é um retrato franco e generoso de um país devastado pela guerra, mostrando-nos, com uma escrita brilhante, a impossibilidade de separar a história de um país e a história do indivíduo. 
Sara Novic revela destemidamente o impacto da guerra numa menina e o seu legado em todos nós. É a estreia de uma escritora que olhou para o passado recente e encontrou uma história que ressoa ainda hoje.”

Minotauro, 2017

Tradução de Rita Carvalho e Guerra

publicado por marcia às 19:28
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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

O Leitor do Comboio - Jean-Paul Didierlaurent - Opinião

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Ler no comboio (ou em qualquer local) é perfeitamente normal, na verdade é essencial, para quem gosta de livros.

Guylain Vignolles lê em voz alta, todos os dias, durante o percurso de comboio. As suas leituras têm a particularidade de não terem qualquer seguimento, são textos avulsos sem ligação que vai lendo sentado sempre no mesmo lugar, o banco solitário e desdobrável no fim dos outros lugares. Guylain foi-se tornando, à medida que eu avançava na leitura, uma espécie de herói. Talvez pela sua simplicidade ou pela forma como encara o dia a dia, ou ainda pelos motivos das suas atitudes. São muitas as analogias que esta narrativa tece com a realidade profissional de uma grande maioria das pessoas, desde a sensação de vazio, passando pela falta de realização profissional e, claro, a dificuldade de se relacionar com as chefias e com os colegas de trabalho, devido ao constante acotovelar para se ser o melhor (mesmo que isso signifique ser muito pior pessoa) aos olhos de quem manda.

Uma escrita simples, mas que toca no cerne das questões, que me deliciou ao mesmo tempo que me ía acordando para os sentimentos mais pessoais de Guylain, tantas vezes semelhantes aos meus, na verdade penso que semelhantes a qualquer um de nós.

Guylain trabalha numa fábrica que destrói livros. O seu acto de rebeldia é salvar algumas páginas por dia, que lê em voz alta no comboio. Essas leituras proporcionam-lhe um caminho novo na sua vida solitária, que, até então apenas partilhava com um peixinho de aquário. E um dia (porque há sempre um dia que na vida e nas histórias muda tudo) encontra um objecto que lhe proporciona outras leituras, outras descobertas, e um caminho sem volta na solidão. Porque a verdade é que estamos todos cada vez mais sós, e parece que é preciso que aconteça algo inesperado ou surpreendente para encarreirarmos no caminho essencial das ligações humanas.

O Leitor do Comboio mostra, com ternura e simplicidade, que, se calhar, não estamos no caminho certo.

Gostei bastante.

Sinopse

“O poder dos livros através da vida das pessoas que eles salvam. Uma obra que é um hino à literatura, às pessoas comuns e à magia do quotidiano.
Jean-Paul Didier Laurent é um contador de histórias nato. Neste romance, conhecemos Guylain Vignolles, um jovem solteiro, que leva uma existência monótona e solitária, contrariada apenas pelas leituras que faz em voz alta, todos os dias, no comboio das 6h27 para Paris.
A rotina sensaborona do protagonista desta história muda radicalmente no dia em que, por mero acaso, do banquinho rebatível da carruagem salta uma pendrive que contém o diário de Julie, empregada de limpeza das casas de banho num centro comercial e uma solitária como ele… Esses textos vão fazê-lo pintar o seu mundo de outras cores e escrever uma nova história para a sua vida.
O Leitor do Comboio revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que as personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia quotidiana. Herdeiro da escrita do japonês Haruki Murakami, dotado de uma fina ironia que faz lembrar Boris Vian, Jean-Paul Didierlaurent demonstra ser um contador de histórias nato.”

Clube do Autor, 2017

Tradução de Inês Castro

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 22:36
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