Terça-feira, 26 de Março de 2013

contracorpo - patrícia reis - opinião

 

Morte. Solidão. Silêncio.

Contracorpo é um livro marcante. Aparentemente sobre a morte mas no fundo sobre a recuperação, sobre quem sobrevive à morte.

Este livro tem uma escrita inesperadamente suave tendo em conta o tema, é algo difícil de explicar mas que me transmitiu calma e alguma serenidade. Li com prazer e apreciei (mais uma vez) a forma como a Patrícia Reis enche as palavras de emoções, cria frases que fazem meditar, com que muitas vezes me identifiquei e levei comigo depois de fechar o livro.

Não vivi a experiência de perder o pai ou o marido mas é-me muito próxima uma história de um pai que parte deixando mulher e dois filhos, um deles ainda criança e outro pré-adolescente. Tentamos entender e apoiar aqueles que amamos e eu pensei que talvez pudesse compreender e aceitar que acontecem coisas más a pessoas boas, que basta um instante para tudo mudar radicalmente. Continuo sem entender a morte. A dor da morte. A estupidez de interromper uma vida, deixando marcas profundas que os anos não aliviam.

Perder o pai na juventude/infância condiciona todo o futuro. Significa uma perda irrecuperável e incompreensível, que gera revolta e faz um filho perder o chão, desinteressar-se, desintegrar-se, nunca mais aceitar…a morte.

É aqui que Maria marca a diferença da história que eu conheço. A mãe salva ao filho e, ao mesmo tempo, procura a sua salvação. Quer encontrar de novo o eixo da sua vida, não sabe como mas parte até descobrir.

Partem os dois, mãe e filho, Maria e Pedro, numa viagem que é uma fuga e uma busca, um deixar cair e um correr atrás. Não sei onde encontra Maria vontade de viver ou se simplesmente inventa essa vontade para se convencer que a tem. Mas sabe que já perdeu o marido e não quer perder o filho, não quer que o silêncio lhe ganhe terreno e lhe leve Pedro para longe, mesmo estando ao seu lado.

Sabemos o que importa na vida. Sabemos defender valores supremos. Mas conseguiremos realmente discernir o que importa nas alturas mais duras? Saberemos escolher? Deixar para trás materialismos, dinheiro, emprego, correndo o risco de regressar e não ter nada mas apostar tudo em não perder um filho?

Maria arriscou.

“Maria hesita em continuar a falar. Cala-se. De repente sente medo. O filho despe a camisola, as calças, vai à casa de banho. Ouve-o, os tais gestos que adivinha, todos os detalhes, mesmo os mais pequenos, como se os estivesse a ver. Era tão pequeno. E agora? Quase um homem. Quando Pedro regressa ao quarto, deita-se a medo. A cama é curta. E estreita. Maria sorri e fecha o livro.

Dorme bem.

Boa noite mãe.

Na escuridão do quarto, Pedro continua de olhos abertos. Há uma luz que vem da janela, por vezes passa um carro e o barulho vem de longe, aproxima-se afasta-se. De repente pergunta

Tens medo de quê mãe?

Ah, do escuro, de aranhas, que vos aconteça alguma coisa. Não sei. E tu, Pedro?

Às vezes acho que não tenho medo de nada, tento não pensar nisso. Outras vezes tenho medo dos dias a seguir. Do futuro.

Sabes, uma das coisas que aprendi é que não vale a pena pensar no futuro. A vida troca-nos as voltas.

Pois. Boa noite mãe.

Boa noite.” (pág. 106)

Recomendo sem qualquer reserva.

Sinopse

“Uma mulher fica viúva com dois filhos. Alguns anos depois da morte do marido, a vida não se refez e o filho mais velho, agora adolescente, cresce contra a mãe, num silêncio obstinado que só quebra nas histórias que se conta para adormecer e nos desenhos que faz de forma compulsiva. Com o anúncio do chumbo escolar, a mãe decide, sem grandes reflexões, fazer uma viagem com este filho, deixando o pequeno com os avós. Não se trata de uma viagem com destino, mas antes uma procura. Contracorpo é um livro contra o silêncio e sobre o silêncio. É uma história de procura de identidades distintas - da mulher e do quase- homem -  e ainda de descobertas. Uma mãe nunca é o que se espera. Um filho é sempre uma surpresa. O encontro dá-se enquanto procuram caminhos, de Lisboa a Roma, num jogo de claro escuro. Como se tudo fosse uma imagem.”

D. Quixote, 2013

publicado por marcia às 21:54
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