Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016

A Vida no Campo - Joel Neto - Opinião

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Li Arquipélago. Viajei na Ilha Terceira. Trago memórias de umas férias especiais e na bagagem veio A Vida no Campo.

Este texto será breve. É apenas uma anotação do tanto que gostei e me deixei envolver pelas histórias e reflexões do autor. A Vida no Campo é um diário de alguém que deixou a cidade depois de vinte anos a corresponder às exigências da carreira, a viver no meio do ruído, a não ter tempo sem disso se aperceber. Assim como eu e tantas outras pessoas.

Ler este livro não é só um passeio na fantástica ilha Terceira. É uma tomada de consciência. É um acordar meigo para o que a vida poderá ser. Um empurrão para quem queira ser empurrado, ou se vá deixando empurrar pela perspectiva do plano. Mudar de vida é possível apesar das dificuldades, muitas delas criadas pelos próprios receios.

Para mim, além de uma (boa) provocação dado que anseio por uma paz semelhante, foi um complemento à minha viagem. Foi-me arrancando sorrisos e suspiros quando lia sobre alguns dos locais que visitei, dos restaurantes onde comi, e que me foi abrindo (ainda mais) o apetite para a admirável gastronomia, dado que Joel Neto não se poupa a discrições suculentas do que lhe vai passando pelo prato.

Vacas, igrejas, mil tons de verde, neblinas misteriosas, personagens de Arquipélago (desconfio que encontrei algumas neste Vida no Campo), voltaram para mim a cada página. Regressar aos Açores é um dado adquirido, até lá a viagem faz-se em releituras.

Partilho o booktrailer. Acho-o irresistível.

Sinopse

“Um homem e uma mulher. Um jardim e uma horta. Dois cães. Ao fim de vinte anos na grande cidade, Joel Neto instalou-se no pequeno lugar de Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira. Rodeado de uma paisagem estonteante, das memórias da infância e de uma panóplia de vizinhos de modos simples e vocação filosófica, descobriu que, afinal, a vida pode mesmo ser mais serena, mais barata e mais livre. E, se calhar, mais inteligente.”

Marcador, 2016

publicado por marcia às 22:58
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2016

Desde a Sombra - Juan José Millás - Opinião

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Desde a Sombra, de Juan José Millás, foi a leitura deste mês da Comunidade de Leitores em que participo. Um livro que se lê numa penada, com interesse constante. A escrita fluída e descomplicada proporciona uma leitura rápida, nada cansativa, e bastante prazerosa. Mas, e porque há sempre um mas, Desde a Sombra não é tão simples ou linear como parece. E ainda bem.

Damián esconde-se dentro de um armário numa feira de antiguidades (os motivos da necessidade de esconderijo deixo para descobrirem quando lerem o livro) e, não conseguindo sair sem ser visto, deixa-se ficar no armário até ser transportado para a casa de Lucia. Parece de loucos, não? E é. Mas a verdade é que a escrita de Millás faz desta premissa uma situação perfeitamente credível. Há um homem dentro de um armário no quarto de casal, onde decide ficar a viver passando despercebido. Ou talvez não, pois quando a família sai para o trabalho e para a escola, Damián sai do seu aconchego (espaço que tornou confortável e onde se sente bem) e arruma a casa. Lucia é a única que se apercebe que são feitas limpezas, tanto o marido como a filha assumem que o trabalho é feito por ela, como habitualmente. Lucia acredita que tem em casa um fantasma que trata da manutenção do lar, e chega a estabelecer contacto com ele através de canais muito especiais (mais uma para descobrirem lendo o livro).

Para ajudar à festa há um programa de televisão em directo, uma espécie de reality show onde Damián vai exorcizando alguns demónios (picos de audiência, claro) e mantendo o público a par da sua aventura no armário.

Eu sei que parece muito confuso e bastante louco, mas só um livro fabuloso conseguiria que todos estes detalhes esquizofrénicos que descrevo fizessem (muito) sentido. A escrita de Millás é descomplicada como referi no início, mas apenas aparentemente, pois apesar de se ler muito bem e de ser bastante acessível, assenta numa estrutura habilmente construída que permite ao leitor passear (literalmente) pelos pensamentos cruzados de Damián. E acreditem que são muitos pensamentos, muitas ideias, muita coisa a acontecer ao mesmo tempo naquela cabeça.

Passando do hilariante ao soturno de forma vertiginosa, Millás obriga à reflexão sobre temas como a solidão, traição, mentira, traumas de infância, anorexia e futilidade, com um sorriso nos lábios.

Foi uma extraordinária leitura, que recomendo sem reservas, e que proporcionou uma das melhores discussões da comunidade. Curiosamente estivemos todos de acordo (coisa rara), Desde a Sombra é genial!

Fica a enorme vontade de descobrir outros títulos do autor.

Sinopse

“Um romance no mais puro estilo Millás: surpreendente, inquietante, original, brilhante: Um protagonista, um homem comum «empurrado» para uma situação extraordinária; um argumento fora do normal com um desfecho imprevisto e inquietante; uma combinação magistral de humor, suspense, com diálogos que têm um olhar lúcido sobre a realidade dos nossos dias.
O romance é uma análise crua das fobias e receios dos nossos dias, focando o medo de falhar como pessoa.”

Planeta, 2016

Tradução de Mário Dias Correia

publicado por marcia às 23:57
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2016

Arquipélago - Joel Neto - Opinião

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Já não se escrevem livros assim. Foi o que me disse um amigo acerca deste Arquipélago. E é verdade.

Comecei a lê-lo algum tempo antes de ir aos Açores, na expectativa de iniciar uma leitura que levaria a cabo na ilha Terceira, no cenário do livro. O facto de o ter iniciado algum tempo antes da viagem não me levou a imaginar que o livro se esgotaria antes da partida, ou que me sobrariam apenas meia dúzia de páginas para entreter parte do percurso. Leio sempre vários livros ao mesmo tempo e gosto de “saltar” entre romances, contos e novelas gráficas, portanto um romance de mais de quatrocentas páginas iria durar com certeza.

Mas na verdade aconteceu-me o que já não sucedia há muito tempo. Dediquei-me à leitura de Arquipélago em exclusivo. Não que o tivesse escolhido (ao contrário), mas parece que o livro me escolheu. Não o consegui largar até chegar ao fim, dando por mim muitas vezes, durante o dia, ansiando pelo regresso às suas páginas. Não houve outros livros. Não era possível tirar-me do cenário, arrancar-me da história, demover-me da escrita elegante e envolvente de Joel Neto. É bom encontrar, finalmente, um livro que me leve com ele. É essa sensação de resgate que procuro incansavelmente, e tão poucas vezes encontro.

Gostava de vos contar esta história. Falar sobre as personagens, os seus percursos e encontros. Revelar mistérios e, em surdina, segredar uma história de amor. Mas seria tão pouco, estaria tantos degraus abaixo de experiência que é ouvir as aves, sentir a chuva, e até os abalos, percorrer os anos passados em revelações surpreendentes, conhecer as famílias da trama, e até a intimidade secular de uma ilha surpreendente.

Arquipélago parece um romance de outros tempos, que se abre numa tábua de personagens. Oferece de imediato os nomes e algumas pistas a que voltei, continuamente. Não estava preparada para uma estrutura tão forte e um argumento tão bem elaborado, com acção, reviravoltas imprevistas, histórias dentro de histórias e, acima de tudo, não estava preparada para as palavras feitas de sentimentos. Não imaginava que Joel Neto escrevesse assim, e a maior surpresa foi a emoção que algumas frases me proporcionaram.

Já regressei da viagem. Da viagem aos Açores, porque ainda passeio nas palavras do livro com as memórias desta leitura extraordinária. E também pelas páginas do mais recente A Vida no Campo, por não resistir a continuar embalada pelas avassaladoras paisagens.

Partilho duas fotografias de uma pequena expedição, não por páginas, mas por caminhos. Como não visitar a Terra Chã, estando lá?

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Pode um livro publicado há um ano ser um clássico?

Não sei. Contudo, para mim será. Não o vou esquecer. Ficará comigo.

Sinopse

“Açores, 1980. Uma criança desaparecida. Um homem que não sente os terramotos.
Quando um grande terramoto faz estremecer a ilha Terceira, o pequeno José Artur Drumonde dá-se conta de que não consegue sentir a terra tremer debaixo dos pés. Inexplicável, esse mistério há-de acompanhá-lo durante toda a vida. Mas, entretanto, é hora de participar na reconstrução da ilha, tarefa a que os passos e os ensinamentos do avô trazem sentido de missão.
Já professor universitário, carregando a bagagem de um casamento desfeito e uma carreira em risco, José Artur volta aos Açores. Durante as obras de remodelação da casa do avô, é descoberto um cadáver que o levará em busca dos segredos da família, da história oculta do arquipélago e de uma seita ritualista com ecos do mito da Atlântida. Mas é nos ódios que separam dois clãs rivais que o professor tentará descobrir tudo o que os anos, a insularidade e os destroços do grande terramoto haviam soterrado…
Usando a mestria narrativa e o apuro literário dos clássicos, bem como um dom especial para trazer à vida os lugares, as gentes e a História dos Açores, Joel Neto apresenta o romance Arquipélago, em que a ilha é também protagonista.”

Marcador, 2015

publicado por marcia às 22:24
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Domingo, 23 de Outubro de 2016

Uma dor tão desigual - Vários Autores - Opinião

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Para quem, como eu, gosta de Contos e vive num país em que pouca (ou nenhuma) importância se dá a este género, a publicação de um livro como Uma dor tão desigual é uma felicidade.

Por isso, e por ter Contos de alguns dos autores que mais admiro, iniciei a leitura com bastante entusiasmo. Importa referir que “este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta” (contracapa). Uma dor tão desigual é uma chamada de atenção, uma forma de sensibilizar para a saúde mental, diminuindo o estigma e incitando a que quem precisa de ajuda, ou seja próximo de quem precise de ser ajudado, procure o apoio necessário.

Por tudo isto, não podia deixar de ler. E, apesar das expectativas elevadíssimas, que tantas vezes acabam por me fazer sentir enganada, este livro não desiludiu e esteve à altura da minha desejada previsão.

São oito Contos, todos diferentes, e cada um vai crescendo em volta de um distúrbio. Há personagens, que acreditamos que são pessoas, com vidas que podiam ser a nossa, a de um amigo ou a do vizinho do lado. Há famílias, há solidão, há caminhos que qualquer um poderia percorrer. Quero apenas dizer que as histórias deste livro são bastante verosímeis, e com facilidade se acredita que são reais. Penso que esse é o ponto crucial na sensibilização da saúde mental como preocupação de todos, pois qualquer um de nós pode precisar de ajuda.

O trabalho dos autores é extraordinário e este livro merece ter muitos leitores. Procurem-no, leiam-no, e participem no enorme passo que é preciso dar na desmistificação dos problemas mentais. Não é preciso sofrer em silêncio.

Não me vou alongar no que refere à qualidade dos Contos. Estamos a falar de Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Joel Neto, Maria Teresa Horta, Nuno Camarneiro, Patrícia Reis e Richard Zimler. É preciso dizer mais alguma coisa? Nenhum deles consegue escrever mal.

Parabéns à Ordem dos Psicólogos e à Leya por esta parceria. www.encontreumasaida.pt

Sinopse

“Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda.
Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós.
A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída.”

Teorema, 2016

publicado por marcia às 22:34
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Domingo, 16 de Outubro de 2016

Eu Sou a Árvore - Possidónio Cachapa - Opinião

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“Todas as Árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta.

Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície.

“Toma os meus frutos, com os meus filhos dentro, que são eu, na forma primitiva, e faz de mim um ser que corre”, pedem as árvores aos deuses, na sua súplica.” (Pág. 15).

Fica-me, de alguma forma, pouco para dizer depois da leitura de Eu Sou a Árvore. É um livro forte, muito bem estruturado e com personagens intensas, humanas, cheias de lugares sombrios visitadas por alguns rasgos de luz.

Os anos passam por Samuel e pela sua família. A mulher Jude e os três filhos seguem o sonho do homem que deseja viver da terra. Deixam a cidade e permitem que o campo lhes molde os passos e condicione as decisões. Mais do que falar ou escrever sobre este livro, guardo as reflexões a que me obriga o percurso das personagens. O amor será sempre suficiente para seguir os sonhos do nosso par, mesmo que os nossos não sejam compatíveis e tenham de ficar, necessariamente, para trás? Ou poderemos tornar nossos os sonhos do outro? Como se pode viver sem haver lugar para os nossos desejos?

Pode o próprio Samuel, que vive as suas escolhas, ser plenamente feliz com uma família que o segue, mas não partilha dos seus entusiasmos? E poderá este grupo, esta família, manter a coesão ao longo dos anos? Ou, ao contrário, irá delapidar-se nos silêncios do que fica por dizer (mas não por sentir)?

Os anos cruzam-se ao longo das páginas, como se o passado e o futuro fossem pistas. Não para adivinhar o final, mas para pensar, refletir muito, quer o livro esteja aberto durante a leitura, quer esteja fechado e não nos liberte os pensamentos.

A força de Samuel fica. Persiste. Não cede a ventos ou temporais. É como a árvore que não sai do lugar, com o bom e o mau que essa determinação pode trazer. Porque os homens não são árvores. E só podem abrigar junto a si quem quer viver o mesmo sonho.

Eu Sou a Árvore é realista e por vezes cruel. Eu diria mesmo que é incómodo, que choca e que revolta. Mas é construído na medida certa, com a ponderação inteligente de quem sabe dosear o horror e a beleza, a violência e a ternura, a subtileza e o pragmatismo.

Um livro que permanece.

Sinopse

“Entre os homens e as árvores há tanto em comum que por vezes não se sabe onde começam uns e acabam outros.

Samuel acredita que lhe basta um solo fértil para ser feliz e, sendo-o, permitir que todos o sejam tanto como ele. Mas mulher sonha longe, os filhos guardam segredos, e a força brutal dos seus gestos de patriarca deixa marcas inesperadas naqueles que ama.

No seu esperado regresso ao romance, Possidónio Cachapa colhe um livro onde a Natureza e o Homem vivem misturados, moldando-se e afeiçoando-se mutuamente, enquanto o tempo se some como um carreiro de água em terra seca.”

Companhia das Letras, 2016

publicado por marcia às 20:11
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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2016

Velocidade Pessoal - Rebecca Miller - Opinião

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Não é fácil explicar o que me atraiu nos Contos de Velocidade Pessoal, mas a verdade é que houve sempre algo que me fez voltar a este livro, mesmo tendo várias leituras em curso. À semelhança do que se passa com livros maiores, que nos prendem, e pedimos inconscientemente, a nós próprios, “só mais uma página”, dei por mim a pedir “só mais um Conto” de cada vez que terminava cada uma destas histórias curtas.

São sete Contos, sobre sete mulheres, cada um com o nome da mulher que é personagem principal. Histórias isoladas, excepto em dois casos, o Julianne e Bryna que, completando-se, oferecem uma visão diferente e interessante deste tipo de histórias.

Rebecca Miller foi-me conquistando com a sua linguagem simples e crua. Talvez tenham sido as personagens banais, daquelas com quem convivemos e que se podem cruzar connosco na rua, que me convenceram. São mulheres a quem atribuímos um rosto, não só pela sua construção e caracterização admiráveis, mas também pela proximidade que vão ganhando junto de quem lê este livro.

Uma leitura fácil e envolvente, mas que vai muito além do simples entretenimento. Gostei bastante.

Sinopse

Livro de contos, que constitui a estreia literária de Rebecca Miller (n. 1962, filha do escritor Arthur Miller), e o jornal Washington Post classificou como o melhor livro de 2001. São sete histórias, quase todas retratos de mulheres de meia idade, histórias que acabam por se ligarem entre si, completando-se.

Relógio d’Água, 2004

Tradução de Nuno Bon de Sousa

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 21:07
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Domingo, 2 de Outubro de 2016

A Partir de Uma História Verdadeira - Delphine de Vigan - Opinião

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Normalmente não escrevo sobre os livros de que gosto menos. A verdade é que não costumo prosseguir uma leitura que não me entusiasma, e daí não fazer sentido comentar livros que não terminei.

Neste caso o livro foi lido até ao fim. Apesar de me entediar em algumas partes, a expectativa de um final imprevisto e fascinante manteve-me crente de que valeria a pena prosseguir com a leitura.

Foi-me muito recomendado, as estrelas do Goodreads brilham sem parar, e são frases como estas (contracapa) que me fazem acreditar que há livros que podem fazer uma grande diferença:

“Thriller diabolicamente perverso. Vertiginoso mise en abyme psicanalítico.”

Uma pessoa até esfrega as mãos antes de se atirar ao livro.

Mas na verdade, e infelizmente (para mim), foram quase quatrocentas páginas de uma história que é uma cópia descarada de muitas outras. Ou deverei dizer que tem influências? Só para não parecer tão mal… Menciono apenas três, que foram as que comigo permaneceram durante toda a leitura em flasbacks constantes. Temos diversas cenas do filme Jovem procura companheira, numa versão fraquinha que até mete dó. Há frequentes tentativas de “passear” pelo O Escritor Fantasma, de Zoran Zivkovic, e o mais descarado pastiche (mal feito) vai para Misery, de Stephen King. Até a situação do pé partido é igual.

Bom, mesmo assim continuei. Sempre à espera do grandioso e surpreendente final. À medida que vejo passar as últimas páginas e o texto vai reduzindo para o inevitável fim, apercebo-me que não vai haver espaço para qualquer reviravolta. E assim cheguei à última página, certa de que me teria escapado alguma coisa. Li o final três vezes. Era mesmo só aquilo.

Deixo aqui a sinopse só por piada.

Sinopse

“A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente.”

Quetzal, 2016

Tradução de Sandra Silva

Uma leitura Roda dos Livros – Livros em Movimento

publicado por marcia às 23:02
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Os Malaquias - Andréa del Fuego - Opinião

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Eu estava de saída para o Folio, no dia 22 de setembro, quando num impulso, voltei atrás e tirei Os Malaquias da estante.

Já o tenho há três anos e, apesar da curiosidade, foi ficando para trás, preterido por outras leituras. Já desconfiava que seria um óptimo livro, foi vencedor do Prémio José Saramago 2011, sendo que os prémios nem sempre são indicativos seguros de que um livro me vai agradar. Mas a verdade é que gostei muito. E quando assisti à sessão, no dia 23, com Andréa del Fuego e Afonso Cruz (moderação de João Paulo Sacadura), sobre o lugar do fantástico na literatura lusófona actual e a criação de universos imaginários, já ía a meio do livro.

Os Malaquias foi o meu companheiro do Folio (falamos de livros, entenda-se), e foi uma excelente opção. Durou exactamente os dias que tive disponíveis para o festival, e ficará sempre associado ao evento.

Em relação à história e à escrita, posso dizer-vos que são ambas surpreendentes. O início do livro é de ficar sem pinga de sangue, e basta ler a primeira página do segundo capítulo para saber que o argumento tem um potencial incrível, e que Andréa tem um estilo único (e espectacular). Não resisto a deixar-vos aqui a dita página, para que se impressionem (espero eu).

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Esta é a premissa, três crianças sozinhas numa casa onde os pais morreram fulminados por um raio. Desafio-vos a lerem este livro, a deixarem-se levar por um realismo que não sei se é mágico, mas que é de uma irrealidade incrível e estranhamente verosímil. Acredito nas palavras de Andréa. Acredito numa aldeia que desapareceu debaixo de água, mas que, mesmo assim, continuou a acolher habitantes. Acredito que um homem pode desaparecer dentro de um bule, através do passador. Acredito em todas as histórias que me fazem ficar presa a um livro até o terminar e que, já agora, me proporcionam uma viagem de fazer esquecer o que está ao redor.

Gostei ainda mais do Folio por me ter feito, finalmente, descobrir Os Malaquias.

Sinopse

“Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. Antônio, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós.
Uma escrita áspera mas poética, desenhada com a vertigem das memórias da família Malaquias, e que evolui como tributo pessoal da autora aos seus antepassados.
Transcendental e mágico, este romance do insólito revela-se uma leitura para o coração.
Um livro forte, aclamado, invulgar.

Vencedora do Prémio Literário José Saramago 2011
Finalista do Prémio São Paulo de Literatura e do Prémio Jabuti, na categoria romance, ambos em 2011.”

Porto Editora, 2012

 

publicado por marcia às 17:33
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Domingo, 25 de Setembro de 2016

Daytripper - Fábio Moon e Gabriel Bá - Opinião

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Daytripper é um dos livros que, este ano, me começou a aguçar o interesse por novelas gráficas. Não o encontrava publicado por cá, até que a Colecção Novela Gráfica da Levoir, que infelizmente já terminou, mo fez chegar à estante.

Li-o de uma assentada e as expectativas não foram defraudadas. A leitura é empolgante e, acima de tudo, emocionante. Adorei os desenhos dos irmãos Fábio e Gabriel, e a história acompanha o nível do talento gráfico.

Recomendo que descubram a história de Brás de Oliva Domingues, o homem que morre no fim de todos os capítulos. Como pode acontecer a qualquer um de nós, num ou outro capítulo da vida. Uma premissa simples e óbvia que é desenvolvida com profundidade impressionante, explora emoções, e aposto que não deixará ninguém indiferente.

Descobrir a leitura que só as imagens permitem tem sido uma viagem nova e incrível. É um caminho que está no início e que quero continuar a fazer.

Sinopse

“A vida de Brás de Oliva Domingues é marcada pelas suas inúmeras mortes: a vida de um homem normal, com os seus momentos importantes, os seus sucessos e falhanços, esperanças, mudanças e cada capítulo encerra com a morte de Brás. Um livro que analisa as grandes questões da vida e que surpreendeu internacionalmente aos leitores.”

Tradução de Pedro Cleto

Grafismo e legendagem de Rui Alves

Levoir, 2016

publicado por marcia às 18:55
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Domingo, 11 de Setembro de 2016

Uma Parte Errada de Mim - Paulo M. Morais - Opinião

Uma Parte Errada de Mim.jpg

Tenho o hábito de começar a ler vários livros ao mesmo tempo. Não me incomoda começar um livro sem ter terminado outro(s), acho mesmo que é uma forma de fazer uma triagem. Há os que me levam a lê-los até ao fim e há os que ficam pelo caminho.

Curiosamente, e por estar a gostar tanto de uma das leituras que tinha em curso, no dia em que este livro chegou até mim, decidi (achava eu) que lhe pegaria quando terminasse o outro. Mas apenas por curiosidade (ou fraqueza) decidi ler o prefácio. Enfim, mais duas páginas da introdução não fariam mal nenhum. Dei uma olhada no primeiro capítulo só para ver como começava a coisa. Quando me apercebi o primeiro capítulo estava lido. Mantive, mesmo assim a decisão de o guardar para mais tarde, até porque o primeiro capítulo me foi um pouco doloroso de ler. Ou seja, refreei-me para não passar a noite agarrada ao livro (sim, gosto de leituras dolorosas), de modo a poder dedicar-me, no dia seguinte, a coisas mundanas, como trabalhar.

Mas o bichinho ficou lá. O Javier Cercas que me perdoe.

Acompanhei os ciclos deste livro na altura em que aconteceram, através das redes sociais. Nunca consegui tecer comentários. Confesso que a exposição do Paulo sempre me impressionou. Não sei se lhe chame coragem ou loucura, mas fiquei sempre com uma sensação estranha de me estar a intrometer em algo muito pessoal. Não acho bem nem mal, simplesmente sentia algum desconforto por ler coisas demasiado íntimas. Mas acompanhei. E preocupei-me. Nunca entendi o que o levou a tal exposição. Este livro ajudou-me a perceber.

Bom, mas para quem não sabe nada sobre o livro nem leu os posts (haverá alguém?), este é o percurso de um homem a quem foi diagnosticado um linfoma (grande e agressivo). É o relato dos oito ciclos de quimioterapia. É uma profunda reflexão de vida que vai muito para além da doença, mas que, se calhar, foi possível porque uma série de acontecimentos (incluindo este terrível diagnóstico) proporcionaram essa viagem, não de descoberta, mas talvez, de aceitação.

Ficam já a saber que o livro não é nada lamechas nem propício a choradeiras. Não terá leitores pelo apelo ao sentimento, mas sim pelo racionalismo com que expõe os factos de uma vida em forma de viagem. Sim, profundas viagens ao passado. Algumas até à infância, numa busca de causas ou motivos para ser como é. Outras mais próximas, já na vida adulta, a mesma procura de respostas. Também não é um livro de auto-ajuda. Não aponta o certo nem o errado, nem pretende defender teorias.

É uma descoberta e é a partilha dessa descoberta. É um relato sem medo e de uma lucidez admirável, que se lê de uma penada. Com a sua escrita limpa e fluída o Paulo levou-me rapidamente até à última página, obrigando-me, com a sua acutilância e capacidade de levantar questões, a pensar no meu próprio percurso, a questionar, como ele, o significado que as grandes mudanças (as que aparecem de surpresa e que não escolhemos) podem ter naquilo que somos ou iremos ser.

Profundamente libertador por mostrar com a mesma sinceridade a tristeza e a felicidade, é um livro honesto que se dá a ler sem se preocupar que gostem dele. Exige de quem lê, mas dá em troca, dá muito, eu senti-me claramente a ganhar pelo que ficou comigo depois de o ler.

Impressionou-me a capacidade de resiliência. Ficam comigo os momentos de grande ternura entre pai e filha, a chegada do amor da Isabel, a avó Nana, e a forma carinhosa com que o Paulo se refere aos amigos. E os livros claro, que não há melhor que ter um cancro para se receber pilhas de livros. Não sei se referi o humor negro… uma especialidade!

É um livro de uma luz intensa. Leiam-no!

Sinopse

“Em meia dúzia de meses, Paulo M. Morais ficou sem trabalho, terminou um relacionamento de doze anos e viu-se obrigado a vender a casa. Embora derrotado pelas circunstâncias, queria estar à altura dessa nova etapa de vida e concentrou-se na missão de cuidar da filha pequena e reatar os laços com a avó centenária que o criara. Sobreveio, então, um estranho cansaço, uma exaustão que a médica de família inicialmente atribuiu às pressões de um ano atípico. Podia ser. E, porém, depois de vários sustos e vinte horas nas Urgências do hospital, a verdade veio ao de cima: tinha um linfoma.

Durante o tratamento de oito ciclos de quimioterapia, começou a escrever sobre a sua experiência.

Mas este livro, embora inclua dados sobre os exames, os internamentos ou os efeitos secundários da medicação, está longe de ser um diário da doença; é, antes, uma reflexão magistral sobre a condição humana, escrita com a beleza e a cadência de um romance no qual se aguarda um final feliz.”

 

Casa das Letras, 2016

publicado por marcia às 23:39
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A guerra dos Balcãs impressiona-me muito, por isso...
Estou a ver que gostaste!
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Tenho ouvido falar muito (e bem) deste livro. Que ...
É bastante bom! É ler! É ler!

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