Domingo, 22 de Maio de 2011

Por Este Mundo Acima - Patrícia Reis - Opinião

 

Poucas foram as vezes em que um livro me deixou sem palavras. Normalmente fecho a última página cheia de vontade de falar, opinar e discutir. “Por Este Mundo Acima” fez-me pensar em tantas coisas enquanto o li, mas não me permitiu ter uma opinião imediata. Se calhar é um livro a digerir com calma, eu sinto que ainda o estou a “mastigar”.

Difícil é imaginar no que se pode tornar a nossa vida após uma catástrofe. Neste livro é-nos descrito o mundo depois de um “acidente” do qual nunca sabemos pormenores, apenas sabemos que tudo está destruído, que a maioria das pessoas desapareceu, e as que restam procuram caminhos. Caminhos que são percursos do passado, vividos de lembranças e pensamentos, e modos de viver o presente.

Pode parecer estranho mas este livro sugere-me uma palavra: “Tempo”. O tempo que perdemos nas nossas vidas sempre a correr, e o tempo que sobra, com o qual não sabemos lidar nem como preencher quando tudo muda.

Eduardo foi editor e agora vagueia pelos destroços deste mundo desfeito. Procura alimentos, medita sobre todas as coisas que se perderam, na vida que viveu, no carinho dos amigos ausentes. E porque quem procura acaba sempre por encontrar, descobre pistas do passado das pessoas que conheceu, das suas vidas ocultas, das coisas que nunca imaginou porque se calhar nunca olhou para os outros sem ser na correria dos percursos que se cruzam, muitas vezes por acaso. Porque sabemos que nas nossas vidas pouco tempo temos para nós e para os outros, vivemos a pensar no que temos para fazer e no pouco tempo que temos para fazer tudo o que queremos ou nos é imposto. Será preciso uma tragédia para termos tempo para pensar? Para meditar sobre o que perdemos? Será uma lição? Aprender a ter tempo? Aprender a viver verdadeiramente? Concluir que habitamos um planeta super-povoado mas não conhecemos verdadeiramente ninguém?

Nesta fase de desolação Eduardo descobre “O Livro”! Aquele que nunca editou mas que é o melhor de sempre, o que deveria ter chegado a toda a gente. Curiosamente um livro que esteve muito tempo consigo mas que ainda não tinha lido, e agora? Será tarde demais?

Gostei da relação que se desenvolve entre Eduardo e Pedro, um rapazinho que cresce neste cenário de destruição, a quem Eduardo ensina, orienta, pode dizer-se que, dadas as circunstâncias, educa. Passam-se anos assim, tantos que me questiono porque não se reconstruiu tudo? Porque continuam as personagens deste livro a errar no vazio sem sinais de recuperação? Que é feito do poder de recuperação do ser humano?

Bom, um livro que me faz pensar e que me acompanha depois de o ter terminado (mesmo já tendo iniciado outro). Gostei de me deixar levar pela (imensa) criatividade da autora, viajei e vivi nesse lugar, seja lá onde for.

Sem dúvida um ponto de partida para conhecer os restantes trabalhos de Patrícia Reis. Bastante recomendado! Marcante!

Sinopse

“Um cenário de terrível desastre assola Lisboa. Poderia ser em qualquer outro lugar do mundo. Os escombros passam a ser paisagem, a cidade e as relações humanas transformam-se vertiginosamente. Entre os sobreviventes há um homem, um velho editor. Procurando amigos e amores desaparecidos encontra um manuscrito e um rapaz e, neles, a porta para uma outra dimensão da vida.”

Dom Quixote, 2011

publicado por marcia às 20:40
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