Sábado, 28 de Dezembro de 2013

Revolução Paraíso - Paulo M. Morais - Opinião

 

Os comentários lidos e ideias partilhadas na Roda dos Livros não me tinham preparado para a excelência de “Revolução Paraíso”. As expectativas eram elevadas e antevi que o tema, bem explorado, poderia permitir uma leitura diferente sobre uma época falada mas raramente alvo de um escrutínio “mais à séria”. Talvez por se tratar de uma época recente, por haver pouco conhecimento e pouco interesse, ou talvez pouco interesse por haver pouco conhecimento.

A verdade é que quem desconhece a época “quente” e conturbada que medeia o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, ou a desconheça completamente e não tenha interesse em investigar (como eu fiz várias vezes, que sou interessada e curiosa mas já nasci em democracia), vai sentir que a História lhe passa ao lado, vai perder brilhantes requintes de ironia e de um humor de alto nível que Paulo M. Morais proporciona a quem se entrega a esta leitura.

Personagens fiéis à época, pelo que consigo imaginar pois as minhas recordações não chegam tão longe, que falam, agem e vivem uma constante revolução, tempos loucos de uma liberdade que se aproveitava sofregamente mesmo não sabendo, algumas vezes, o que fazer com ela. Uma banda sonora das músicas que todos conhecemos, a intervenção nas ruas e a vida de todos os dias com muitas cores. Por vezes um bocado louco, a antítese da opressão vivida até então que, muitas vezes, leva a extremos pouco recomendáveis. Retrato de um país sem rumo, num risco real de guerra civil, que se desenvolve dentro da habitual bandalheira que caracteriza o nosso povo e na qual, aliás, continuamos a viver.

Retrato não só de uma época mas dos portugueses passados e presentes, com tudo o que de bom e mau nos caracteriza. Difícil escolher uma personagem favorita, pelo menos das reais, traçadas e descritas com uma qualidade tão boa que até assusta, Paulo M. Morais até mete nervos de tão bem que escreve. Para atazanar ainda mais qualquer aspirante a escritor ainda se sai com aquelas fabulosas tiradas Queirosianas. Um trabalho exemplar que deve ser lido e reconhecido. Excelente.

Sinopse

“Alternando realidade e ficção, um romance que nos transporta aos agitados dias da pós-revolução: o retrato de um país que, entre o PREC e as eleições livres, procura um novo rumo.
Enquanto nas ruas se decide o futuro de um país, na tipografia de Adamantino Teopisto vive-se um misto de enredo queirosiano, suspense de um policial e ternura de uma novela: com sabotagens, amores proibidos e cabeças a prémio; tudo num ambiente de revolução apaixonado.
O rebuliço generalizado tem repercussões no alinhamento do jornal e no dia a dia das gentes de São Paulo e do Cais do Sodré.
A revolução é o tópico das conversas nas tascas, nas ruas, no prédio da Gazela Atlântica, contribuindo para o exacerbar das tensões latentes entre o patrão Adamantino e os funcionários. A vivacidade de uma estagiária, as manigâncias de um ex-PIDE foragido, os comentários de um taberneiro e as intromissões de um proxeneta e de uma prostituta, agravam ainda mais a desordem ameaçadora que paira no ar.
Nada foi igual na vida dos portugueses após a Revolução dos Cravos. Nada foi igual na vida da "família" Gazela Atlântica após o 25 de Abril.”

Porto Editora, 2013

publicado por marcia às 21:15
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2 comentários:
De Nuno Chaves a 29 de Dezembro de 2013 às 11:33
Hum.... Fiquei com água na boca com esta tua opinião!
Quero ler!!!
De marcia a 29 de Dezembro de 2013 às 14:26
Vale a pena!

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