Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Os Livros que Devoraram o Meu Pai - Afonso Cruz - Opinião

 

“A vida, muitas vezes, não tem consideração nenhuma por aquilo que gostamos. Contudo, o meu pai levava livros (livros e mais livros!) para a repartição de finanças e lia à escondidas sempre que podia. Não é uma atitude que se aconselhe mas era mais forte do que ele. (…) Uma tarde, uma tarde como tantas outras, o meu pai estava a ler um livro que mantinha debaixo dum impresso de IRS para que o chefe não reparasse que ele não estava a trabalhar. E foi nessa tarde que ele, de tão embrenhado, tão concentrado na leitura, entrou livro adentro.“ (Págs. 12,13,14).

Depois de começar a ler é impossível parar. Qualquer apaixonado por livros se identifica e sente atraído pelas descrições. Ler aumenta a criatividade e transforma-nos em realizadores de filmes na nossa cabeça, quem nunca falou com os personagens ou desejou mudar o rumo da história?

Eu nunca levei livros para ler às escondidas no emprego como Vivaldo Bonfim mas gostava. Gostava mesmo muito de, em certas alturas do meu dia, poder desaparecer para dentro de um livro e ficar rodeada pelas paisagens que imaginei, falar com heróis e até mesmo com assassinos. Estar em constante busca de muitas verdades e aventuras. Ter um sótão para ler e experimentar vidas falsas como se fossem verdade, estar sozinha mas não o sentir por estar sempre rodeada de ideias, não só ler mas verdadeiramente viver dentro de um livro.

“Os Livros que Devoraram o meu Pai” é fisicamente curto mas tem uma dimensão do tamanho da fé que depositamos nos livros. Para mim um livro gigante. Mais uma leitura que, terminada, me coloca mais perto da certeza que Afonso Cruz não consegue escrever livros maus.

Obrigada Elias Bonfim pelas viagens e pela determinação em encontrar respostas. Também quero procurar caminhos e, mesmo que não os encontre nos mesmos locais, ficou a vontade de descobrir “A Ilha do Dr. Moreau” e “Fahrenheit 451”, que sinto já terem a porta semiaberta.

“Há inúmeros lugares onde um ser humano se pode perder, mas não há nenhum tão complexo como uma biblioteca. Mesmo um livro solitário é um local capaz de nos fazer errar, capaz de nos fazer perder. Era nisto que eu pensava enquanto me sentava no sótão entre tantos livros.” (Pág. 28).

“Atravessar a Rússia significa percorrer onze fusos horários. Quando numa ponta do país é de dia, a outra é de noite. A Rússia é como a alma humana. Se tem um lado luminoso, é porque a outra ponta está no escuro. Somos todos feitos desta estranha mistura de fusos horários.” (Pág. 86).

Sinopse

“Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.”

Caminho, 2013

publicado por marcia às 23:11
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